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GE, Siemens e Alstom

PARIS - Os americanos continuam "fazendo a feira" na França, mas não para comprar batata ou coxão mole. Não. Eles preferem adquirir algumas grandes empresas francesas que consideram boas para dar lucro. Este comportamento será imoral? Absolutamente. O comportamento é capitalista e típico da globalização, ponto. Quem poderia reclamar? Não somos todos a favor da globalização? Desta vez, é a americana General Electric (GE) que abre as operações.

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2014 | 02h07

Uma gigante. Com faturamento de mais de US$ 140 bilhões e rentabilidade de 10%, ela emprega 360 mil pessoas. Uma empresa proteiforme que produz motores de aviões, energia, equipamentos médicos e deseja crescer sempre.

E a presa? Trata-se da francesa Alstom. Um grupo de prestígio. Trens TGV, energia, o átomo. Uma gigante também, mas uma gigante em escala francesa, não mundial. E para manter sua posição na competição entre todos esses colossos, a Alstom não tem cacife financeiro. Eis porque, a despeito de resultados bastante razoáveis, a Alstom se dispôs vender uma parte de seus ativos.

Foi então que a General Electric abriu sua grande bolsa, no fim de semana, e disse que ficara muito orgulhosa de salvar a Alstom absorvendo dois terços da divisão de energia da companhia francesa. Sábado, o negócio parecia fechado. Um dos raros grandes grupos industriais franceses de ponta seria desmantelado e dois terços dele repatriados para os EUA.

Mas o governo francês começou a estrilar. O ministro da Indústria, Arnaud Montebourg, encontrou argumentos "gaullistas" para se opor ao ogro americano. E montou, a toda pressa, uma "contraofensiva". Como a Alstom precisa se vender a alguém para sobreviver, Montebourg procurou outro comprador. E encontrou uma alemã, poderosa e prestigiosa, embora não tão imensa quanto a GE.

E a toda pressa, no último fim de semana, a Siemens (faturamento de US$ 76 bilhões e rentabilidade de 5,6%) se propôs a adquirir as atividades de energia da Alstom. Começou uma luta contra o relógio. A GE, apoiada pelo presidente da Alstom, queria concluir o negócio. Mas o ministro francês da Indústria conseguiu empurrar o prazo para hoje, dando à alemã Siemens um tempo para detalhar sua oferta e aumentar sua credibilidade. Jogou-se neste fim de semana, pois, um pugilato entre um peso pesado americano e um peso pesado alemão.

Por que Paris, resignada a ceder parte da Alstom, prefere a "predadora" alemã Siemens à "predadora" americana GE? Antes de mais nada, uma preferência psicológica. O estilo prático, cínico, desenvolto e ostentatório dos grandes monstros do outro lado do Atlântico exaspera a França onde persiste, desde os tempos do general de Gaulle, um sólido sentimento antiamericano.

Ademais, enquanto há dez anos o governo francês, com Nicolas Sarkozy à frente do ministério das Finanças, havia sido contrário que a Siemens - a mesma Siemens - pusesse as mãos na Alstom, a "predadora de ontem" se tornou a "salvadora" de agora.

Houve outra razão. A França, que como muitos países europeus acredita cada vez menos na União Europeia no modelo de Bruxelas, acredita cada vez mais em associações de tecnologia, de finanças, de know-how, entre tais ou tais países europeus. Isto quer dizer que Paris gostaria de criar um poderoso grupo franco-alemão de energia, um pouco sobre o modelo do único sucesso da Europa, a fabricante de aviões Airbus.

A ideia é razoável e fascinante até. Em caso de colapso da União Europeia, ela constituiria a única chance de ressuscitar uma Europa esgotada por 60 anos "de Europa".

Infelizmente, as chances da Siemens parecem pequenas. Em primeiro lugar porque a GE é uma força incrível e, ademais, a empresa americana prepara seu bote há meses enquanto a Siemens improvisou o seu de afogadilho.

E tem mais: GE e Alstom têm atividades semelhantes, mas também atividades divergentes. É possível, pois, reconfigurar as duas empresas para o benefício de ambas. A Siemens, ao contrário, é pouco parecida com a Alstom, de modo que é difícil perceber como a divisão da Alstom poderia permitir uma sinergia eficaz nas duas empresas.

Há dois meses, a parte mais viva, mais moderna, da economia francesa vem sofrendo sangrias perigosas. A sede da Publicis mudou para Amsterdã, a dos cimentos Lafarge para Zurique. Será que veremos a sede da Alstom partir para Atlanta ou Chicago? É para temer e deplorar.

TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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