Geithner cobra ação da Europa e da China

Secretário americano pediu que outros emergentes estimulem o consumo interno

ROLF KUNTZ, ENVIADO ESPECIAL / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2011 | 03h02

A crise na Europa é hoje o maior risco para a economia mundial, disse ontem o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Timothy Geithner, referindo-se à tensão em torno dos bancos e dos governos endividados.

Ele cobrou mais ação na zona do euro para conter o contágio e evitar o agravamento da crise e, em seguida, voltou-se para um segundo alvo: China e outros emergentes com superávit nas contas têm espaço bastante para estimular o consumo interno, aumentar as importações e compensar a fraqueza da demanda nas economias desenvolvidas.

Para isso, os governos desses países deveriam deixar suas moedas valorizar-se. Mas esse recado, já enviado muitas vezes, veio ontem com uma ressalva a favor dos latino-americanos, também prejudicados, segundo ele, pela "assimetria de políticas fiscais" entre os emergentes. Em outras palavras, o câmbio subvalorizado da China resulta em valorização real das moedas de outros emergentes, torna seus produtos mais caros e diminui seu poder de competição no comércio internacional.

Geithner participou ontem da reunião do Comitê Monetário e Financeiro do Fundo Monetário Internacional (FMI), o órgão político mais importante da instituição, responsável pela formulação de propostas e diretrizes. O comitê é formado por ministros de 24 países selecionados para representar os 187 membros da organização.

O ministro da Fazenda brasileiro, Guido Mantega, também cobrou mais determinação e ousadia dos governos europeus para evitar o contágio dos países fora da periferia do euro. Além disso, elogiou as propostas do presidente Barack Obama de mais estímulos fiscais à recuperação da economia, combinados com medidas de longo prazo para conter os gastos e reduzir o peso da dívida federal americana.

Mas, ao tratar do câmbio, reclamou não da China, mas dos EUA. Disse que a emissão de centenas de bilhões de dólares afetou os mercados e provocou a valorização do real e de várias outras moedas. Os governos, acrescentou, deveriam dar preferência aos estímulos fiscais para reativar as economias e pôr de lado o afrouxamento monetário.

Falando em nome da China, o presidente do banco central, Xie Xuren, simplesmente ignorou as críticas constantes à política de câmbio de seu país e as cobranças de maior velocidade na mudança do modelo de crescimento, ainda muito baseado nas exportações. Cobrou maior coordenação internacional para o enfrentamento da crise - um tema constante nesta semana - e falou sobre como a China tem contribuído para o crescimento mundial. No primeiro semestre, informou, o Produto Interno Bruto (PIB) chinês foi 9,6% maior que o da primeira metade do ano passado. A mesma comparação indicou alta de 16,8% nas vendas do varejo, de 25,4% no investimento em ativos fixos e de 25,1% no comércio internacional.

Ele mencionou, sem detalhes, a reestruturação da economia e não disse uma palavra sobre a política de câmbio. Mas sugeriu de passagem, ao FMI, estudos para promover a diversificação das moedas de reserva e para a constituição de um novo sistema de reserva com valor estável, regra de emissão e oferta controlável, mas não acrescentou detalhes.

O comissário europeu para Assuntos Econômicos e Monetários, Olli Rehn, limitou-se a uma análise dos problemas internacionais e a um minucioso relato das medidas tomadas pelas autoridades da Europa, indicando os avanços conseguidos na coordenação de políticas e no ajuste dos países mais sujeitos às pressões do mercado. Reconheceu as dificuldades na implementação da ajuda à Grécia. A troica - Comissão Europeia, Banco Central Europeu e FMI - deve concluir no fim de setembro a nova revisão das políticas adotadas pelo governo grego, para decidir em seguida se haverá em outubro o sexto desembolso da ajuda programada.

Também representantes de várias instituições multilaterais participam, como convidados, da reunião do comitê. O diretor-geral da Organização Mundial do Trabalho, Juan Somavia, apresentou uma avaliação sombria das perspectivas para a mão de obra. Seria necessário um crescimento do emprego de 1,3% ao ano para se recuperar em 2015 o nível de emprego anterior à crise, equilibrar a situação e absorver os novos ingressantes.

Em 2010 e no começo de 2011 a economia cresceu o suficiente para deter o aumento do contingente de desempregados, ainda estimado em cerca de 200 milhões de pessoas. Mas o quadro mudou e o emprego passou a crescer no ritmo de 0,8% ao ano, inferior ao da força de trabalho. O mundo precisaria gerar 400 milhões de empregos novos na próxima década, mas a economia não está avançando com suficiente velocidade. Estes números tornam mais clara a dimensão material da crise.

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