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Garimpeiros desconfiam da descoberta

Produção brasileira vem basicamente dos leitos dos rios; mina de Nordestina será a primeira no Brasil onde os diamantes serão extraídos diretamente da rocha

João Villaverde, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2013 | 02h04

Valdecir é loiro, tem olhos azuis, e pouco menos de 1,80 metro de altura. À exceção do sobrenome, que não quis revelar ao Estado, Valdecir contou tudo. Nascido em Americana (SP), onde hoje ainda moram seus pais e sua ex-mulher, Valdecir deixou sua vida de comerciante no fim de 2010 e foi para o sertão em busca de ouro. Hoje, aos 48 anos, é um dos 600 garimpeiros no distrito do Rio Seco, em Nordestina.

"Ouvimos falar do diamante, mas nada supera o ouro. Ninguém aqui é vaqueiro ou 'encostado', então de agricultura ou Bolsa Família ninguém aqui quer viver. Enquanto existir ouro aqui, vamos fazer isso", disse Valdecir, acompanhado de outros garimpeiros.

Os garimpeiros de Nordestina têm vendido, em média, R$ 200 por semana. Por meio do garimpo é possível retirar apenas 40%, no máximo, do ouro encravado na terra, mesmo depois de moída por máquinas que todos eles têm. Assim, a terra restante é vendida a terceiros, que misturam cianureto ao conteúdo, liberando o ouro restante. São seis compradores de terra dos garimpeiros em Nordestina, entre eles, o filho do prefeito Wilson Costa.

Entre a cidade e a favela onde fica o maior garimpo de Nordestina há uma extensa zona rural, onde a principal cultura é o sisal. Nordestina pertence à Região Sisaleira, que se confunde com o sertão baiano - a Bahia tem o maior polo produtor de sisal do mundo. É dessa cultura que saiu a maior parte dos garimpeiros. Em 1990, quando o município completou 5 anos, um grupo de trabalhadores dos campos de sisal encontrou por acaso grande quantidade de ouro. Imediatamente largaram a zona rural e formaram garimpos.

A área dos diamantes não fica distante dos garimpos. Mas o cenário é completamente diferente. Enquanto o ouro encravado na terra moída por máquinas precárias é levado dos garimpos em carretas e até nas costas de jegues, o diamante preso em rochas com bilhões de anos é carregado em caminhões que suportam até 25 toneladas.

O diamante anima Nordestina e muitos municípios próximos. Mas não os garimpeiros. "Larguei tudo para vir para a Bahia. Fui do MST e, desde que comecei no garimpo, meus problemas de saúde passaram. Eu não troco isso aqui", disse Valdecir.

Na pequena Nordestina, de apenas 12,4 mil habitantes, encravada no meio do sertão baiano, a mineradora belga Lipari se prepara para iniciar a exploração da primeira mina de diamantes extraídos diretamente da rocha (fonte primária do mineral) na América Latina.

A companhia, comandada pelo geólogo canadense Kenneth Johnson, já aplicou R$ 60 milhões na unidade e planeja aplicar mais R$ 30 milhões ao longo deste ano para acelerar as pesquisas e iniciar a comercialização do minério já no fim de 2014. O dinheiro que financiou toda essa operação saiu dos controladores da Lipari - a companhia Aftergut & Zonen, da Bélgica, e o fundo Favourite Company, de Hong Kong.

Ainda em fase de pesquisas, o geólogo que coordena o trabalho da Lipari no sertão baiano, Christian Schobbenhaus, afirmou ao Estado que estima em pouco mais de 2 milhões de quilates de diamante a capacidade total das minas em Nordestina, que fazem parte do projeto Braúna. Um quilate de diamante de rocha kimberlítica é negociado, hoje, a cerca de US$ 310.

O kimberlito é uma rocha rara, que forma o manto da terra. Chega à superfície após uma erupção vulcânica. Foi nessas explosões, ocorridas há bilhões de anos, que o kimberlito trouxe para próximo da superfície terrestre os diamantes.

Desde então, por meio da erosão natural do solo, os diamantes podem se soltar e chegar até aluviões de rios, onde são encontrados na maior parte das vezes.

Produção atual. O Brasil, até agora, tem "produzido" diamantes dessa forma, tendo produção anual de 47 mil quilates, estimada pelo Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), cerca de 0,04% de todo o diamante explorado no mundo. Agora, apenas a produção de Nordestina deve multiplicar por cinco a oferta nacional de diamantes, aumentando também o valor do minério, uma vez que não é oriundo de aluviões, mas de fonte primária - da própria rocha.

Há apenas 20 minas de kimberlito em atividade no mundo. O grupo de países do qual o Brasil vai fazer parte é pequeno: as minas estão no Canadá, em países no sudoeste africano e na Rússia. O bloco de rocha kimberlítica no qual está a pequena Nordestina pertence ao cráton (bloco de rocha com mais de 1 bilhão de anos) do São Francisco, que ficava junto ao cráton do Congo, na África, antes da separação dos blocos em continentes.

Profundidade. Em Nordestina, o diamante está a cerca de 3 quilômetros da superfície, e a pesquisa total da área só deve ser concluída no fim do ano. Dada a complexidade da operação - as máquinas que tiram os diamantes das rochas são importadas da África do Sul e operadas por técnicos qualificados em mineração de diamantes -, a comercialização do minério de Nordestina só deve começar no último trimestre do ano que vem, ganhando força a partir de 2015. A Lipari estima em sete anos a vida útil da mina na cidade.

Praticamente todo o diamante de Nordestina será exportado para Dubai, Bélgica, Israel e Canadá, onde o comércio do minério é concentrado e tradicional. Assim, a companhia aposta que, até 2015, quando a produção estará a todo vapor, a recuperação da economia mundial terá ficado mais consistente e, com isso, os preços do diamante devem aumentar, puxados por uma demanda mais firme.

"Para um geólogo, esta é uma oportunidade inacreditável. Estamos trabalhando na primeira mina de diamante oriundo diretamente do kimberlito de toda a história da América Latina", disse Schobbenhaus, que mora em Nordestina desde 2010, quando as pesquisas se intensificaram.

O governo da Bahia deve licenciar a produção ainda neste ano, e o pedido de lavra feito pela Lipari ao DNPM também deve ser concedido. Segundo o diretor de fiscalização do departamento, Walter Lins Arcoverde, a mina da Lipari é "a confirmação de que o Brasil tem, de fato, a primeira mina de diamante oriundo de kimberlito na América Latina, e o segundo em todo o continente, atrás apenas do Canadá, que é um dos maiores produtores do mundo". Até este ano, apenas Brasil, Guiana e Venezuela produziam diamantes na região, mas todos os minérios eram de fontes secundárias, isto é, de aluviões de rios.

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