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Gente humilde

Há uma agenda necessária e urgente que precisa caminhar e não tem nada a ver com as inúteis discussões ideológicas ou a cruzada em defesa de uma civilização cristã em perigo

Ana Carla Abrão, O Estado de S.Paulo

02 de abril de 2019 | 05h00

Um país que agoniza. Esse é o Brasil de 13 milhões de desempregados e 1,76 milhão de jovens desalentados, num retrato de uma nação sem presente e sem futuro. Os dados foram divulgados pelo IBGE e compilados pela LCA Consultores. São números que escancaram uma realidade cruel e se juntam a outros igualmente alarmantes que vêm sendo publicados desde o início do ano passado. São todos reflexos dos efeitos sociais devastadores de anos de recessão e baixo crescimento.

A Síntese de Indicadores Econômicos, também publicada pelo IBGE com base na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua - PNAD Contínua, mostra que temos quase 55 milhões de brasileiros vivendo abaixo da linha de pobreza. Nesse conjunto estão nada menos do que 43% das nossas crianças de 0 a 14 anos. Há ainda os que vivem em extrema pobreza, com renda mensal inferior a R$ 140. Esses já eram mais de 15 milhões de pessoas em 2017, quase 1 milhão a mais do que no ano anterior. 

Somos o País com a 3ª maior desigualdade do mundo, segundo o Banco Mundial, que também mostra que no Brasil há 29,5 homicídios por 100 mil habitantes. Número que nos coloca entre os 10 países mais violentos do mundo. Dados do Instituto Trata Brasil mostram que 48,1% da nossa população, ou mais de 100 milhões de brasileiros, não têm acesso a coleta de esgoto. A qualidade da nossa educação, medida pelo Pisa - Programa para Avaliação Internacional de Estudantes, atingiu 395 pontos em 2015, abaixo da média da América Latina e dos demais emergentes e muito distante dos países membros da OCDE (apesar de gastarmos mais do que eles).

Infelizmente as evidências negativas não param por aí. Brasileiros morrem nas filas dos hospitais públicos por ausência de médicos, carência de leitos e falta de remédios. Milhões de trabalhadores se espremem diariamente em sistemas de mobilidade urbana ultrapassados e com infraestrutura e serviços precários enquanto o mundo se move aproveitando novas tecnologias. Nossos jovens pobres são cooptados pelo crime que domina as comunidades carentes em que milhões de brasileiros se amontoam em aglomerados urbanos ignorados pelo Estado. Ali moram sem coleta de lixo, sem escolas, sem postos de saúde, sem lazer ou segurança.

Esse é o Brasil real e são esses os problemas concretos. Eles estão distantes do mundo virtual e das polêmicas das redes sociais e flagelam uma população que precisa de emprego e de renda. Hoje temos um Estado que se não lhes fornece o básico e precisa parar de lhes aprofundar as dificuldades.

O Estado brasileiro se tornou o maior motor de reforço das nossas desigualdades sociais. Ao não garantir educação, saúde e segurança de qualidade, ele condena a população de baixa renda a continuar na pobreza. Ao não avaliar os gastos e as políticas públicas, ao não colocar o cidadão no centro das decisões e ao ceder aos interesses privados em detrimento da coletividade, ele alija os que não têm alternativas e protege os que não precisam – ou não deveriam ser protegidos. E assim o poder público garante privilégios e benesses para aqueles que já são privilegiados na partida.

Somos hoje um país dual, em que brasileiros são divididos entre bons e maus; entre desempregados e super empregados; entre aqueles que pagam juros altos e os que recebem recursos a juros subsidiados, ou os que pagam impostos e os que se beneficiam com regimes tributários diferenciados. Somos um Brasil dividido entre os que vivem e os que sobrevivem e temos tornado a vida desses últimos muito mais difícil, cobrando-lhes uma resiliência infinita e injusta.

Há uma agenda necessária e urgente que está colocada e precisa caminhar. Essa agenda não tem nada a ver com as inúteis discussões ideológicas ou a cruzada em defesa de uma civilização cristã em perigo. Ela não trata de costumes ou de credos, ao contrário, ela é composta por soluções concretas e objetivas de cujos resultados dependemos para sair da atual situação – ou não afundar ainda mais.

Esqueçamos as teses retrógradas e as polêmicas infantis. Quantos mais números cruéis como os que estamos colecionando ainda serão necessários para sensibilizar governo, Congresso e sociedade de que não podemos mais continuar nesse caminho? Não é hora para brincadeiras. Precisamos nos mobilizar e agir, com a devida seriedade, em prol desse povo que vai em frente sem nem ter com quem contar. Afinal, é gente humilde, que vontade de chorar.

ECONOMISTA E SÓCIA DA CONSULTORIA OLIVER WYMAN. O ARTIGO REFLETE EXCLUSIVAMENTE A OPINIÃO DA COLUNISTA

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