Gasto de reservas pelo BC preocupa mercado

Um novo temor começou a enervar alguns operadores e analistas do mercado financeiro nas últimas semanas: será que o Banco Central (BC) está gastando demais as reservas internacionais brasileiras, com as suas intervenções diárias no mercado de câmbio, vendendo dólares? O BC está vendendo reservas basicamente para conter a alta da moeda americana, que vem sendo impulsionada pelo fato de que, desde maio, há uma saída estável e expressiva de dólares do País. De janeiro até 15 de outubro deste ano, a saída líquida foi de US$ 8,8 bilhões, comparado com uma saída de US$ 1,4 bilhão em igual período de 2001. Uma parte desta saída vem ocorrendo pelas CC-5, as chamadas contas de não-residentes (ver gráfico), mas o BC vem indicando que a maior parte das saídas por este canal é de empresas recomprando seus títulos desvalorizados no exterior. Segundo as estimativas de José Augusto Arantes Savasini, economista da Rosenberg & Associados, em um período que começa durante agosto e vai até o início de setembro, o Banco Central deve ter vendido cerca de US$ 110 milhões das reservas por dia. E do começo de setembro até o dia 15 de outubro, a média subiu para aproximadamente US$ 135 milhões por dia. "Achamos muito perigoso que as reservas líquidas caiam abaixo de US$ 10 bilhões", diz Savasini, que está preocupado com a possibilidade de que isto efetivamente ocorra até o fim do ano. As reservas líquidas excluem os empréstimos do Fundo Monetário Internacional (FMI), que em princípio não podem ser usados para intervenções cambiais. Há cerca de 50 dias úteis até o fim de 2002, observa Savasini. Mesmo supondo que o ritmo de intervenção caia para US$ 100 milhões por dia, são mais US$ 5 bilhões que seriam gastos. Nas contas de Savasini, isto se soma a mais cerca de US$ 2 bilhões de amortizações e juros da dívida pública externa, que também saem das reservas líquidas. Como ele calcula que, no momento, as reservas líquidas estejam próximas a US$ 16,5 bilhões, um gasto adicional de US$ 7 bilhões as jogariam abaixo de US$ 10 bilhões até o fim do ano. "Não estou imaginando que a partir de 1º de janeiro as reservas parem de cair; é preciso dar uma folga para o próximo presidente", afirma ele. As reservas brutas estão em US$ 35,5 bilhões, incluindo US$ 17,3 bilhões do FMI, mais cerca de US$ 2 bilhões em outros tipos de depósitos que também são excluídos das reservas líquidas, segundo Savasini. O economista-chefe da BBA Corretora, Alexandre Schwartsman, por sua vez, estima que as reservas líquidas estejam em US$ 18,2 bilhões. Apoio do FMI Apesar das preocupações, o Brasil está cumprindo o que foi combinado com o FMI. Pelo último acordo, o BC pode intervir com até US$ 3 bilhões por mês, em uma média móvel - e este limite tem sido respeitado. O FMI também baixou de US$ 15 bilhões para US$ 5 bilhões o piso (o mínimo) das reservas líquidas brasileiras. E há, finalmente, como dado tranqüilizador, a suposição de que o pior do nervosismo do mercado se dissipará poucos dias depois de anunciado o resultado final das eleições presidenciais, após o dia 27 - o que poderia reduzir a necessidade de intervenção até bem abaixo dos US$ 100 milhões por dia citados por Savasini. Sérgio Werlang, diretor do Banco Itaú e ex-diretor do Banco Central, não vê a questão da queda das reservas como um grande problema: "Depois das eleições, (a necessidade de intervenção) deve diminuir, a menos que o conjunto de políticas do próximo presidente não seja visto como coerente, o que é pouco provável", diz Werlang. Mas esta posição está longe de consensual. Mesmo um economista Schwartsman, que praticamente descarta a possibilidade de o Brasil entrar em moratória, está preocupado. A preservação das reservas internacionais, que existe no câmbio flutuante mas não no fixo (onde o BC se compromete a vender dólares a uma determinada taxa de câmbio), é um dos sustentáculos da visão relativamente otimista de Schwartsman. "A menos que eles estejam contando com a possibilidade de ficar com reservas líquidas negativas, é uma temeridade fazer este grau de intervenção", diz Schwartsman. Ele se refere aos casos em que o FMI negocia com o país um "piso negativo" de reservas líquidas. Isto quer dizer que o Fundo aceita que o país use uma parte dos seus empréstimos para intervir no câmbio, como ocorreu com a Turquia e a Coréia. Esta possibilidade é mencionada por Werlang, mas Savasini discorda de que seja tranqüilizadora. Ele acha que, mesmo com o aval do FMI, a queda das reservas líquidas abaixo de US$ 10 bilhões deixará o mercado ainda mais nervoso. "O papel aceita o número mas o mercado vai ficar extremamente volátil; ninguém vai querer apagar a luz do aeroporto", prevê Savasini.

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