Ganho de especulador cresce no País

Apesar das medidas adotadas pelo governo para conter o real, País fica mais atrativo para estrangeiros; volatilidade do câmbio diminui

Leandro Modé, O Estado de S.Paulo

23 de janeiro de 2011 | 00h00

As medidas do governo para conter a valorização do real, intensificadas a partir de outubro, diminuíram a volatilidade da moeda brasileira. Mas, em compensação, aumentaram os ganhos do investidor estrangeiro ao aplicar em taxa de juros no Brasil.

De novembro para cá, o real passou a oscilar menos até do que o euro em relação ao dólar. Vale lembrar que se trata das moedas das duas principais economias do mundo. Em tese, ativos de países estáveis flutuam menos do que os de nações emergentes. Além disso, na semana passada, o ganho no Brasil com o chamado carry-trade atingiu o maior nível desde pelo menos o início de 2010.

Carry-trade é uma conhecida operação no mercado global, em que o investidor toma dinheiro emprestado em um país com juro baixo e o aplica em outro com juro alto. Como a taxa brasileira é a mais polpuda do mundo (11,25% em termos nominais e 5,5% reais, cálculo que exclui a inflação), o País é destino preferencial dos especuladores.

Hoje, a rentabilidade do carry-trade, aqui, está em 10,51% ao ano. Em outubro, era de 8,50%. Parte desse aumento é explicada pela expectativa de altas da taxa básica (Selic). Na semana passada, o Banco Central (BC) a elevou em 0,50 ponto porcentual. Investidores esperam novos reajustes nos próximos meses.

A outra parte, conforme explica um operador, resulta das intervenções do BC no câmbio. Este mês, a autoridade monetária voltou a atuar no mercado futuro por meio dos chamados swaps cambiais.

Trata-se de um instrumento que equivale à compra de dólares. Segundo o operador, ao ofertar esses swaps, o BC fez crescer o diferencial entre a taxa de juros brasileira e a taxa de juros em dólares no País.

O diretor executivo da NGO Corretora de Câmbio, Sidnei Nehme, também avalia que foi mau negócio - do ponto de vista de quem quer segurar a moeda - a volta do BC aos swaps.

"Esses papéis são a garantia que os especuladores querem. Eles podem empurrar o dólar para baixo o quanto quiserem, pois sabem que sempre haverá liquidez, dada pelo BC", afirma. "Essa operação terá de ser revista."

Vaivém. Tradicionalmente, o real é uma das moedas mais instáveis do planeta. Conforme explica um analista, isso mudou do fim de 2010 para cá porque muitos investidores que já estão aqui desistiram de sair para não ter de pagar o alto Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) adotado em outubro.

Para se ter uma ideia, um conhecido indicador de volatilidade do mercado de câmbio, que já chegou a 30 em junho do ano passado, está abaixo de 4.

No início de outubro, o IOF em aplicações de estrangeiros em renda fixa (juros) subiu de 2% para 4%. No dia 18, foi anunciada nova elevação, de 4% para 6%.

Além dessas duas questões - a volatilidade e os ganhos maiores com o carry-trade -, o objetivo de conter o real não foi atingido, quando se leva em conta a comparação da moeda brasileira com outras nos últimos meses. De novembro até sexta-feira, o real era a moeda com o segundo maior ganho ante o dólar: 3,76%. Só perdia para o dólar de Taiwan, com alta de 4,79%.

"Com essas medidas dos últimos meses, o governo acabou deixando o Brasil mais atrativo para os especuladores", diz um especialista. "Afinal, o que quer um investidor? Liquidez, retorno e baixo risco. Tudo o que o País oferece hoje."

Menos pior. Outros observadores ponderam que a valorização seria mais expressiva se o governo não tivesse agido. "Aumentou o desconforto do investidor estrangeiro com o Brasil", disse o economista-chefe do HSBC, André Lóes. "Temos falado com clientes lá de fora e parece que a euforia com o País amenizou", emendou o vice-presidente de Tesouraria do banco WestLB, Ures Folchini.

O economista-chefe da Gap Asset Management, Alexandre Maia, calcula que, se o governo não tivesse feito nada, o dólar estaria perto de R$ 1,50 - na sexta-feira, fechou a R$ 1,672. Ainda assim, critica as ações. "O regime de câmbio flutuante está passando por um ataque sem precedentes", disse.

Retorno

10,51%

é o ganho anual de um estrangeiro que aplica em juros brasileiros

3,76%

é a alta do real desde novembro

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