Giannetti critica acordos com China e Rússia

"Os resultados são pífios, para não dizer nulos. Nós não temos nada além do Mercosul e um contrato tímido com a Comunidade Andina." Esta avaliação dos acordos comerciais do Brasil foi feita ontem pelo presidente da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex), Roberto Giannetti da Fonseca, durante entrevista ao Espaço Aberto, da "Globo News". Ex-secretário executivo da Câmara de Comércio Exterior (Camex), Giannetti disse estar preocupado com a retórica do presidente Lula de "mudar a geografia do mundo" e que estaria deixando em segundo plano as negociações com os Estados Unidos e União Européia, responsáveis por dois terços da economia mundial. "Nós estamos nos isolando dos centros dinâmicos da economia mundial", salientou. Giannetti observou que uma das razões que dificultam as negociações com a Área de Livre Comércio das Américas (Alca) e a comunidade européia (UE) é o fato de o Brasil estar preso a uma negociação em bloco no Mercosul. Por ser uma união aduaneira, com tarifa externa comum, o Mercosul exige que a negociação seja feita pelos quatro países integrantes. "É a pior proposta dos quatro que prevalece, o que é muitas vezes inaceitável para o outro lado", explicou. "A primeira coisa que nós tínhamos que fazer é mudar a postura do Itamaraty para uma mais pragmática e agressiva de negociação internacional e tornar o Mercosul um acordo de livre comércio." O presidente da Funcex reforçou que a postura do Itamaraty tem sido mais ideológica do que pragmática, particularmente em relação aos Estados Unidos. "Eu acho que prevalece um preconceito contra os Estados Unidos que atrapalha o comércio", frisou. "É uma questão que deveria ser focada isoladamente, sem nenhuma vinculação de outras questões políticas, ou de segurança internacional", disse referindo-se às negociações comerciais. "Eu acho que, se nós tivéssemos tido mais pragmatismo, desde o início deste governo, talvez a Alca já seria algo previsível para 2005/2006. Do jeito que está vai demorar muito tempo ainda." Ainda durante a entrevista ao Espaço Aberto, ele criticou as concessões feitas pelo Brasil para a China e Rússia, sem uma contrapartida adequada. "Eu acho que não foram negociações satisfatórias, infelizmente", resumiu. Giannetti considera uma "heresia técnica" reconhecer a China como uma economia de mercado, o que dificultará, segundo ele, eventuais ações de dumping que produtores brasileiros poderiam abrir contra as importações daquele país. Com relação ao acordo fechado com o presidente Vladimir Putin, da Rússia, a situação foi ainda pior: "Nós reconhecemos a entrada da Rússia na Organização Mundial do Comércio e nem o reconhecimento da carne tivemos", criticou o especialista em comércio exterior. Ele também desqualificou o argumento usado pela Rússia para suspender as importações de carne brasileira, exceto a proveniente de Santa Catarina. "É uma coisa absolutamente falsa, um mito que precisamos combater com unhas e dentes", exortou. "Nós temos que acabar com essa questão da febre aftosa ser um fator impeditivo (às exportações) da carne brasileira."

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.