WILTON JUNIOR/ESTADAO - 03/06/2021
Marcos Magalhães, dono de buffet no Rio, precisou repassar parte do aumento do botijão de gás aos clientes WILTON JUNIOR/ESTADAO - 03/06/2021

Gás de cozinha tem forte alta e complica orçamento de famílias

Principal gasto com energia do brasileiro, produto acumula alta de preço de 17,25% nos últimos 12 meses

Fernanda Nunes e Denise Luna, O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2021 | 05h00

Produto essencial nas residências, o gás de cozinha pesou ainda mais no bolso das famílias mais pobres neste período de pandemia de covid-19. Nunca antes o botijão custou tão caro. Desde maio do ano passado, no início da crise, seu preço subiu cinco vezes mais que a inflação. Com o desemprego batendo à porta, o custo do gás virou um problema social, a ponto de merecer políticas públicas emergenciais dos governos do Ceará e Maranhão. 

O tema foi tratado também pelo presidente da República, que manifestou a intenção de recorrer à Petrobrás para baratear o produto. Mas, até agora, não houve qualquer manifestação pública do governo federal e da empresa sobre isso. 

O preço do botijão disparou, de fato, a partir do segundo semestre do ano passado. O pior momento, no entanto, foi neste ano. De janeiro a abril, subiu 11,45% e nos 12 meses iniciado em maio de 2020, 17,25%, segundo o IPC-S, indicador de inflação do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getúlio Vargas (FGV), utilizado em reajustes salariais e de aluguel. No mesmo período, a inflação subiu 3,5%, cinco vezes menos do que o gás de cozinha.

“O GLP é o principal energético usado no preparo de alimentos por famílias de baixa renda. É o gás que entra em comunidades do Brasil todo. Algo que sobe mais que a média do salário exige muito esforço das famílias. Num nível de desemprego elevado como o atual, é ainda mais sentido. Ficar sem gás é ficar sem comida”, afirmou André Braz, coordenador adjunto do Índice de Preço ao Consumidor do Ibre/FGV. 

O economista acredita que o encarecimento do produto vai aparecer na próxima Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), do IBGE. A última foi realizada em 2018 e registrou que a média dos brasileiros gasta 1% do orçamento com o gás de cozinha. O aluguel pesa 3,6% e o gás natural, 0,12%. 

Na casa de André Lima e Silva, em Fortaleza, por causa da alta do preço do botijão, as refeições passaram a ser preparadas na vizinhança. “Até receber o vale do governo, a gente ficou três dias sem gás. Até o mingau da neném a gente pedia para a vizinha fazer”, conta o padeiro, desempregado desde o início do ano passado. Sem renda, ele e a mulher passaram a sustentar os cinco filhos com a venda de salgadinhos. Mas, por causa do preço do gás, até o ‘bico’ ficou inviável. 

A alta do produto está prejudicando também os negócios de Marcos Magalhães, responsável por um buffet carioca. “O gás aumenta, a gente tem que repassar o valor para os clientes, só que não pode repassar na íntegra, porque, infelizmente, os clientes não têm aumento. Ninguém está tendo aumento no País. É complicado”, afirmou.

Em evento, no mês, passado Bolsonaro disse que conversaria sobre o tema com o novo presidente da estatal, Joaquim Silva e Luna. “Estamos trabalhando com o novo presidente da Petrobrás em como diminuir o preço do botijão na origem. Hoje está em R$ 42, dá para diminuir”, afirmou o presidente, em discurso no Mato Grosso do Sul, no último dia 14. Ele não informou, porém, com quem está discutindo e a posição do presidente da Petrobrás ao seu questionamento.

Desde que assumiu o cargo, em 19 de abril, Silva e Luna não mexeu no preço do gás liquefeito de petróleo (GLP) produzido em suas refinarias. O botijão de 13 kg é a versão residencial do produto. O último reajuste aconteceu no dia 2 de abril, o quarto no ano, ainda na administração do seu antecessor, Roberto Castello Branco. 

Questionada, a Petrobrás, por meio de sua assessoria de imprensa, respondeu que não há previsão de reajustes de preços de GLP com frequência mínima mensal. “Reiteramos que os reajustes são realizados a qualquer tempo, sem periodicidade definida, de acordo com as condições de mercado e de análise do ambiente externo. Isso possibilita à companhia competir de maneira mais eficiente e flexível e evita o repasse imediato, para os preços internos, da volatilidade externa causada por questões conjunturais”, afirmou.

