Ganho de bancos é o pior em 10 anos

Inadimplência e queda da taxa Selic fizeram o retorno médio dos maiores bancos privados cair de 33,7% em 2005 para 18,9% no último trimestre Itaú, Bradesco e Santander reclassificam risco de clientes e aumentam provisões para potenciais perdas

LEANDRO MODÉ, O Estado de S.Paulo

30 de julho de 2012 | 03h08

Os três maiores bancos de varejo do País apuraram no segundo trimestre a menor rentabilidade sobre o patrimônio em pelo menos dez anos. É o que mostra um levantamento da empresa de informações financeiras Economática, feito a pedido do 'Estado'. Juntos, Itaú, Bradesco e Santander apresentaram um retorno médio de 18,9% entre abril e junho, ante 19,7% em 2011 e 33,7% em 2005, pico dos últimos anos. Em parte, a queda é explicada pelo aumento da inadimplência em 2012.

Mas não é só isso, como explicam vários analistas, entre eles o presidente da agência de classificação de risco de crédito Austin Rating, Erivelto Rodrigues. "Temos um novo cenário para os bancos no Brasil e eles mostram que ainda não estão preparados para enfrentá-lo", afirmou.

Esse novo cenário é caracterizado por juros mais baixos (a taxa básica, Selic, está em inéditos 8% ao ano), concorrência acirrada (sobretudo por parte dos bancos públicos), spreads menores e restrições para a elevação das receitas de serviços (visto que o Banco Central impõe limites para a cobrança de tarifas).

Spread bancário é a diferença entre a taxa de juros que os bancos pagam para captar dinheiro e a taxa que eles cobram nos empréstimos.

Os próprios banqueiros vêm chamando a atenção para o tema. O presidente do Santander, Marcial Portela, afirmou, em recente entrevista ao Estado, que "a indústria financeira vai se transformar nos próximos dois a três anos" no País. "Não é algo para dez anos. Já vivemos uma transformação muito forte."

O presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco Cappi, também vem batendo nessa tecla. "A redução (dos spreads) é contínua e, nos próximos dois a três anos, vamos ver uma transformação muito grande", afirmou, durante a divulgação dos resultados trimestrais na semana passada. Na ocasião, Trabuco mandou um recado para o investidor: o Bradesco considera sustentável manter uma rentabilidade na casa dos 20% nos próximos anos.

Retorno menor. As palavras não vieram por acaso. Ainda que os bancões de varejo acertem o pé nos próximos meses e anos, muitos especialistas do setor apostam que a tendência é de redução da rentabilidade. Para eles, trata-se apenas de discutir a velocidade em que o processo se dará e em que nível o retorno se estabilizará.

"O retorno menor já era esperado, mas não acreditávamos que a queda se daria tão rapidamente", disse Jorge Augusto Saab, analista de renda variável da Rio Bravo Investimentos.

Um analista de uma grande corretora, que pediu para não ser identificado, avalia que, na média, os gigantes (em especial os bancos Itaú e Bradesco) vão conseguir manter o retorno na faixa de 19% a 20%.

"Essa é a minha aposta, mas outros analistas respeitados no mercado acreditam que, em dois ou três anos, a rentabilidade cairá para a faixa de 15%", disse.

O analista de instituições financeiras da Lopes Filho Consultoria, João Augusto Frota Salles, estima que os bancos grandes estabeleceram 18% como piso para a rentabilidade sobre o patrimônio líquido para os próximos anos. "Se passar daí, podemos dizer que há algo errado", observou.

O que fazer? Nesse ponto, valem duas observações importantes. A primeira delas é que o sistema financeiro nacional continua saudável. "Não há problemas no setor", destacou o analista de investimentos da SLW Corretora Pedro Galdi. "É apenas uma questão de retorno, que provavelmente não será tão bom como nos últimos anos."

A segunda observação é a de que, mesmo menor, a rentabilidade dos bancos continua superando a média da indústria. Também conforme a consultoria Economática, as indústrias brasileiras com ações negociadas na Bolsa de Valores de São Paulo (BM&FBovespa) apresentaram um retorno médio de 9,65% no primeiro trimestre de 2012, 9,82%, em 2011 e de 12,27% em 2010.

Soluções. A receita para os bancões de varejo saltarem mais esse obstáculo passa, segundo os analistas, por várias ações. Entre elas: 1) aprimoramento dos sistemas de análise de risco de crédito; 2) aumento da participação de empréstimos de menor risco - como consignado e imobiliário - na carteira total; 3) treinamento melhor de pessoal de agência para que também tenham em mente o risco dos clientes na hora de oferecer uma operação; e 4) incremento dos índices de eficiência ou, em outras palavras, redução expressiva das despesas.

