Tiago Queiroz/Estadão
Lucas e Emilly: desafios para estudar e buscar trabalho por falta de acesso à web  Tiago Queiroz/Estadão

Garantia de acesso à internet poderia elevar renda de mais pobres em 15%

Desigualdade econômica se repete quando tema é a web, com baixa renda desconectada ou com acesso intermitente à rede, aponta pesquisa da PwC e do Instituto Locomotiva; mais pobres têm dificuldade em ensino a distância e trabalho em home office

André Jankavski, O Estado de S. Paulo

13 de setembro de 2021 | 05h00

No início da pandemia, quando o ensino remoto se transformou na única alternativa, a estudante Emilly Cipriano, de 17 anos e moradora de Paraisópolis, em São Paulo, se viu em uma situação difícil, pois nem internet em casa ela tinha. Sem acesso à web, viu como saída ir à sede do Instituto Pró-Saber, criado para levar educação e capacitação profissional para lugares sem estrutura. “Mesmo assim, foi muito difícil de acompanhar”, afirma Emilly.

A realidade da adolescente paulistana reflete o abismo digital entre ricos e pobres no País, uma realidade que serve de espelho para as diferenças socioeconômicas entre a baixa e a alta renda. Um estudo realizado pela consultoria PwC, em parceria com o Instituto Locomotiva, mostra que, se as classes mais pobres tivessem o mesmo patamar de acesso à web disponível para as mais altas, sua renda poderia dar um salto de 15,3%. Preencher esse abismo social colocaria R$ 75,4 bilhões a mais para circular na economia – justamente nas mãos de quem mais precisa. 

Como ocorre em outros segmentos, o Brasil está longe de resolver a desigualdade no campo digital. Segundo o levantamento da PwC e do Locomotiva, que ouviu 2,3 mil brasileiros acima dos 18 anos, apenas 29% da população acima de 16 anos, ou 49,4 milhões de pessoas, está plenamente conectada. Isso significa ter acesso à internet em todos os momentos, sem problemas graves de instabilidade. 

Na outra ponta, há 33,9 milhões de brasileiros que nem têm acesso à internet – o que representa uma fatia de 20% da população. No meio do caminho, o estudo classifica 41,8 milhões de pessoas (25%) como “subconectadas”, que possuem algum tipo de dispositivo e acessam a internet de forma intermitente, e 44,8 milhões (26%) de “parcialmente conectadas”, que se conectam durante a maior parte do tempo em um aparelho de boa qualidade ou até em mais de um dispositivo.

O estudo mostra que a falta de conexão está ligada à renda. Enquanto os desconectados têm rendimento médio de R$ 1.413, os plenamente conectados ganham R$ 3.530. Os subconectados ganham, em média, R$ 1.933, enquanto os parcialmente conectados recebem R$ 2.229 mensais. 

“A disparidade deve ser ainda maior, pois não é possível falar do potencial da renda que essas pessoas desconectadas poderiam ter se tivessem acesso à internet para vender alguma coisa, por exemplo”, afirma Renato Meirelles, presidente e fundador do Instituto Locomotiva. “O analfabeto digital de hoje é o analfabeto funcional de ontem. Na prática, a digitalização é o novo português e estaremos excluindo diversas pessoas se nada for feito.”

Equipamentos

Além do problema do acesso a dados e banda larga, há também a questão dos aparelhos. Isso porque os dois grupos que estão conectados durante parte do tempo nem sempre conseguem extrair todos os benefícios do mundo digital. A pesquisa mais recente da TIC Domicílios, realizada pelo Comitê Gestor da Internet no Brasil, apontou que as classes mais baixas estão ficando para trás por falta de equipamentos, como celulares mais robustos e computadores.

Apenas 50% das residências da classe C e 13% das casas da classes D e E têm computador. Na pandemia, com o ensino e o trabalho a distância como única opção, isso foi um problema. “Nem se compara a qualidade do aprendizado quando você tem um computador para fazer pesquisas enquanto assiste à aula”, diz Fábio Storino, coordenador da TIC Domicílios. 

Também morador de Paraisópolis, Lucas da Cruz Ramos, de 18 anos, havia se formado no ensino médio antes da pandemia – logo, a falta de um computador não afetou seu desempenho escolar. No entanto, ele está desempregado e sente dificuldade para conseguir trabalho pela falta de experiência. Com o objetivo de ser designer, ele gostaria de fazer cursos para se aprofundar na área, mas não tem computador. 