Ainda assim, o preço final do GLP permanece no patamar mais elevado da série histórica divulgada pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Em março, último dado divulgado pela reguladora, estava custando R$ 83,17, na média do País. Como a Petrobrás reajustou mais uma vez em abril, é possível que a estatística mais recente ainda revele novo recorde. 

Professor do Instituto de Economia da UFRJ, Adilson de Oliveira avalia que qualquer solução para o gás passa pela estabilização do preço, o que pode ser conseguido com a criação de um fundo de estabilização, como vem sendo estudado pelo governo. Ele lembra que, no governo de Fernando Henrique Cardoso, foi adotado o ‘Auxílio Gás’ e, no de Luiz Inácio Lula da Silva, o benefício foi incorporado ao Bolsa Família. 

“O governo federal fala, mas ainda não colocou na mesa a sua proposta. É preciso saber onde o governo quer chegar, ou começam a aparecer propostas extemporâneas para resolver lobbies específicos,  que, em vez de ajudar, atrapalham”, disse.

Sérgio Bandeira de Mello, presidente do Sindigás, que reúne as empresas distribuidoras de GLP, afirma que não há qualquer movimento da entidade para que o governo apresente uma solução. “Não temos pleito nosso. É um debate que podemos assessorar do ponto de vista técnico. Essa é uma decisão de política pública”, afirmou.

Ceará e Maranhão recriam o 'vale gás'

Dois Estados do Nordeste tomaram medidas práticas para lidar com a alta do preço do GLP neste período de encarecimento do produto e avanço do desemprego. Os governadores Camilo Santana (PT-CE) e Flávio Dino (PCdoB-MA) adotaram o vale gás para ajudar a população mais pobre a ter acesso ao botijão. Nos dois casos, foi firmada uma parceria com a distribuidora Nacional Gás, que fornece o produto aos Estados a preço de custo. 

No Ceará, o programa foi adotado ainda em 2020, assim que o coronavírus se alastrou pelo País. No segundo trimestre do ano passado, ainda sem saber direito como seria o isolamento social, muitas famílias optaram por estocar gás de cozinha. Ao mesmo tempo, a cotação do petróleo, insumo do produto, subiu no mercado internacional, repercutindo no mercado interno. Isso fez com que o preço do gás encarecesse, mesmo na crise, enquanto o consumo e os valores dos demais derivados de petróleo, como gasolina e óleo diesel, despencavam. 

Diante desse cenário, o governo do Ceará optou por subsidiar fatias da população de baixa renda, com perfis mais vulneráveis.  Com o ‘Vale Gás Social’ em mãos, cerca de 250 mil famílias cearenses têm ido às revendas da Gás Nacional para trocar um botijão vazio por outro cheio. Essa iniciativa custou R$ 11,7 milhões ao Estado, neste ano, e deve consumir mais R$ 17 milhões em 2021. O subsídio vai continuar sendo distribuído na crise, enquanto famílias mais pobres tiverem dificuldade de se alimentar por causa do preço do gás. 

“Algumas famílias recebem a cesta básica, mas não conseguem preparar o alimento. Às vezes, partem para a lenha. Além de ajudar na questão da segurança alimentar, o programa resgata a dignidade das pessoas”, afirmou o secretário de Proteção Social do Ceará, Francisco Ibiapina. 

No Maranhão, o ‘Vale Gás’ foi adotado em maior para subsidiar o consumo de 119 mil famílias, de 211 municípios. Na capital São Luís, a distribuição começou na última quarta-feira, 26, respeitando um calendário de entregas para evitar aglomerações. “Montamos uma estratégia diferenciada com pontos estratégicos e seguindo os protocolos sanitários”, afirmou o secretário de Desenvolvimento Social, Márcio Honaiser, segundo nota divulgada pelo governo.

