Gasto de brasileiro no exterior é recorde

Férias, alta renda e valorização do real deixam rombo de US$ 1,09 bi na conta de viagens internacionais; é o pior resultado da história

Fernando Nakagawa, Fabio Graner BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

24 de agosto de 2010 | 00h00

Pela primeira vez na história, a conta de viagens internacionais teve rombo mensal maior que US$ 1 bilhão. Impulsionado pelas férias escolares e pela combinação de alta da renda e valorização do real, o gasto de brasileiros no exterior superou em julho a receita obtida com estrangeiros em viagem ao Brasil em US$ 1,09 bilhão.

É o pior resultado da série, iniciada em 1947. No acumulado do ano, o turismo internacional já drenou US$ 5,2 bilhões para o exterior, crescimento de 109,4% na comparação com igual período de 2009.

Os recordes negativos na conta de turismo são explicados pela realidade distinta entre a economia do Brasil e do exterior. Enquanto brasileiros têm aumento de renda e taxa de câmbio favorável para gastar em outras moedas, estrangeiros ainda tentam se recuperar da crise.

"Você tem dois fatores auxiliando o aumento dos dispêndios no exterior e, do outro lado, a renda externa ainda prejudica o turismo receptivo no País", explica o chefe do Departamento Econômico do Banco Central, Altamir Lopes.

Os números mostram a diferença de ritmo. Até julho, a despesa de brasileiros no exterior saltou 56,1% na comparação com igual período de 2009 e somou o recorde de US$ 8,58 bilhões. Ao mesmo tempo, a receita obtida pelo País com estrangeiros em visita ao território brasileiro cresceu bem menos: 12,2%, para US$ 3,38 bilhões.

De janeiro a junho, 7,4 milhões de passageiros passaram pelos aeroportos brasileiros em viagens internacionais, segundo a estatal Infraero. O número é 17,5% maior que o verificado nos seis primeiros meses de 2009.

Segundo Altamir, a conta de viagens internacionais tem a maior participação relativa na piora dos números da conta corrente (que registra todas as transações de bens e serviços do Brasil com o exterior), que acumula no ano déficit de US$ 28,26 bilhões. Comparado ao resultado de igual período de 2009, o rombo das contas externas cresceu em US$ 19 bilhões. "Desse total, a conta de serviços e rendas contribuiu com US$ 11,6 bilhões, sendo que a conta de viagens internacionais teve participação de US$ 2,72 bilhões", disse Altamir.

Outro dado que mostra a diferença de realidade econômica entre o Brasil e a maior parte do mundo são as remessas de dinheiro feitas por trabalhadores. De janeiro a julho, os dólares enviados por brasileiros que vivem no exterior somaram US$ 1,3 bilhão, com leve crescimento de 1,3% ante 2009. Ao mesmo tempo, a remessa de recursos feita por estrangeiros que vivem no Brasil saltou 38,1%, para US$ 452,3 milhões.

Altamir Lopes chamou atenção para as remessas que cresceram especialmente para os Estados Unidos. Ele explicou que há número crescente de executivos americanos no Brasil que remetem parte do salário para suas famílias naquele país.

Visto de trabalho. Segundo o Ministério do Trabalho, foram concedidos 22.188 autorizações de trabalho a estrangeiros no primeiro semestre, com avanço de 18,8% na comparação com o ano anterior. Entre essas autorizações, 8,2 mil foram para estrangeiros que vieram trabalhar em embarcações ou plataformas marítimas.

Levantamento da Coordenação Geral de Imigração mostra ainda que os americanos foram os mais receberam autorizações (3.622), seguido pelos ingleses (1.921), filipinos (1.737), alemães (1.519) e chineses (1.080).

"A vinda desses profissionais está relacionada com a implementação de investimentos seja pela aquisição de máquinas e equipamentos importados, que demandam a vinda de técnicos para a montagem, instalação ou repasse da tecnologia", explica em nota o ministério./ COLABOROU EDNA SIMÃO

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