GE leva um 'choque' e divide negócios

Símbolo da celebrada gestão de Jack Welch, área de serviços financeiros se revelou uma fonte de problemas

O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2015 | 02h05

Jeff Immelt, o presidente da General Electric (GE), deve ficar incomodado quando reportagens sobre sua empresa começam com uma referência a seu antecessor Jack Welch. Faz 14 anos que Immelt está no comando da maior companhia industrial do mundo. Sua decisão de abandonar a enorme divisão financeira da GE, anunciada em 10 de abril, fará dele a pessoa que mais radicalmente mudou a empresa em seus 123 anos de história. Mas para compreender o que isso significa para o capitalismo americano - e o motivo de os investidores terem gostado tanto da decisão - é preciso começar com Jack.

A unidade de finanças da GE é uma das maiores instituições financeiras dos Estados Unidos, com ativos de meio trilhão de dólares, aproximadamente o mesmo valor acumulado pelo banco Lehman Brothers antes da eclosão da crise de 2008. Sua área de atuação é vasta, vai do crédito ao consumidor ao mercado imobiliário. Sua existência se deve a Welch. Quando assumiu o comando da GE, em 1981, sua missão era pôr uma campeã industrial em forma de novo, cortando custos. O brilhantismo com que desempenhou a tarefa transformou Welch no CEO mais famoso do mundo, criando um culto a sua personalidade. Mas Welch também implementou gradualmente duas mudanças estratégicas. Com inteligência, transformou a GE num gigante global. E, de maneira tola, fez dela um banco fechado.

Por muito tempo, Welch pareceu um visionário. Ele anteviu a bolha gigante que se formou no mercado financeiro americano nos anos 1990 e 2000. Os lucros do setor financeiro dispararam. E o modelo de negócios adotado pela GE na área financeira era tão acelerado quanto o próprio Welch. Sem uma grande base de depósitos, a empresa se financiou com dívidas. Era uma operação extremamente alavancada e, em virtude disso, parecia muito lucrativa.

No período de 2000-2001, último ano em que Welch esteve na presidência da GE, o braço financeiro gerou um retorno sobre o patrimônio líquido de 23% e contribuiu com 41% dos lucros da companhia. Apesar de toda a retórica da empresa sobre o "six sigma", seu programa de práticas para o chão da fábrica, no fundo ela se apoiava numa gigantesca especulação financeira.

Ao assumir a presidência da GE, Immelt, talvez intimidado pela figura de seu antecessor, não se empenhou muito em reduzir a unidade financeira da companhia. Seus lucros eram uma espécie de ópio corporativo em que a empresa estava viciada. Então veio a crise financeira. Os mercados de dívidas de curto prazo secaram, fazendo que a GE encontrasse dificuldades para rolar seus US$ 72 bilhões em commercial papers. Os ganhos do braço financeiro despencaram. A empresa foi socorrida pelo governo e teve de cortar seus dividendos. Se a GE se imaginava como um bastião da pujança dos Estados Unidos, a crise mostrou que ela era um dos elos mais frágeis da economia.

Cortes. Passado esse período crítico, Immelt admitiu que a divisão financeira da empresa precisava ser enxugada. Era muito provável que a lucratividade caísse drasticamente depois que as autoridades submeteram os empréstimos de curto prazo a regras mais rígidas, além de exigir que um volume maior de capital fosse alocado como reserva de segurança. O plano inicial era reduzir a contribuição que o braço financeiro dava aos lucros da GE de 40% para 25%. Para cumprir esse objetivo, Immelt desmembrou e vendeu o departamento de crédito ao consumidor em 2014.

A ideia do CEO agora é ir muito além disso: a unidade financeira da GE se limitará a gerar 10% dos lucros da empresa. Ele certamente chegou à conclusão de que a complexa regulamentação financeira adotada ao longo dos últimos dois anos tornou o negócio inviável - coisa de que também se queixam muitos bancos de grande porte. E, tendo em vista o fraco desempenho das ações da GE nos últimos tempos, Immelt devia estar se sentindo pressionado a fazer algo que fosse arrojado e beneficiasse os acionistas, antes de se aposentar. Houve rumores de que um investidor ativista tentaria desmembrar os negócios da GE.

Com essa notícia, o preço da ação da GE cresceu subiu 10%. Mas ainda restam duas grandes incertezas. A primeira é o quão fácil será para a GE encerrar seu braço financeiro. Cerca de US$ 27 bilhões de imóveis serão vendidos, principalmente para a Blackstone e a Wells Fargo, mas existem outros US$ 165 bilhões de bens que precisam ser liquidados ou encontrar um novo dono. Reguladores perceberão que o risco existente hoje na GE irá para outro lugar no sistema financeiro.

A segunda incerteza é o quão forte permanece a GE sem o seu braço de serviços financeiros. Immelt tem como meta um crescimento de receita de dois dígitos até 2018. Mas o lucro bruto dos negócios industriais da GE cresceu apenas 3% no último trimestre de 2014, com o baixo preço do petróleo prejudicando os negócios de energia.

Algumas coisas, porém, são cristalinas. Antes vistos como uma maneira de tornar mais atraente uma cansada empresa industrial, os serviços financeiros agora são vistos coo um risco. E Immelt finalmente deixou sua marca na GE, de maneira que é prejudicial à reputação de Welch.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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