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Apenas 6% do gasto pelo G20 na pandemia foi para economia verde, aponta pesquisador de Johns Hopkins

Pesquisador afirma que guerra na Ucrânia pode intensificar transformação energética ao tornar fontes solares e eólicas mais competitivas

Entrevista com

Jonas Nahm, professor na Johns Hopkins University

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2022 | 15h30

Quando os países começaram a injetar bilhões de dólares em suas economias na tentativa de reduzir o impacto econômico da pandemia, em 2020, rapidamente surgiu a discussão, principalmente na União Europeia, de aproveitar esses recursos para impulsionar a transformação para uma economia verde. Passados dois anos, um grupo de pesquisadores da Universidade Johns Hopkins analisou os investimentos feitos pelos países do G-20 e concluiu que apenas 6% de um total de US$ 14 trilhões (montante próximo ao PIB chinês) aportado pelos governos acabou indo para políticas que reduzem a emissão de gases de efeito estufa. O porcentual ficou, inclusive, aquém do registrado depois da crise de 2008/2009, quando foram 16%. Dos recursos públicos desses países, 3% ainda foram para atividades que aumentam as emissões, como a indústria do carvão.

“Os governos falam muito sobre crescimento verde como oportunidade, mas, quando se deparam com um problema grande, a reação não é pensar nisso. Nessas ocasiões, eles se voltam aos estímulos tradicionais da economia”, diz Jonas Nahm, professor de Energia, Recursos e Meio Ambiente de Johns Hopkins e um dos pesquisadores por trás do estudo, publicado na revista Nature em março.

Segundo o professor, quem mais investiu na transformação da economia para um modelo verde foram países cujas economias dependem de indústrias ameaçadas pela mudança energética. A Alemanha, que tem um setor automotivo importante, por exemplo, foi um deles. Nahm afirma que esses países devem se tornar ainda mais competitivos no futuro, pois estão apostando em produtos ou serviços que serão mais demandados.

Confira, a seguir, trechos da entrevista:

Por que houve essa redução no estímulo à economia verde na comparação com 2008?

Não sabemos exatamente. Esse é um projeto que está em andamento e agora estamos coletando dados melhores de 2008 e 2009. Mas tem razões diferentes para diferentes países. Nos Estados Unidos, por exemplo, os governos são muito distintos. Donald Trump não ligava para o clima. Em 2009, Barack Obama tinha acabado de assumir e era sua primeira oportunidade de realmente causar um impacto. Também era diferente a maioria no Congresso. Ele pode agir de modo diferente do que o Joe Biden agora. Houve uma grande mudança também na China, que gastou muito dinheiro em 2009 em trens de alta velocidade e energia solar. Muitos desses projetos agora já estão completos. A China já está dominando todos esses setores industriais. Então talvez o governo não veja a necessidade de gastar ainda mais dinheiro nisso. De forma geral, apesar de ainda não ter números para provar isso, acho que os governos falam muito sobre crescimento verde como oportunidade, mas, quando se deparam com um problema grande, a reação não é pensar nisso. Nessas ocasiões, eles se voltam aos estímulos tradicionais da economia. Acabam subsidiando e investindo no que já está aí. A pandemia foi uma situação de emergência, e uma  mudança estrutural da economia não foi a primeira coisa em que as pessoas pensaram. Em 2009, foi uma crise econômica estrutural: estava relacionada ao sistema bancário. Desta vez, a economia estava indo bem, mas um vírus desencadeou a crise. Então ninguém realmente pensou: ‘Precisamos mudar o modo que a economia funciona para sairmos desse problema’. 

O mundo perdeu uma oportunidade para mudar a economia?

Temos até 2025 para as emissões começarem a decair globalmente. Não temos muito tempo e perdemos dois anos gastando muito dinheiro em todo o tipo de coisa. Não usamos muitos recursos para resolver o problema das emissões. Se pensarmos no tempo curto que temos para resolver o problema, perdemos muito tempo e não o usamos muito sabiamente. Mas tem algumas lições também. Podemos aprender com o que os países fizeram, ainda que não tenham feito o suficiente. 

Quais são essas lições?

Uma delas é a ideia de que, quando um governo ajuda empresas em situações de crise, ele pode fazer isso de forma condicional. Não precisa pedir para as companhias mudarem comportamentos. O governo pode dizer: ‘Damos um financiamento, mas pedimos em troca que você publique seus dados de emissão de carbono de forma mais transparente’. Isso pode afetar como os acionistas e o mercado acionário trata a empresa. É uma ferramenta que pode ser muito poderosa. O Canadá usou esse tipo de condição que exige relatórios de emissão. A França, por exemplo, pediu para a Air France parar de voar rotas domésticas que competem com trens. É um objetivo de longo prazo.Há alguns exemplos desses que foram usados pela primeira vez e que poderíamos usar com uma frequência muito maior.

Quais foram os países que mais decepcionaram, que prometeram muito mas não entregaram?

Os EUA fizeram o maior estímulo e não investiram nada em economia verde…

Mas Trump não havia feito promessas nessa área.

