Gestão: medo ou cooperação

Gerir relações não é uma escolha. Nosso tempo é quase todo ocupado gerenciando amizades, relacionamentos familiares, amorosos e profissionais. Raros são os momentos solitários. As melhores e piores memórias de nossas vidas estão sempre acompanhadas de outras pessoas. Gerir relações é um fato inescapável. A escolha é outra: gerir bem ou mal os relacionamentos.

PROFESSOR DE NEUROCIÊNCIAS APLICADAS NO MBA DA ESPM, SÓCIO DA NEUROVOX , O Estado de S.Paulo

23 de dezembro de 2012 | 02h12

Isso é especialmente importante no ambiente corporativo. Executivos e empreendedores passam grande parte do tempo gerenciando as relações com seus funcionários, pares e superiores. O sucesso de uma marca, produto ou serviço depende fortemente das relações entre as pessoas por trás do projeto.

Um dos mais antigos modos de gerenciar relações - já nos disse Maquiavel - é a gestão por medo. Neste, busca-se respeito pela imposição de medo: ameaças de demissão, adiamento de promoções, corte de bônus ou outras punições. Muitas empresas mantêm um ambiente de trabalho tenso e competitivo, em que o sentimento de medo é constante nos colaboradores. Acreditam, assim, promover maior eficiência.

Não é, porém, o que dizem as pesquisas neurocientíficas. O medo é um sentimento que evoluiu na natureza para situações de emergência: uma forma de evitarmos perigos imediatos ou potenciais. É muito útil nessas situações.

Apesar disso, é um sentimento muito prejudicial quando se torna constante. O estresse derivado do medo libera uma série de hormônios, como os corticoides e a norepinefrina. Tais hormônios servem para manter nossos corpos em estado de alerta e vigilância. Eles direcionam os recursos de energia armazenados no corpo para os músculos, aumentando a pressão arterial, frequência cardíaca e respiratória. Além disso, interrompem processos metabólicos básicos, como os processos digestórios, de crescimento e imunológicos.

A presença constante desses hormônios prejudica a saúde de todo o corpo - inclusive do cérebro. O primeiro efeito negativo é um grande consumo de energia. Há também outras consequências fisiológicas: hipertensão, gastrites ou úlceras, diminuição dos níveis de testosterona (nos homens) ou desregulação do ciclo menstrual feminino, além de aumentar a probabilidade de contração de doenças infecciosas. Em casos extremos, pode levar à síndrome de burnout, caracterizada por um estado depressivo de esgotamento físico e psicológico.

Um efeito praticamente oposto ocorre em ambientes de trabalho que são geridos pela cooperação. Ou seja, em empresas nas quais os colaboradores são beneficiados por cooperar, construir e desenvolver relações positivas - e em que se mantém um clima de confiança e respeito. Nesses ambientes, pesquisas mostram que os colaboradores têm, no sangue, presença maior de ocitocina - hormônio responsável pela conexão social. É produzida em grandes quantidades, por exemplo, durante a amamentação, quando tocamos outras pessoas e durante a relação sexual. Níveis maiores desse hormônio estão associados à maior confiança entre colaboradores e a melhores performances nos trabalhos em equipe.

O neurocientista americano Paul Zak nomeou a ocitocina como "a molécula da moralidade", ou seja, a que nos permite cooperar, dividir e produzir em conjunto. Evidentemente, essa é uma visão simplista de um hormônio complexo - a ocitocina possui outras funções biológicas.

Mas uma observação é de difícil contestação. O medo, no ambiente de trabalho, possui potenciais consequências negativas ao bem-estar dos colaboradores e para os resultados da empresa. Modelos de gestão baseados no medo devem ser utilizados de acordo com a função biológica desse sentimento: em situações de perigo e emergência, nas quais outras alternativas não são viáveis. Nesses casos, podem ser muito úteis. No entanto, é preciso notar que bem-estar e produtividade são elementos que possuem direta correlação. Colaboradores infelizes e estressados produzem menos e entregam resultados abaixo de seus verdadeiros potenciais.

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