O acesso à internet de Lucas é totalmente pelo celular. “Mas tem dias que o sinal funciona e outros em que não”, diz ele, que, por causa desse problema, não se imagina trabalhando a distância quando conseguir um emprego.

Home office para quem?

Para que o home office seja uma realidade para os mais pobres, as empresas precisam garantir a infraestrutura mínima, diz Marco Castro, presidente da PwC. “Esse é um problema para se estar de olho. Será que, com essa possibilidade de trabalho híbrido, não começamos a excluir uma série de pessoas por falta de acesso à internet?”, questiona. 

De acordo com uma pesquisa recente sobre home office, realizada pela Faculdade de Economia e Administração da USP com a Fundação Instituto de Administração (FIA), menos de 30% das empresas ajudam nos pagamentos de luz e internet para os seus funcionários.

Internet é ‘direito fundamental’, diz professora da LSE

Professora da London School of Economics (LSE) especializada em desigualdade digital, Ellen Heslper diz que a pandemia de covid-19 deixou claro que o acesso à internet é uma necessidade para todas as pessoas. “A pandemia mostrou que nem todos têm acesso igual às tecnologias e que a internet não é luxo, mas algo fundamental. E os próprios professores estão vendo que dar aula para crianças a distância é completamente diferente do que imaginavam”, diz a especialista, que defende a criação de políticas públicas para o tema.

Para a professora, o investimento em tecnologia pode contribuir para melhorar a qualidade do ensino e também para reduzir a desigualdade econômica das nações. 

O assunto, aliás, foi bastante debatido no Brasil ultimamente. Um projeto aprovado pela Câmara e pelo Senado previa o repasse de R$ 3,5 bilhões da União aos Estados e ao Distrito Federal para a compra de planos de internet para alunos e professores de escolas públicas, dentro do conceito de ensino a distância da pandemia. Em julho, no entanto, o presidente Jair Bolsonaro vetou inteiramente a proposta, alegando que não havia espaço no Orçamento para esse gasto. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Falta de internet restringe acesso à educação

Famílias de baixa renda e escolas públicas enfrentam dificuldades de estrutura para aprendizado, o que pode levar a desafios de longo prazo

André Jankavski, O Estado de S. Paulo

13 de setembro de 2021 | 05h00

A adoção do ensino a distância criou um novo tipo de desigualdade no Brasil. Por falta de conexão à web, a adesão à educação virtual é bem maior nas escolas particulares – cujo índice de conexão é de 98% – do que nas públicas, onde a média é de 78%, segundo pesquisa da PwC e do Instituto Locomotiva. Essa diferença deve ampliar a evasão escolar, com impactos econômicos de longo prazo.

Dados do Insper, em parceria com o Instituto Unibanco, apontam que o déficit educacional se acentuou durante a pandemia. Em 2020, o engajamento dos alunos da rede estadual no ensino médio foi de 25 horas semanais, ou 36% da jornada ideal. Isso ampliou a proporção de jovens que pensam em abandonar a escola. Em 2020, esse porcentual havia sido de 28% e, em 2021, subiu para 43%, segundo o Conselho Nacional da Juventude. 

Essa realidade leva a problemas econômicos. Pesquisa do Insper em 2020 aponta que o Brasil perde R$ 220 bilhões por ano com jovens que não completam a educação básica – o que equivale a 3,3% do PIB.

Na era do ensino a distância, as famílias tiveram de se esforçar para manter o interesse dos filhos na escola. Pais de Amanda, de 14 anos, que tem síndrome de down, e de Miguel, de 7 anos, José Augusto e Tatiana dos Santos, de Carapicuíba (SP), dividiram as tarefas profissionais com a rotina de buscar atividades nas escolas para os filhos fazerem em casa. Segundo José Augusto, as aulas particulares praticamente não aconteceram, pelas dificuldades de Amanda com o modelo e pela falta de oferta, no caso de Miguel. 

“Fotografávamos (as tarefas) e mandávamos pelo WhatsApp para os professores corrigirem”, conta ele, que não acredita que o ano foi bom para a educação dos filhos. “Miguel aprendeu a ler esse ano – e era para ter sido no ano passado. Como não temos tanto tempo nem somos pedagogos, eles acabaram atrasando.”

Tudo o que sabemos sobre:
Insperensino a distânciainternet

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.