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Sem estrutura para levar gás natural a usinas, País eleva importação do insumo

No momento em que o sistema elétrico nacional passa a depender mais das usinas térmicas, por causa do baixo volume dos reservatórios das hidrelétricas, 60% da produção de gás é devolvida aos campos de extração por falta de dutos para transporte do produto

Fernanda Nunes, O Estado de S. Paulo

04 de junho de 2021 | 05h00

RIO - Neste período de seca nos reservatórios das hidrelétricas e de uma iminente crise hídrica causada pelo baixo volume de chuvas, o País deixa de aproveitar mais da metade de todo o gás natural que produz e que poderia estar sendo usado para gerar energia térmica. Ao mesmo tempo, aumentam a importação e o custo para trazer o produto de fora. Neste ano, as compras externas de gás natural pelo Brasil atingiram o maior patamar desde 2016 para os meses de janeiro a abril. Apenas em quatro meses, o País pagou US$ 1 bilhão, quase o total gasto em todo o ano passado e o dobro do valor pago no mesmo período de 2020.

Essa alta nas importações deve chegar à conta de luz, já que as usinas termoelétricas são as substitutas naturais das hidrelétricas em períodos de seca e vão ser acionadas para evitar a repetição do apagão de 2001.

Em vez de ser usado como insumo para a geração de energia térmica, o gás nacional está sendo injetado de volta nos campos marítimos, sobretudo nos do pré-sal. De janeiro a abril, o volume de gás nacional distribuído ao mercado já caiu 14%. Esse é o dado mais recente divulgado pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Ao mesmo tempo, cresce a importação da matéria-prima, cobrada em dólar e a preço internacional.

Dos 131,4 milhões de metros cúbicos por dia de gás extraídos no País, apenas 53,5 milhões são ofertados para venda. Isso significa que 60% do total não chegam ao mercado. Essa tem sido a tônica desde que o pré-sal ganhou relevância, porque falta infraestrutura para escoar toda a produção dos campos.

O governo federal editou na quarta-feira um decreto que regulamenta a Nova Lei do Gás, sancionada em abril e que visa a modernizar o setor. A ideia é criar um mercado “aberto, dinâmico e competitivo”, segundo a Secretaria-Geral da Presidência da República. 

O gás natural é o principal insumo usado na geração de energia térmica, que ganhou importância neste período de crise hídrica. Em 31 de maio, essas usinas bateram recorde de geração, de 17,13 mil megawatts médios (MWmed) por usina, segundo o Operador Nacional do Sistema (ONS).

A consequência direta é o aumento do preço da energia, já que esse tipo de geração é mais caro do que a hidrelétrica. Numa indicação ao consumidor de que a conta de luz vai ficar mais cara, o governo acionou, no fim de maio, a bandeira vermelha 2.

Indexador

O aumento da demanda térmica está sendo suprido, em grande parte, pelo gás importado, cobrado em dólar. A mesma lógica vale para o produto nacional, já que, no cálculo do seu preço, são utilizadas as mesmas variáveis do produto importado. Esse modelo de negócio, no entanto, começa a ser questionado por especialistas, uma vez que, nesses parâmetros, pouca diferença faz entre aumentar a produção interna ou a importação. O custo do insumo e o peso na conta de luz acabam sendo os mesmos.

Na tentativa de melhorar as condições de compra para seus clientes, a Petrobrás recentemente anunciou a possibilidade de indexar o gás fornecido por ela ao gás Henry Hub (HH), ofertado em um mercado de produtores americanos. Seria uma alternativa aos contratos indexados ao petróleo do tipo Brent, na Bolsa de Londres.

Os preços do gás Henry Hub têm sido os mais baixos do mercado internacional nos últimos 11 anos, segundo Ieda Gomes, ex-presidente no Brasil da empresa de energia BP, membro de conselhos de administração de empresas do setor e especialista no tema. Durante o evento virtual Gas Week, promovido pela agência especializada EPBR no fim de maio, ela apresentou dados sobre os dois indexadores. Em 12 meses até maio deste ano, o HH subiu 71%, enquanto o petróleo do tipo Brent variou 105%.

Ela destacou, no entanto, que “uma coisa é o preço e outra, o índice de reajuste”. O fato de o Henry Hub ser barato não significa que o gás brasileiro vai estar no mesmo nível. Mas, se for indexado ao HH, a expectativa é de menos volatilidade. “Por que não pensar numa indexação de uma fatia do gás ao IGP-M? O preço ofertado ao mercado doméstico vai ser indexado ao dólar? Se for, não poderá fugir da depreciação do real frente à moeda americana”, disse.

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