Não, mas o Biden, sim. E ele não conseguiu nenhuma mudança importante. Ele não conseguiu passar o pacote de clima dele no Congresso. Pode não ter sido uma decepção, mas com certeza uma oportunidade perdida dado o tamanho do estímulo americano. O Reino Unido e o Canadá vinham mais comprometidos com as questões climáticas, e o que realmente ocorreu não foi tanto nessa linha. Os países da União Europeia fizeram um pouco melhor. A Coreia também fez bem. Mas acho que Canadá e Reino Unidos foram os que mais decepcionaram, se quer usar esse termo.

O que aconteceu nesses países?

Boris Johnson não é o maior defensor do clima e o Canadá é um grande exportador de óleo e gás, é uma economia essencialmente de combustíveis fósseis, o que dificulta a transformação. Mas tem também a limitação dos nossos dados. Olhamos apenas para gasto fiscal no nível federal relacionado à pandemia. Qualquer gasto que aconteceria de qualquer modo, sem a pandemia, não foi contabilizado. Também não contabilizamos gastos de entes subnacionais. Gastos de lugares como o Canadá, que tem um sistema de província muito forte, podem ter ficado de fora. Não acho que incluí-los mudaria o resultado completamente, mas é importante destacar isso.

O sr. comentou que alguns países investiram um pouco mais na economia verde durante a pandemia. O que eles fizeram?

Os países que investiram mais, França, Alemanha e Coreia, por exemplo, eram lugares que tinham indústrias grandes domésticas, como a automotiva na Alemanha, e muitas preocupações do governo em relação à competitividade dessas indústrias no futuro, nesse novo mundo. Acredito que esses lugares foram motivados por preocupações em relação à competitividade e realmente queriam usar essa oportunidade para posicionar suas indústrias para serem mais fortes no futuro.

Então foi mais uma preocupação com a competitividade do que com o meio ambiente?

Acho que sobre os dois. Uma coisa interessante é que frequentemente pensamos que os governos mais preocupados com meio ambiente são aqueles que têm pouca exposição à indústria, países como a Noruega. Mas, se você olhar as estatísticas, percebe que os países que fazem mais são os que têm setores industriais grandes que estão ameaçados por essas mudanças e os governos estão preocupados com emprego e crescimento. Por exemplo, se a indústria automotiva alemã não for mais competitiva, isso será um grande problema para o país. Um terço dos trabalhos na Alemanha tem alguma relação com essa indústria. Obviamente eles pensam muito sobre isso.

A guerra na Ucrânia pode atrasar ainda mais a transformação energética global, com mais países destinando recursos a setores que aumentam as emissões de carbono?

É cedo pra dizer, mas acho que pode ser bom para o clima de dois modos. Um é tornando a energia convencional mais cara. Então, novas fontes, como solar e eólica, se tornam mais competitivas. Também acho que alguns países estão com um novo comprometimento com o clima. A União Europeia está agora vendo a energia renovável como uma questão de segurança energética de um modo que não via antes. O governo alemão está aumentando as metas de energia solar, eólica e para veículos elétricos. Eles estão fazendo isso para se livrar das importações energéticas.

Mas alguns países podem retomar investimentos em carvão justamente por causa da segurança energética, não?

Acho que eles terão de fazer isso no curto prazo. A transição é complicada e sempre foi um projeto que levaria 20 anos. Agora talvez façam isso em dez anos. Mas esses dez anos serão bagunçados e, em algum período, podem queimar mais carvão, enquanto os outros recursos estão sendo instalados e potencializados. Não acho que vai ser um progresso linear, mas acredito que tem um novo comprometimento e um consenso em relação à energia renovável.

Como avalia a reação do Brasil na pandemia?

Parece que não houve uma tentativa de usar a crise como oportunidade para mudar a economia ou ter havido uma estratégia geral para a economia. Foram várias respostas com certas finalidades: ‘Essas pessoas precisam de ajuda, então vamos dar alguma ajuda’. Mas não algo como: ‘Vamos pensar nisso como um investimento geral em uma economia diferente’. 

Qual deve ser o resultado de médio prazo nos países que pensaram a pandemia como oportunidade para transformar a economia?

A União Europeia, por exemplo, usou essa crise para acelerar ou investir mais em projetos que já tinham começado.Um desses projetos é criar uma indústria de baterias europeia independente. A Europa tem uma indústria automotiva grande e realmente estão preocupados com essa transição para carros elétricos. Hoje eles são muito dependentes da China, e a relação com a China não é das melhores. Então eles estão gastando muito dinheiro para apoiar o crescimento dessa indústria, para poder produzir baterias e suas matérias-primas também, fazer o refino delas. Isso vai levar um tempo, mas vai fazer com que sejam menos dependentes. O segundo grande gasto é em hidrogênio e recursos verdes para hidrogênio, que poderiam ajudar todas as partes da economia, principalmente da indústria, que não pode ser eletrificada. O objetivo é desenvolver o hidrogênio como uma alternativa aos combustíveis fósseis. Acho que tudo isso pode torná-los mais competitivos. E essas mudanças (para uma economia verde) não vão parar. É uma questão de quem vai comprar e quem vai vender as coisas futuramente.

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