Arquivo Pessoal
Professora Christiane Costa teve de fazer ajustes Arquivo Pessoal

GASTO DAS FAMÍLIAS PODE TER PIOR ANO EM DÉCADAS

Desemprego, inflação e juros altos são alguns dos fatores para a queda no consumo; desde 1990, houve retração em apenas quatro anos

Vinicius Neder, Idiana Tomazelli, Chico Siqueira, Carmem Pompeu, O Estado de S. Paulo

17 de agosto de 2015 | 03h00

Principal motor do crescimento da economia brasileira nos últimos anos, o consumo das famílias caminha para ter em 2015 a maior queda desde o início da década de 90. Aumento do desemprego, queda na renda dos trabalhadores, inflação elevada, aumento dos juros e redução do crédito disponível são apontados como os principais fatores para a contenção de despesas nos lares. O resultado é que as famílias estão, a seu modo, fazendo seus “ajustes fiscais”, incluindo “pedaladas”, em alguns casos.

Atrasar a troca do carro, usar a geladeira por mais tempo, deixar de comer fora e substituir marcas mais caras por outras mais baratas são algumas das estratégias usadas pelos consumidores, em todas as faixas de renda. “A crise chegou e é transversal em todas as classes”, diz Renato Meirelles, presidente do instituto Data Popular, especializado em pesquisas sobre os hábitos de consumo das classes de menor poder aquisitivo. 

De 1990 para cá, houve retração no consumo em apenas quatro anos (1991, 1992, 1998, 2003) e todas as quedas foram no máximo de 0,7%, ou seja, em 2015, qualquer recuo superior a isso já será o maior desde 1991 – esse cálculo não existe para 1990, mas o consumo deve ter recuado, pois a economia afundou 4,3% naquele ano, marcado pelo confisco das poupanças no governo de Fernando Collor (1990 -1992). 

O Estado identificou pelo menos cinco instituições de pesquisa econômica, entre bancos e consultorias, com projeções mais pessimistas do que o recuo de 0,7% neste ano. 

João Sabóia, professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IE/UFRJ), explica que até dois ou três anos atrás, a economia vinha sendo puxada pelo consumo privado. A massa total de rendimentos, turbinada tanto pelo maior número de pessoas com emprego quanto pelos aumentos salariais, não parava de crescer. Agora, isso acabou, com os salários sendo reajustados abaixo da inflação e as pessoas perdendo o emprego.

Para Silvia Matos, pesquisadora do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), a desaceleração no consumo das famílias é resultado dos excessos cometidos nos últimos quatro anos. A economia desacelerou a partir de 2011, mas os brasileiros não sentiram isso no dia a dia. Com o mercado de trabalho em expansão, a ampliação do crédito, os juros em queda e o aumento real da renda, o consumo cresceu com muito mais vigor do que a atividade como um todo. “Criamos uma certa euforia. Mas, sem a economia manter o ritmo, a festa ia acabar. O Brasil viveu no crediário e agora vai ter de pagar a conta”, diz Silvia, que vê queda de 2,0% no consumo este ano. 

Contraponto. Sabóia, do IE/UFRJ, discorda de que os excessos de antes exigem ajuste tão forte agora e critica o peso da alta dos juros, que deixa o crédito mais escasso e caro. “O crescimento da massa de rendimentos acabou porque o governo tomou a iniciativa de fazer um ajuste forte, que está sendo muito maior do que se esperava”, diz o professor.

Na visão de Silvia, a classe média e a classe baixa sofrerão mais, pois não têm o hábito de poupar e estão desprotegidas ante o desemprego e a queda na renda. 

Mais otimista, Meirelles, do Data Popular, confirma que a classe C fica mais fragilizada porque não tem poupança, mas, por outro lado, “para a classe C, crise não é exceção, é regra”. “O ‘sevirômetro’ é muito maior nas classes C e D do que nas A e B. As pessoas têm quatro chips de celular para economizar, ‘hackeiam’ o Wi-Fi alheio, entre outras estratégias. Eles estão tendo de rebolar para não dar um passo atrás”, diz Meirelles.

Uma pesquisa do Data Popular feita no início do mês, com 3 mil pessoas, mostra que 42% dos brasileiros deixaram de pagar uma conta para quitar outra ao longo dos últimos 12 meses. É a “pedalada fiscal doméstica”, diz Meirelles.

