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Gasolina na inflação

O reajuste dos preços dos combustíveis nas refinarias corresponde a certa dose de inflação na veia

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

30 Setembro 2015 | 21h00

O reajuste dos preços da gasolina e do diesel corresponde a certa dose de inflação na veia.

É o efeito prático do que já se sabia: a disparada das cotações do dólar no câmbio interno contribuiria para aumentar a inflação. Esse impacto inflacionário reduz o risco de que o governo aumente a Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide), tributo que também aumentaria os preços e a inflação.

Os primeiros cálculos indicam que a alta dos combustíveis na ponta da refinaria provocará alta imediata dos preços da gasolina, de aproximadamente 4,5%, e esta, por sua vez, puxará o custo de vida em pelo menos 0,2 ponto porcentual. O reajuste do diesel deverá ter impacto no frete e, a partir daí, de maneira desigual, no resto da economia. (A gasolina pesa 3,876% na cesta do custo de vida e o diesel, 0,130%.)

Desta vez, a Petrobrás não esperou para atualizar seus preços tanto quanto esperava ao longo dos últimos dez anos. É sinal de que recobrou certo grau de autonomia para comercializar seus produtos. Trata-se de um fato positivo porque indica que o governo deixou de fazer política de preços à custa do caixa da Petrobrás. Alguns cálculos apontam que esse achatamento dos preços provocou um sangramento da empresa em torno de R$ 60 bilhões em dez anos.

No entanto, persiste o problema de fundo. Não há transparência nas regras de formação dos preços dos combustíveis e dos insumos da Petrobrás. Ninguém pleiteia que a paridade aos preços internacionais seja praticada diariamente, como nos Estados Unidos, conforme a variação dos preços em dólares convertidos em reais. Mas a previsibilidade da economia seria maior se o critério dos preços de insumos tão importantes fosse objetivo e não sujeito ao arbítrio de quem estivesse episodicamente no comando.

O novo reajuste tem por objetivo evitar o agravamento das finanças da Petrobrás, fortemente atingida pela corrupção, pelos desmandos administrativos e pela desastrosa política de preços. O balanço do terceiro trimestre, a ser divulgado em algumas semanas, deverá mostrar endividamento da Petrobrás provavelmente acima dos R$ 500 bilhões, à beira do insustentável.

Os preços internacionais do petróleo despencaram em dólares nada menos que 54% desde julho de 2014. Isso deveria derrubar na mesma proporção também os preços internos dos derivados. Mas esse fator baixista foi atropelado pela alta do dólar no câmbio interno.

O reajuste dos preços não reequilibra as finanças da empresa. Somente novo aumento de capital seria capaz disso. No entanto, os acionistas não parecem dispostos a enfrentar uma nova subscrição de ações. O Tesouro, acionista majoritário, está na raspa do tacho. Talvez pudesse recorrer a nova operação de cessão onerosa, pela qual repassaria petróleo de propriedade da União, ainda no subsolo, para ser absorvido pela Petrobrás como reforço patrimonial. Mas é improvável que os acionistas minoritários, decepcionados com o descalabro administrativo da empresa, se dispusessem a subscrever sua parte no aumento de capital.

CONFIRA:

No gráfico, a evolução da dívida bruta e da dívida líquida do governo geral.

Dívida bruta

Quem olha só para o resultado das contas públicas tem uma primeira impressão positiva, porque o déficit primário caiu de R$ 10,0 bilhões em julho para R$ 7,3 bilhões em agosto. Mas a melhora é aparente, porque a dívida bruta está crescendo perigosamente. Saltou de 58,9% do PIB em dezembro de 2014 para 65,3% do PIB em agosto. Aí há um duplo efeito negativo: o da deterioração das contas públicas e da redução do tamanho do PIB. 

 

 

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