Gás expresso: desafios logísticos do pré-sal

O pré-sal apresenta uma enorme oportunidade para mudar a realidade do mercado de gás natural no Brasil e tornar o combustível um fator de competitividade. O potencial de aumento de oferta do energético ao mercado a partir dos campos já descobertos é gigantesco; mas os desafios para tanto também, e esse potencial não se concretizará se não houver uma coordenação de esforços entre todos os agentes envolvidos.

RICARDO MENDES,

06 de julho de 2013 | 02h05

O maior de todos os desafios é o logístico. As reservas estão localizadas a distâncias da ordem de 250 km a 300 km da costa de São Paulo e do Rio, e o escoamento não é uma tarefa simples. Deixar essa questão a cargo dos produtores, como vem sendo feito, ameaça-nos de desperdiçar um recurso de grande importância para o País.

Em geral, nos campos de gás associado ao petróleo, o primeiro tem retorno financeiro inferior ao do óleo. Ao mesmo tempo, as empresas têm um desafio enorme para financiar os investimentos necessários às atividades de E&P em águas profundas. Por isso, normalmente opta-se pela reinjeção do gás nos poços para aumentar a recuperação de óleo e reduzir investimentos em infraestrutura. Essa solução, do ponto de vista da competitividade do País, não é a mais adequada. Estimativas da Agência Nacional do Petróleo (ANP) indicam que nos últimos seis anos foram reinjetados, em média, 10,7 milhões de metros cúbicos por dia. Se nada for feito, com o pré-sal esse volume deverá se ampliar significativamente. É gás que, se fornecido à indústria a preços competitivos, poderá alavancar a produção e fomentar o desenvolvimento nacional. Diante desses fatos, o projeto +Gás Brasil estudou alternativas que auxiliem a diminuir barreiras comerciais do setor e fomentem novos investimentos na área.

Mecanismos do setor de infraestrutura, como o ferroviário e o de energia elétrica, podem viabilizar esses investimentos e garantir o aumento da produção de gás. Se isso for feito de forma inovadora e atraente, o gás associado poderá ser entregue ao mercado a custo mais competitivo e sem imputar aos produtores, inclusive à Petrobrás, o peso dos investimentos no transporte de gás natural. O melhor é que isso já está previsto na Lei do Gás e pode ser implementado rapidamente.

A solução passa por modelos que permitam o compartilhamento de infraestrutura necessária para trazer o gás até o continente. Para isso, é necessário que haja a liderança do Ministério de Minas e Energia (MME) e que, por meio de ações conduzidas pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e pela ANP, sejam reunidas as empresas envolvidas na exploração do pré-sal para dimensionamento e otimização da infraestrutura. Com um projeto otimizado, os gasodutos offshore estruturantes podem ser construídos e operados por investidores interessados numa atividade de baixo risco e retorno de longo prazo.

Selecionados por meio de licitação, esses investidores serão remunerados com base no capital investido a taxas de retorno do setor de infraestrutura, e não da indústria do petróleo. Eles ficarão responsáveis pela construção dos gasodutos e terão garantia de compra de 100% da capacidade pela tarifa leiloada. A comercialização da capacidade ociosa, quando houver, será feita na sequência, por meio de novos leilões para uso dos dutos.

Um planejamento integrado e cuidadoso que respeite esses parâmetros garantirá melhores oportunidades de escoamento do novo gás, possibilitando que chegue mais competitivo e em maior volume ao mercado e que produtores concentrem investimentos e esforços nas atividades de E&P. A iniciativa também ajudará a viabilizar a produção em descobertas de pequeno porte e em campos maduros, cuja equação financeira é mais complexa. Resolverá, portanto, impasse importante para melhorar as condições de oferta de gás natural no País.

 

* RICARDO MENDES É PRESIDENTE DO CONSELHO DIRETOR DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE GRANDES CONSUMIDORES INDUSTRIAIS DE ENERGIA E DE CONSUMIDORES LIVRES (ABRACE), ASSOCIAÇÃO RESPONSÁVEL PELO PROJETO +GÁS BRASIL.

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