Gamarra simboliza a nova onda de empreendedorismo do Peru

Polo confeccionista reúne 25 mil empresas, como a do estilista Jorge Salinas, que sonha participar da São Paulo Fashion Week 

Márcia De Chiara, enviada especial,

03 de maio de 2014 | 16h02

Jorge Luis Salinas, premiado estilista peruano, encerrou o desfile deste ano da coleção de inverno da sua marca, a Emporium, na passarela do Lima Fashion Week usando uma camiseta com a frase "Peru es Gamarra". O slogan reflete a onda de empreendedorismo que existe hoje no país.

Localizado no distrito de La Victoria, uma área pobre de Lima, Gamarra é um dos maiores polos confeccionistas da América Latina e tem como pilar o algodão peruano, cuja qualidade é comparável ao egípcio. Reúne 25 mil empreendedores espalhados pelas 44 quadras e emprega 100 mil trabalhadores. A região gira US$ 1,5 bilhão por ano. Mas nem sempre foi assim.

Até os anos 80, Gamarra era uma área de prostituição e alta criminalidade. O cenário mudou com o crescimento da economia e o próprio esforço dos empresários locais. "Tivemos muita dificuldade na época do governo militar e do terrorismo", lembra Diógenes Alva Alvarado, presidente da coordenadoria dos empresários de Gamarra, que há 47 anos está na região. "Com o progresso da mineração e de outras atividades, todos vieram comprar roupas aqui", explica Salinas, que representa a nova geração de empreendedores, que ganhou força com o bom momento econômico que existe no país.

Nascido em Gamarra, na mesma rua onde fica a sua confecção que emprega cerca de 200 trabalhadores entre costureiras, vendedores e até engenheiros de produção, o estilista, de 42 anos, resgatou a história de empreendedorismo da família, interrompida pela crise que se abateu sobre o país nos anos 80.

Cinquenta anos atrás, o pai, migrante da serra, e a mãe, vinda de um povoado do norte, foram para Lima e se instalaram em Gamarra para fabricar roupas. A mãe, Claudia, começou a costurar muito cedo, aos 12 anos. Claudia confeccionava as roupas que levavam o seu nome e eram vendidas pelo marido na loja da marca e nas províncias vizinhas. "Com 1.000% de inflação na época do Alan Garcia, todos vieram abaixo", lembra Salinas. A crise fez o pai mudar para o ramo imobiliário e a mãe fechou a confecção.

Apesar de o negócio ter sido atropelado pela crise, o gosto de Salinas pela moda persistiu. Depois de concluir o colégio no Peru, ele foi para os Estados Unidos, onde se graduou em design de moda na Universidade da Filadélfia. De volta para casa, na metade dos anos 90, emprestou da mãe quatro máquinas que lhe restavam e começou a fabricar calça jeans.

No começo, diz Salinas, entre 1998 e 2006, fabricou jeans para a loja chilena de departamentos Falabella com a marca da rede varejista. "A partir de 2007, eu não quis mais fazer a marca deles com os meus desenhos." Nesse mesmo ano, ele recebeu uma proposta da varejista também chilena Ripley, uma espécie de Daslu dos Andes, para abastecer a rede com a sua marca de jeans. Hoje o estilista produz 150 mil calças por ano, que abastecem 23 unidades da Ripley no Peru e as suas sete lojas.

Vinte anos depois da nova investida da família Salinas no mundo da confecção, os resultados são invejáveis tanto em vendas como em reconhecimento. Pelas suas coleções, Jorge Salinas obteve prêmios internacionais, como o Gent Art em Nova York, o Avant Garde Fashion Week de Miami, da revista Vogue em espanhol e o da semana de moda masculina da Alemanha.

Até 2016, Salinas quer faturar US$ 7,1 milhões por ano. Em 2013, foram US$ 5,3 milhões. Em três ou quatro anos, planeja ter 30 lojas próprias em todo o país. "Hoje estou em Lima e em algumas províncias. Há muito para vender em todos os rincões do Peru", diz, ressaltando que não tem planos de exportação no momento. Fora do país, o sonho do estilista é estar no São Paulo Fashion Week. "Acho que São Paulo Fashion Week é o mais top do mundo em termos de moda, mais que Nova York. Gostaria de participar e estou trabalhando para isso." 

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