Ganhos recentes não devem ser revertidos

Para Marcelo Neri, a nova classe média conta com ?amortecedores sociais? contra a crise

Irany Tereza, RIO, O Estadao de S.Paulo

22 de dezembro de 2008 | 00h00

O ano de 2008 marcou um "boom" da classe média que não será revertido mesmo diante da possibilidade de um último trimestre de contração econômica. A mobilidade social, porém, ocorrerá de forma bem mais parcimoniosa em 2009. Estudioso das mudanças da estratificação social no País, o economista Marcelo Neri, da Fundação Getúlio Vargas, atualizou, a pedido do Estado seu estudo sobre a Nova Classe Média.Constatou que em outubro esta faixa englobava 47,1% da população, chegando a 50,4% nas metrópoles. Em agosto, quando divulgou o estudo, a proporção havia alcançado quase 52% nas seis principais regiões metropolitanas."Eu costumava me classificar como um ?otimista condicionado?. Ou seja, as coisas iriam progredir se condicionantes externas e internas contribuíssem. Hoje, sou ?otimista relativo?: acho que haverá uma queda, mas temos amortecedores que reduzirão o impacto", diz. Os amortecedores citados pelo especialista são formados pelo tripé inflação controlada, superávit fiscal e reserva cambial.Neri considera que as estatísticas da evolução socioeconômica do quarto trimestre de 2008 trarão "um espetáculo na queda da desigualdade no Brasil", mas de um modo muito ruim. "A população de baixa renda vai sofrer menos com a crise, mas o topo da pirâmide deverá registrar grandes perdas patrimoniais. A desigualdade vai cair porque os mais ricos perderão; não pelo ganho dos mais pobres."Por sua vez, a classe média, que define como a classe C, com rendimento entre R$ 1.064 e R$ 4.591, tem alguns "colchões", entre eles programas de transferência de renda e benefícios trabalhistas, como seguro desemprego e FGTS, não compartilhados por gigantes emergentes, como China e Índia.Neri lembra o Brasil atravessou um ano de tempestade na economia internacional vivendo um período de calmaria.Mas diz que a segunda etapa da turbulência financeira iniciou um novo jogo. A partir do momento em que a tempestade virou tsunami, na segunda quinzena de setembro, não é correto esperar que o País terá de vencer uma "marolinha", como chegou a afirmar o presidente Lula. "Um tsunami lá fora provoca uma ressaca braba aqui."Ele cita algumas estatísticas para ilustrar como a crise atingirá a classe C: 63,7% dos trabalhadores com carteira assinada pertencem à classe média e 63,3% dos idosos também se enquadram nessa faixa social. E o Estado com maior perfil de classe média é Santa Catarina, com dois terços da população (67,4%) nessa faixa social.A crise coloca em xeque a expansão do trabalho com carteira; mudanças na Previdência podem trazer perdas aos aposentados, e Santa Catarina sofreu, além dos efeitos da crise, a maior tragédia de sua história, com os temporais das últimas semanas.No estudo de Neri - elaborado a partir da Pesquisa Mensal de Emprego (PME) de outubro e da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2007, com dados projetados para o mesmo mês - juntas, as classes A, B e C correspondiam em outubro a 60,6% da população brasileira. O período de janeiro a abril deste ano representou o período de maior mobilidade positiva da classe C, quando 4,74% da população dessa camada ascenderam às classes A e B, um recorde."A crise está quebrando quem tem dinheiro. As perdas patrimoniais não são desprezíveis. Por isso, as classes A e B vão sentir pesadamente o efeito da turbulência. A classe C também sentirá alguma coisa, mas contará com os amortecedores. Já as classes D e E serão menos atingidas e contarão com o efeito positivo de programas sociais. Vamos frear um pouco, mas não acredito em perdas substanciais das melhoras obtidas a partir de 2004", diz.FRASEMarcelo NeriEconomista da FGV"A população de baixa renda vai sofrer menos com a crise, mas o topo da pirâmide terá grandes perdas. A desigualdade vai cair porque os mais ricos perderão; não pelo ganho dos mais pobres"

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.