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Gangorra dos alimentos

Prognóstico do IRI, centro climático dos EUA, é boa notícia para nossa inflação

Fernando Dantas*, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2017 | 05h00

Que a inflação está caindo, não resta a menor dúvida. O IPCA, índice oficial da meta de inflação, recuou de 10,71% em janeiro de 2016 para 3,60% em maio de 2017, na medida acumulada em 12 meses.

Mas para quem acha que foi forte essa queda de 7,1 pontos porcentuais em menos de um ano e meio, é interessante observar o ocorrido com o item alimentação no domicílio do IPCA: no acumulado em 12 meses, ela saiu de um pico recente de 16,88% em agosto de 2016 para 1,16% em maio de 2017. Um recuo de 15,72 pontos porcentuais em apenas nove meses!

Segundo as projeções da consultoria LCA, o mergulho da inflação acumulada em 12 meses da alimentação no domicílio vai se aprofundar até meados de 2017 – quando haverá deflações de mais de 2% nesse item – e chegará próximo de 20 pontos porcentuais. Daí até o fim do ano, os preços dos alimentos devem se recuperar, mas ainda assim sua inflação deve fechar 2017 em 2,34%, bem abaixo da meta geral de 4,5%.

Os alimentos são um importante fator na inflação, com um comportamento complexo e parcialmente fora do controle do Banco Central (BC) e de seu instrumento principal, a fixação da taxa básica de juros, a Selic (que, por sua vez, influencia os juros de mercado e, portanto, a demanda e a inflação).

A alimentação fora de casa é mais determinada pela dinâmica dos serviços, mas a domiciliar segue a gangorra do preço dos alimentos. Estes reagem, claro, à demanda e ao câmbio, fatores que estão – principalmente o primeiro – no raio de ação da política monetária do BC. Mas os preços dos alimentos também estão, pelo lado da oferta, sujeitos a fenômenos naturais totalmente fora do controle das autoridades econômicas. Os principais são climáticos, mas pode haver também pragas, por exemplo, que comprometam a oferta de determinados produtos.

No Relatório Trimestral de Inflação (RTI) de junho, divulgado ontem, o BC publicou um boxe sobre a revisão de um dos seus modelos matemáticos utilizados para projetar indicadores econômicos e construir cenários. Nessa revisão, foi introduzida uma forma de captar os impactos na inflação de eventos climáticos, de olho na influência que estes fenômenos têm sobre a forte flutuação dos preços de alimentos.

A julgar pelas últimas previsões do prestigiado centro de previsões climáticas IRI do governo americano e da Universidade de Columbia, a maior probabilidade atualmente para o período que vai de meados de 2017 até o início de 2018 é de que o clima seja “neutro”. Isso significa não ocorrer nem El Niño nem La Niña, fenômenos climáticos de amplo impacto global, cuja manifestação principal é, respectivamente, o aquecimento ou resfriamento das águas do Pacífico Equatorial, especialmente na costa da América do Sul.

Na verdade, esse prognóstico do IRI é mais uma boa notícia no front inflacionário do Brasil. Em março, as projeções do centro de pesquisas indicavam que o cenário mais provável era de que o clima saísse do La Niña, que prevaleceu até o início deste ano, para uma gradual entrada no El Niño até o fim de 2017. Ambos os fenômenos causam alterações climáticas que podem ter variados impactos na agricultura, mas o El Niño costuma estar associado à elevação do preço dos alimentos.

Em março, o IRI atribuía probabilidade de 53% a que ocorresse o El Niño no último trimestre de 2017. Para o mesmo período, as probabilidades de La Niña eram de 11%, e as de clima neutro, 36%. Já no seu último relatório, de junho, as probabilidades de La Niña no último trimestre deste ano permaneceram em 11%, mas as de clima neutro (53%) e El Niño (36%) se inverteram.

O BC, portanto, parece ter o clima a seu favor no atual ciclo de queda da inflação e dos juros. Mas como quase tudo que vai acaba voltando, é bom ter em mente que a ajuda dos alimentos é uma sorte temporária, que hoje está jogando a favor, mas no futuro pode voltar a criar problemas.

*COLUNISTA DO BROADCAST E CONSULTOR DO IBRE/FGV

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