‘Gestores não estão prontos para lidar com a informação’

Para acadêmica, volume de dados e sua constante transformação estão entre as dificuldades que o profissional encontra

Entrevista com

Marília Louvison, professora da Faculdade de Sáude Pública da USP

Fabiana Cambricoli, O Estado de S.Paulo

04 Novembro 2016 | 05h00

Usar a riqueza dos sistemas de informação como recurso para a tomada de decisões e não só para o registro de dados brutos é fundamental para melhorar a assistência e otimizar recursos no SUS, segundo a professora da Faculdade de Saúde Pública da USP, Marília Cristina Prado Louvison. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Como a sra. avalia a diversidade e qualidade de informações de saúde no Brasil e o acesso a elas?

Temos no Brasil bons bancos de dados nacionais que dão conta da diversidade das informações e permitem análises de situação de saúde e monitoramento em tempo real de grande parte das informações. Os sistemas demográficos de nascimento e mortalidade se aperfeiçoaram muito ao longo do tempo e os sistemas de produção de serviços vêm avançando no sentido de se alinhar a padrões internacionais.

A sra. acha que os gestores e especialistas em saúde estão bem preparados para trabalhar com as inúmeras informações disponíveis?

Os gestores e especialistas não estão preparados para trabalhar com as informações em saúde, pois não há esse enfoque em sua formação. Primeiro, porque as informações hoje são muitas e estão em constante transformação. Segundo, porque muitas vezes essas informações não têm a desagregação e a disponibilidade desejada pela gestão. Também por não termos construído uma cultura analítica de tomada de decisão com base em informações. A fragmentação dos sistemas de informação reflete a fragmentação do sistema de saúde e acaba servindo pontualmente a alguns interessados, mas não se conseguiu ainda produzir diálogo com a sociedade, com a mídia, nem com grande parte dos gestores e trabalhadores no sentido de integrar e valorizar a potência das informações mais articuladas e integradas. A visão atual ainda é mais voltada para o quão trabalhoso é registrar e coletar a informação do que exatamente o que se tem feito com ela, tanto do ponto de vista da organização quanto de sua disponibilização, análise e uso.

Por que temos tantos avanços tecnológicos, como o sistema eletrônico de votação nas eleições, e ainda não conseguimos ainda implementar, por exemplo, o prontuário eletrônico no SUS?

O prontuário eletrônico envolve um conjunto de informações que são compartilhadas entre serviços e usuários e dependem da importância que é dada a elas. Tem uma questão importante que a torna mais complexa que é o sigilo ao mesmo tempo que tem de dar conta da disponibilidade e da sua rastreabilidade. Práticas normativas gerenciais no trato com a informação contribuíram para piorar essa situação.

A sra. acredita que, no Brasil, informações e estatísticas fiquem algumas vezes em segundo plano na tomada de decisões em detrimento de critérios políticos? Como mudar essa cultura?

A decisão é sempre política, mas é fundamental que seja baseada em conhecimento prévio que permita a melhor decisão, a que mais tem impacto na melhoria das condições de vida da população, dentro de cada projeto político. É preciso construir essa cultura, tanto tornando disponível informação de modo que produza sentido para quem poderia usá-la, como cada vez mais aperfeiçoando os sistemas para que contribuam com isso.

Como os outros países têm trabalhado com a questão da gestão da informação em saúde?

Países de sistemas universais, como Inglaterra e Canadá, têm na informação a base de seu sistema, tanto do ponto de vista administrativo quanto assistencial. Não se administra o que não se conhece e não se conhece se não tivermos informações em utilização cotidiana. Esse é nosso desafio.

Como as novas tecnologias e áreas como o big data podem alterar a forma com que os gestores trabalham com as informações em saúde?

Em tempos de volume excessivo e cada vez maior de informações, corre-se o risco de sabermos tudo e nada ao mesmo tempo. A área da saúde tem utilizado o big data para sistematizar as informações, permitir análises e agregar inteligência. É necessário discutirmos ainda o poder da informação e o quanto pode ser emancipatório para uma população ter acesso à informação de maneira organizada e sistematizada, mas na sua totalidade. Há forte preocupação com o conjunto enorme de dados produzidos pelo setor saúde e o uso que se tem dado a ele.

Em tempos de recursos escassos, como é possível utilizar a gestão da informação para economizar verba sem prejudicar a assistência?

A gestão da informação, como todo processo que organiza, planeja, controla e articula recursos para produzir resultados, possibilita a otimização da coleta, processamento e distribuição da informação. O Brasil tem hoje uma política de informação que precisa ser implementada, é preciso avançar no processo de informatização de toda a rede, no avanço dos padrões e conjuntos mínimos de dados que enfrentam a fragmentação dos sistemas, na disponibilização dos dados ao usuário com o avanço do cartão SUS e do prontuário eletrônico compartilhado. Além disso, é preciso avançar na cultura de uso e análise das informações em saúde que permitam a tomada de decisão.

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