Geração pós-Real encara a inflação

Geração pós-Real encara a inflação

Como jovens que nasceram e cresceram na estabilidade estão vendo, pela primeira vez na vida, a inflação encostar nos dois dígitos

Alexa Salomão, O Estado de S. Paulo

16 de agosto de 2015 | 03h00

Os mais velhos sabem. Um dragão verde e violento, que cospe fogo e tudo incinera, reinou absoluto como símbolo de um dos piores males que assolou a economia nacional: a inflação. Em 1994, quando o Plano Real triunfou feito um São Jorge, o bicho sucumbiu. De lá para cá, desapareceu do imaginário popular. Pergunte a um jovem que cresceu na estabilidade que animal representa a inflação. A não ser que ele seja leitor de crônicas da economia do século passado, não vai saber. A inflação para essa geração não é um dragão. É, no máximo, uma lagartixa feiosa. 

No ano em que completa a sua maioridade, 21 anos, a estabilidade já não está tão estável quanto antes. Nos 12 meses encerrados em julho, a inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulou alta de 9,56%. O Estado conversou com jovens na faixa de 20 anos para saber como eles veem, pela primeira vez na vida, a inflação se aproximar dos dois dígitos.

A maioria tem dificuldade até para definir o que é inflação: “alta de preços por causa da crise; aumento de impostos”, foram algumas tentativas de definição. Mas isso não significa que esteja alheia à perda de valor de compra da moeda. Ao contrário. A nova geração tem senso aguçado de quanto vale o real. 

Evandro Eliziario da Silva, 19 anos, que vive com a família na zona leste da capital paulista, se baseia no pão e no leite para medir a inflação. “Quando eu era criança, meu avô me dava duas, três moedas de 50 centavos para eu comprar pão e leite. Não se compra nada com moedas hoje.” O que mais lhe incomoda é o efeito da alta do dólar, que prejudica o seu passatempo favorito, andar de skate. Sempre que pode, sai do trabalho no Tatuapé, pega o metrô para o centro e vai fazer manobras na Praça Roosevelt. “As camisetas mais legais da DGK (marca descolada criada por um skatista americano) custam pelo menos uns US$ 50: isso hoje dá mais de R$ 150 e acho que é um tipo de inflação, não?” 

Algo que causa estranhamento aos jovens é ver que preços podem subir de maneira acelerada e generalizada – e não pontual e lentamente, como parecia a lógica. Barbara Castellari Peixoto, de 20 anos, se mudou de Barueri para a capital paulista, onde cursa Direito na Universidade Mackenzie. Ganhou um carro dos pais. Ocorre que, pouco antes da compra, o preço do veículo subiu, algo que lhe pareceu inimaginável. Também estranhou o aumento das passagens aéreas, das roupas, de tudo, enfim, ao mesmo tempo. “Havia uma estabilidade maior, agora está tudo subindo. Eu nunca senti antes o que estou sentindo agora”, diz. Ela até pediu aumento de mesada. “Mas acho que meu pai não vai dar.” 

Os pais, aliás, que viveram a hiperinflação, têm apresentado as melhores lições de como se defender dos reajustes. Tatiane Donesi, de 21 anos, trabalha como vendedora para bancar o curso de Radiologia na Faculdade das Américas (FAM). Nos últimos anos, a vida dela, da irmã e da mãe engrenou. Compraram celular, trocaram os móveis, a geladeira. De um ano para cá, a situação virou. “A gente até precisa de um fogão novo, mas não vai dar. Ficou tudo mais caro. A maior loucura é a conta de luz.” Para fazer o dinheiro render, ela conta que a mãe mudou o jeito de ir às compras. “Agora, procuramos promoções em grande mercados e fazemos compras maiores”, diz Tatiane, que tem passado a lição aos amigos. “Eu falo para todo mundo: não dá para comprar de picadinho, gasta mais.” 

Outras prioridades. Mesmo com os recentes dissabores financeiros, a alta dos preços não é a maior preocupação da moçada. Antes da inflação, estão a instabilidade política, a corrupção, as deficiências na educação e na saúde. A vendedora Kally Ferreira, 19 anos, percebeu que seu R$ 1,1 mil já não rende como antes. “Quando eu era criança, me sentia rica com R$ 1 porque podia comprar dois sonhos e uma coca-cola pequena. Agora, para economizar, troquei o arroz parboilizado, que gosto, pelo normal”, diz ela. “Mas na lista de coisas que mais me incomodam, antes dos preços, estão a política, a falta de ética e a falta de educação. No metrô as pessoas não se levantam nem para dar lugar a uma senhora.”


