Ganho no CDB ocultaria fraude no Panamericano

Coaf identificou que cliente recebeu remuneração de 697% em CDB em 315 dias; rendimento desse título não costuma ultrapassar 12% ao ano

FAUSTO MACEDO, O Estado de S.Paulo

28 de novembro de 2011 | 03h05

O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificou um cliente do Banco Panamericano que recebeu remuneração em CDB (Certificado de Depósito Bancário) ao valor equivalente a 697% durante 315 dias. A remuneração média desse título não ultrapassa os 12% ao ano. Dados sobre as transações suspeitas constam do Relatório de Inteligência Financeira 5436 do Coaf.

O documento foi enviado à Polícia Federal, que conduz inquérito sobre o rombo de R$ 4,3 bilhões no banco que integrou o Grupo Silvio Santos. Para a PF, a remuneração excepcional, da qual foi beneficiário o empresário e investidor Adalberto Salgado Júnior, "indica que possa ter sido ele (cliente) usado para o desvio de verbas do banco pelos administradores (do Panamericano)".

O relatório de inteligência preenche 13 páginas. "O Banco Panamericano foi citado em comunicação de operação atípica, em conta titulada por Adalberto Salgado Júnior, do Banco Bradesco em Juiz de Fora, no valor de R$ 72,29 milhões com período de movimentação de 3 de janeiro de 2005 a 5 de fevereiro de 2007, sem detalhamento de referida movimentação ."

"(Salgado) foi alvo de comunicação de operação atípica, em conta de sua titularidade, no valor de R$ 14,45 milhões, com período de movimentação de 2 de outubro de 2007 a 8 de abril de 2008, sem enquadramento específico", assinala o Coaf.

Naquele período, R$ 1,6 milhão teria sido recebido por meio de depósitos em espécie. "Informa o comunicante que Salgado Júnior destacou-se pela rápida e relevante valorização de sua situação financeira patrimonial sem aparente justificativa."

Atualizações. Em janeiro de 2007 ele declarou bens que somavam R$ 18,12 milhões. Fez duas atualizações cadastrais, em julho daquele mesmo ano, quando comunicou patrimônio de R$ 26,29 milhões, e em setembro, quando alegou possuir R$ 85,7 milhões.

A PF capturou 17 e-mails trocados entre os principais dirigentes do banco, Rafael Palladino, ex-diretor superintendente, e Wilson de Aro, ex-diretor financeiro. A série de e-mails trata da "operação Salgado Júnior".

A maior parte das mensagens foi postada entre 16 e 17 de dezembro de 2009 e 27 e 28 de janeiro de 2010. Revelam a inquietação da cúpula do Panamericano com os resultados do negócio e a iminente fiscalização. No primeiro e-mail, Palladino sugere a Aro: "Não daria para colocar alguém recomprando na moita?"Ele demonstra preocupação. "Vai ser dureza aguentar esta taxa, temos que sair desta de alguma forma."

"Os e-mails revelam o conhecimento e o envolvimento direto na fraude de Palladino e Aro", segundo afirma o relatório da Polícia Federal.

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