A desaceleração da economia brasileira em 2012 afetou os balanços dos principais bancos de varejo do País no primeiro semestre. A face mais evidente é a dos calotes: os índices de inadimplência cresceram no Itaú, no Bradesco e no Santander. Mas há, também, uma face quase invisível: os três aumentaram as provisões para potenciais perdas em razão da reclassificação do risco de milhares de clientes, principalmente empresas. Nas contas da Austin Rating, as reservas anti-calote avançaram 37% em média, para um total de R$ 24,4 bilhões.

O presidente do Santander, Marcial Portela, deu uma pista sobre o assunto durante a apresentação dos resultados, na semana passada. O executivo explicou que a atual baixa no ciclo econômico do Brasil afeta quase que exclusivamente as empresas, visto que a taxa de desemprego tem se mantido em níveis historicamente baixos.

Pelas regras do Banco Central (BC), cada cliente - empresa ou pessoa física - tem um rating (nota) no sistema financeiro. Para um cliente AA, uma operação de crédito exige uma provisão X. Um cliente B demanda provisão Y, maior que a do cliente AA. Se uma empresa passa de nota AA para C, por exemplo, a instituição financeira é obrigada a reservar mais dinheiro para enfrentar um eventual calote ou atraso no pagamento.

Nas pessoas físicas, a história é diferente. A inadimplência que se verifica hoje resulta, em grande medida, de um excesso nas concessões pelos bancos, como o próprio Portela reconheceu. "Parte (da alta da inadimplência) é responsabilidade nossa", disse.

Especialistas como Jorge Augusto Saab, analista de renda variável da Rio Bravo Investimentos, lembram que, entre 2010 e o início de 2011, os bancos financiavam automóveis em até 84 parcelas. Em muitos prazos, a instituição exigia uma entrada baixa ou até mesmo a dispensava. Hoje, os bancos pagam a conta desses excessos.

"Quando o cenário é bom, não adianta, os bancos entram de cabeça. Vide o que aconteceu nos países desenvolvidos que hoje passam por graves crises financeiras", comentou o analista de instituições financeiras da Lopes Filho Consultoria, João Augusto Frota Salles.

O Itaú frisou, durante a apresentação dos resultados do segundo trimestre, que os indicadores de inadimplência seriam bem mais baixos se a carteira de crédito de veículos fosse descontada do cálculo total.

O índice de inadimplência geral para atrasos superiores a 90 dias atingiu 5,2% ao final de junho, contra 5,1% nos três primeiros meses do ano. Nas pessoas físicas, também houve elevação - de 6,7% para 7,3%, na mesma comparação.

"Gostaria de destacar que, se não fosse o desempenho no segmento de automóveis, a inadimplência total teria caído para 4,7%", observou o diretor corporativo de Controladoria e Relações com Investidores do Itaú, Rogério Calderón.

"Aliás, excluindo a área de veículos, podemos dizer que a inadimplência já estaria estável desde dezembro do ano passado." / L.M.

Os dois grandes bancos públicos do País - Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal - divulgarão os resultados do segundo trimestre na primeira quinzena de agosto. A expectativa de analistas é de que os números mostrem muitas diferenças na comparação com os privados. A principal delas diz respeito ao crescimento da carteira de crédito.

Espremidos pela alta da inadimplência, Itaú, Bradesco e Santander reduziram o ritmo de concessões entre abril e junho. Os dois primeiros diminuíram até mesmo as projeções para o crescimento dos empréstimos no ano. No Itaú, a expectativa agora é de uma expansão de 10% (ante uma faixa de 14% a 17% na estimativa anterior). No Bradesco, a previsão foi para um intervalo entre 14% e 18% - de 18% a 22% nos números anteriores.

O Santander manteve os 15%.

Assim como ocorreu em 2008/2009, quando, em meio ao auge da crise global, os bancos públicos e privados tiveram comportamentos completamente distintos, a situação atual suscita dúvidas. "De antemão, não dá para dizer quem está certo e quem está errado. Só o tempo vai mostrar", ponderou o analista de investimentos da SLW Corretora Pedro Galdi. Naquela ocasião, o próprio mercado financeiro reconheceu que o BB acertou e os privados erraram.

Para o analista de instituições financeiras da Lopes Filho Consultoria, João Augusto Frota Salles, os bancos privados têm razão em ser mais cautelosos nos dias de hoje, marcados pela inadimplência em alta. "Os bancos privados não têm a garantia do Tesouro Nacional por trás", argumentou. "Se houver um problemas, eles simplesmente deixam de existir. Os bancos públicos acabam sendo salvos, como aconteceu com o BB em 1996." / L.M.

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