Gangorra das commodities dá indicações para 2009

Há apenas um ano o debate sobre os preços dos grãos era simples: o quão alto era alto? A enorme demanda global por grãos, estocagem de alimentos pelos governos, preocupações climáticas motivadas por secas, tempestades e inundações; basicamente todos os fatores de valorização dos produtos que alguém poderia imaginar atingiram os mercados. A psicologia de ofertas escassas também foi transmitida para outras commodities, especialmente metais industriais, já que a China e a Índia elevaram rapidamente o consumo desses materiais conforme suas economias corriam para se transformar e modernizar. O elemento final para a "tempestade perfeita" que conduziu as commodities a uma alta estratosférica foi o tsunami de Wall Street e outros recursos especulativos que, frustrados por ações e bônus estagnados, finalmente embarcaram no trem das commodities. O índice Reuters-Jefferies CRB, referência que monitora os futuros de 19 commodities, estava em 358,71 pontos em 31 de dezembro de 2007 e saltou 32 por cento, para um recorde de 473,97 em 3 de julho de 2008. Então, num piscar de olhos, tudo despencou. Até o começo de dezembro, o índice caiu para o menor patamar em seis anos e meio, de 208,58 pontos, 56 por cento abaixo comparado às altas observadas na metade do verão. A crise econômica global vinculada à indisponibilidade de crédito dos bancos --força vital de todos os mercados-- atingiu Wall Street, mas também arrastou as commodities para baixo. "Um grande começo e um final inesperado", afirmou Rich Feltes, diretor da MF Global Research, em Chicago. Os preços do trigo nos EUA ultrapassaram 25 dólares por bushel --o recorde anterior era de 7,50 dólares--, motivados pela queda dos estoques norte-americanos ao menor nível 60 anos. Inundações no Meio-Oeste e o boom dos biocombustíveis colocaram o milho acima de 7 dólares por bushel, triplo da cotação média das últimas décadas. Em julho, os futuros do petróleo beiravam o patamar de 150 dólares o barril. "O principal fator negativo para todas essas commodities é o lado da demanda na equação com o mal-estar econômico", acrescentou Bill O'Neill, parceiro administrativo da Logic Advisors LLC e ex-diretor de pesquisa em commodities do Merrill Lynch. A pergunta para o próximo ano? O quão baixa será a baixa? "Conforme nos aproximamos de 2009, eu acho que é importante perguntarmos se esse dinheiro de fundos voltará", questionou Feltes. "As commodities não serão o principal indicador", disse ele. "A economia precisa dar a volta primeiro. Tem de haver fundamento para justificar um PIB mais alto e melhorar a demanda por commodities antes que os investidores se sintam à vontade para retornar ao mercado de futuros", concluiu o diretor da MF Global Research. DE OLHO NOS GRÃOS A epidemia da crise de crédito não mostra sinais de breve melhora e a esperança da maioria dos investidores está voltada para as novas políticas e medidas que a administração de Barack Obama promete estabelecer agressivamente a partir de janeiro nos EUA. A velocidade com a qual isso pode estimular o crescimento econômico e a confiança dos investidores é uma questão em aberto. Mas no meio das commodities, um lugar para se ficar de olho podem ser os grãos. Vários fatores podem tornar os alimentos e biocombustíveis uma alavanca para a recuperação das commodities. "O tópico que tivemos na última metade deste ano era todo sobre a destruição da demanda", declarou Dan Basse, presidente da consultoria AgResources, em Chicago. "Nós estamos preocupados com a destruição da oferta começando do meio para o final do inverno e com o mercado especulativo agrícola na segunda metade de 2009", completou ele. Basse disse que a destruição da oferta --referindo-se à diminuição do cultivo global de grãos--, era um aspecto-chave a ser monitorado, bem como os biocombustíveis. Obama, de origem do maior Estado produtor de milho e soja dos EUA, promoveu os biocombustíveis. Porém, o uso de safras alimentícias para produzi-los tem sido crescentemente criticado devido à inflação dos alimentos. Ambientalistas dizem que a medida faz pouco para conter o aquecimento global. "O etanol tem sido um dos maiores condutores do mercado especulativo", acrescentou Basse. Outro fator que terá enorme influência sobre a recuperação dos preços das commodities é o valor do dólar. A moeda dos EUA fraca torna as exportações de grãos norte-americanos mais baratas, por exemplo. "O dólar continuará, pelo menos no começo do ano, influenciando todos os mercados de commodities", afirmou Bill Lapp, presidente da consultoria Advanced Economic Solutions.

CHRISTINE STEBBINS, REUTERS

24 Dezembro 2008 | 11h02

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