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Preço alto ainda pode ser contornado

Estudantes das áreas de economia e negócios compreendem melhor o problema, mas sabem que País teve dias piores

O Estado de S. Paulo

16 de agosto de 2015 | 03h00

Os jovens que estudam o funcionamento dos mercados, até pelo caminho escolhido, têm uma conhecimento maior das distorções criadas pela inflação – como o fato de ela prejudicar mais aos pobres do que os ricos. Mas até eles acham que a atual inflação, ainda que preocupante, pode ser contornada. 

O Estado conversou com universitários do Insper, centro de referência no ensino de economia e negócios. O calouro de Administração Gustavo Anacleto Silva, nasceu em primeiro julho de 1994, dia oficial do lançamento do Plano Real. “Tenho a exata idade da moeda”, diz. Silva apertou o cinto em casa, mas lembra que os efeitos da inflação não são homogêneos. “Eu sou classe média alta, tenho folga orçamentária. Quem sofre mais são as classes D e E, que vivem no limite.” Para Silva, o que há de mais preocupante é o debate político: “As pessoas se tornaram muito extremistas”. 

Ralf Toenjes, 23 anos, está descobrindo os efeitos da inflação no mundo empresarial. Graduado em direito e cursando Economia e Administração, atua em projetos de empreendedorismo do Insper que tiveram os preços dos insumos “catapultados”. O valor do produto final não foi alterado porque reduziram a margem de ganho, mas está sendo uma lição ver os efeitos da inflação nas empresas. “A alta era esperada, mas não tão rápida. Estamos negociando com fornecedores para contornar os aumentos.” 

A estudante de administração, Ana Carolina Bonilha, 18 anos, recomenda que se olhe para trás. “Vejo que a diferença de preço de alguns produtos, de um mês para outro, é absurda, mas pelo que li e contam meus pais, já foi pior: a diferença de preço era de um dia para outro.”

Regime de Metas. Heron do Carmo, professor da Faculdade de Economia da Universidade de São Paulo (FEA/USP) e especialista em inflação, dá crédito à esta postura mais tranquila dos jovens em relação à atual inflação. “O salto que vemos vem da correção de tarifas públicas, que foram represados, e da seca, que elevou o preço de produtos agrícolas no período em que eles caem, mas a tendência para o próximo ano é que a inflação cairá pela metade”, diz.

Há também que se pensar numa perspectiva mais ampla. “A inflação não tem a mesma trajetória do passado e talvez isso seja um dos maiores méritos da política de metas: ela trava a inflação com uma série de mecanismos, inclusive via pressão popular, como vemos agora.”

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‘Brasil não formou memória da hiperinflação’

Economista diz que manter a memória dos efeitos negativos da inflação é fundamental para o País

Entrevista com

Gustavo Loyola

O Estado de S. Paulo

16 de agosto de 2015 | 03h00

 

O economista Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central e sócio-diretor da Tendências Consultoria Integrada, lembra que a inflação perdurou no Brasil dos anos 60 aos 90, e manter a memória de seus efeitos negativos é fundamental para o País não ser leniente com a alta de preços.

Os jovens hoje não conseguem definir inflação. O que ela é?

É a perda do poder de compra da moeda. A cada passar do relógio, o dinheiro vale menos. Quando a inflação é alta, tem um efeito desagregador muito grande. Corrói a poupança das famílias e das empresas, gera transferências repentinas de riqueza, gera pobreza, especulação. Na Alemanha, que é referência nesse tema, não se tem dúvida de que uma das sementes do nazismo foi a hiperinflação, que destruiu a classe média e gerou ressentimentos. A sociedade alemã é intolerante com a inflação até hoje. Parece que o Brasil não formou a mesma memória hiperinflacionária. 

Quais as vantagens e desvantagens de termos uma geração que não viveu a inflação galopante? 

A desvantagem é que a falta de uma memória coletiva pode fazer com que ela seja mais tolerante com o risco inflacionário. Vários artigos apontam que uma das causas da crise nos Estados Unidos foi o fato de os gestores subestimarem os riscos por não terem memória de uma crise financeira. Por outro lado, para contrabalançar, gerações mais novas não têm instrumentos mentais contra a inflação que levem à indexação. 

Há quem diga que a inflação de hoje não seria tão preocupante já que o País veio da hiperinflação...

Não é bem assim. Não existe inflação benigna. A vigilância precisa ser constante, até porque ela pode permanecer, ainda que dormente, na economia e ressurgir lá na frente. 

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