Gaúchos têm melhor renda

Mesmo com situação melhor, famílias sentem que ano de 2014 está estagnado e começam a cortar gastos para fazer caber no salário

Elder Ogliari, O Estado de S. Paulo

26 de julho de 2014 | 22h52

Em Porto Alegre, onde estão as favelas mais “ricas” do País, segundo a pesquisa do Data Favela, a vida não é muito diferente da de outras comunidades parecidas no Brasil. Moradora da Vila Safira desde que era criança, a cozinheira Alexandra Ferreira, 37 anos, casada com trabalhador da construção civil e mãe de um menino de cinco anos e duas meninas - de 10 e 14 anos - viu a vida financeira da família “melhorar bastante” em anos recentes e ficar estagnada em 2014.

A renda somada dos cônjuges chegava a cerca de R$ 1,5 mil no ano passado e caiu para cerca de R$ 1,1 mil neste, quando ela ficou desempregada e recorreu ao Bolsa Família. “Espero que seja por pouco tempo, porque tendo trabalho a gente ganha mais”, ressalta.

A família observa que algumas ruas da vila - não todas - foram pavimentadas ao longo dos anos, o transporte coletivo atende as necessidades e o atendimento do posto de saúde próximo é bom. Dentro de casa, conta com um televisor e conseguiu comprar a segunda geladeira há alguns anos. Alexandra tem conta bancária, mas não cartão de crédito, e conta que nunca precisou ajudar nem pedir ajuda a vizinhos para alguma operação de crédito.

“Eu credito as melhoras recentes a programas governamentais, mas também percebo que as coisas ficaram mais difíceis de alguns meses para cá”, avalia a cozinheira, que trabalhava em empresa fornecedora de refeições para escola até o início do ano. No novo quadro, Alexandra revela que a família “cortou toda a diversão”, citando como exemplo as eventuais idas a uma pizzaria.

Outra cozinheira desempregada, Luciane de Abreu Severo, solteira, mãe de três meninas com idades de 14, 9 e 4 anos, conta que a vila ainda tem acesso irregular a energia elétrica e água e algumas ruas não são pavimentadas. A renda pessoal, que chegou a R$ 630 quando estava trabalhando, caiu para os atuais R$ 340 do Bolsa Família acrescidos de R$ 200 que o ex-companheiro repassa mensalmente para as filhas. Luciane, que mora em casa mista de tijolos e madeira, na qual tem televisão, geladeira e tanque para lavar roupas, conta que se a união com o companheiro tivesse perdurado, poderia ter mais bens materiais. “Juntos teríamos adquirido mais coisas”, raciocina.

Luciane tem conta bancária e não tem cartão de crédito. Reconhece que o Bolsa Família tem ajudado, destaca que atende as exigências rigorosas de comprovar visitas aos médicos e frequência escolar das filhas, mas sonha com o dia em que vai receber o diagnóstico e tratar um “problema nas juntas” para voltar a procurar emprego. Diz que quer trabalhar para ganhar mais que o benefício atual e conseguir comprar “uma casa financiada, em ambiente mais seco e mais limpo que o atual”.

Dinamismo. A economista Lúcia Garcia, coordenadora de pesquisa de rendimento e trabalho do Dieese, diz que a renda de pessoas que vivem em favelas acompanha o dinamismo da região e a estrutura do mercado de trabalho. Por isso a renda é maior nas favelas de regiões metropolitanas como Brasília - eixo decisório do País - São Paulo e Rio de Janeiro - locomotiva e centro de prospecção de petróleo - e Porto Alegre, onde o mercado de trabalho é menos desigual que o de outras capitais e os serviços públicos, melhores.

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