A estratégia lembra o atraso do repasse do Tesouro Nacional para os bancos públicos fazerem pagamentos de programas sociais: a família deixa de pagar num mês a conta de luz para pagar a fatura do cartão de crédito; no mês seguinte, paga a luz, para evitar que o fornecimento seja cortado, e deixa de pagar alguma outra conta.

Mais pessimista, o economista Marcel Caparoz, da RC Consultores, lembra que anos de retração no consumo nunca reuniram uma coleção tão grande de fatores negativos. “Fomos acostumados a um ambiente de ter sempre emprego. Mas tudo convergiu neste ano, 2015 fica marcado porque tem quase todos os indicadores, ao mesmo tempo, indo na direção negativa.”

Tudo o que sabemos sobre:
consumoinflaçãocrise

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Mudanças de hábitos e pedaladas são armas no combate à crise

Estratégia inclui troca de produtos de marcas, corte de supérfluos e, até mesmo, escolher que conta pagar primeiro

Chico Siqueira; Carmem Pompeu , Especial para O Estado de S. Paulo

17 de agosto de 2015 | 03h00

A família do representante comercial Ernesto Francisco Andrade é o exemplo do aperto vivido pelas famílias brasileiras que são obrigadas a reduzir o consumo para sobrar dinheiro para pagar as contas do fim do mês. Funcionário de uma empresa de materiais elétricos para construção civil que entrou em recuperação judicial, Andrade teve de reduzir gastos, mudar hábitos de consumo e dar “pedaladas” no orçamento doméstico para manter um mínimo de conforto no dia a dia da família.

“Ainda bem que consegui quitar o carro (um Kia Sportage, 2007), mas a troca por um modelo mais novo vai ficar para depois”, afirma Andrade. “As vendas caíram e a empresa passou a não cumprir prazos de entrega, e comecei a faturar bem menos, resultando numa queda de renda brutal.”

Segundo ele, “desde 2013, a coisa vem apertando, mas este ano, piorou demais”. A saída foi usar criatividade e “jogo de cintura”. “Em algumas contas, dou ‘pedaladas’. Se tem juros altos, como cartão de crédito, dou prioridade no pagamento, mas outras, menores, ficam para o mês seguinte e assim vou revezando para não deixar de pagar ninguém”, conta. “A gente atrasa aqui e ali e vai levando.”

O consumo da família também mudou. “Troquei as marcas de produtos de limpeza e de consumo na casa”, diz Célia. Agora a família compra grandes quantidades em lojas de atacado. “O sabão em pó, por exemplo, eu compro embalagens de cinco quilos, que sai mais barato. Parei com o refrigerante e agora o negócio é o suco de saquinho.” Segundo Ernesto até mesmo conseguir outro emprego está difícil. “As empresas mais conceituadas estão com o quadro formado”, explica. “Vamos esperar que as coisas melhorem para que a gente volte a consumir, mas não vejo muitas mudanças em pouco tempo não”, concluiu.

Nova realidade. Em Fortaleza, Clébia Nobre, dona de uma pequena confecção de roupas masculinas no bairro Serrinha, deixou a Coca-Cola de lado e substituiu pelas “tubaínas”, como são chamados os refrigerantes de marcas menos conhecidas. O sabão em pó que lavava a roupa da família – ela, o marido e as duas filhas menores – também foi trocado. De olho mais atento ao orçamento, Clébia deixou de lado a fidelidade a certas marcas de produtos.

Até pouco tempo atrás, a situação financeira da família era ótima. Em 2011, Clébia até ampliou a confecção, mas, com o aumento no custo de vida, a família começou a enfrentar alguns problemas financeiros. “A gente aperta o supérfluo e gasta o essencial. É melhor do que ter dívidas para o futuro.”

Professora da rede municipal de Fortaleza, Christiane Costa também teve de fazer ajustes no orçamento para não acumular dívidas. “Como as coisas estão piorando cada dia, a situação da classe média está no corte de despesas. Marcas caras nem pensar.” Para continuar bancando o combustível do carro usado para ir ao trabalho e para os passeios com a filha, ela reduziu o consumo de certos alimentos, como peixe, feijão verde e algumas frutas. Além da gasolina, outra conta que tem pesado é a de luz. 

Já para o administrador de empresas Glauber Henrique de Carvalho, que trabalha no setor de construção, é separado e tem uma filha, a crise ainda não chegou. Ele costuma planejar tudo. “O segredo é não gastar com besteira”, diz. Carvalho usa um software para administrar as contas pessoais. “Às vezes, pagamos caro por um produto, mas na verdade, estamos pagando pela marca.”

Tudo o que sabemos sobre:
consumoinflação

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.