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Giro em falso

Ainda não estão claros os desdobramentos políticos e econômicos do histórico resultado das eleições de domingo na Grécia. Mas uma coisa já é certa: com a vitória do partido esquerdista Syriza, as atuais estratégias de saída da crise, depois de sete anos de programas de austeridade, não terão como ser mantidas.

José Paulo Kupfer, O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2015 | 02h05

Coincidência ou não, a virada política na Grécia se deu ao mesmo tempo que o Banco Central Europeu (BCE) decidiu aplicar um forte programa de injeção de dinheiro na economia regional. Em meio a críticas e ceticismos, o BCE despejará pelo menos 1,1 trilhão até setembro de 2016, reproduzindo o "quantitative easing" (QE) do Federal Reserve, nos EUA, com o objetivo de tirar a economia do atual estado de "estagdeflação".

Difícil não concluir que a combinação do novo fato político grego - replicado em países altamente endividados do sul da Europa pela ascensão de partidos antiausteridade - com o novo fato econômico do "QE" sinaliza dificuldades e aponta limites nas estratégias de trazer a dívida pública a níveis aceitáveis, a partir da contenção de gastos e investimentos dos governos, sobretudo os de caráter social. A adoção de um "QE" robusto é a prova de que, se a austeridade já fez o estrago esperado, ainda não convenceu de que alguma recuperação consistente esteja a caminho.

A Grécia é um país pequeno em muitas dimensões. Ela cabe inteira no Amapá, sua população equivale à da cidade de São Paulo e a economia é oito vezes menor que a do Brasil. Os previsíveis efeitos da eleição de um partido político radicalmente contrário às políticas de austeridade impostas aos países devedores da Europa, contudo, tendem a ser muito maiores e muito mais relevantes do que o peso específico da Grécia na União Europeia e na zona do euro.

Os impactos da crise - e das políticas fiscais contracionistas - na sociedade e na economia gregas são até aqui devastadores. Desde 2008, o PIB recuou 25% e o desemprego alcançou quase 30% da população ativa, chegando a inacreditáveis 60% na população até 25 anos. Com tudo isso, nesse período, a dívida pública grega saltou de 113% para 175% do PIB. Depois de seis anos de recuos acentuados, o crescimento econômico de 0,6%, em 2014, e o frágil equilíbrio orçamentário no ano passado estão ainda muito longe de expressar uma tendência de prazo mais longo.

Já se especula se o novo governo grego, chefiado pelo líder do Syriza, Alexis Tsipras, que falou grosso na campanha eleitoral contra as imposições do FMI, BCE e Comissão Europeia para resgatar a dívida grega, não afinará o discurso e fará concessões para evitar uma traumática ruptura com a zona do euro. De toda maneira, a dívida grega continua cada vez mais impossível de ser paga e também para os credores um default não parece ser o melhor caminho.

A expectativa é a de que Tsipras acabe não levando às últimas consequências suas ameaças de rompimento com o bloco regional e a linha dura europeia, capitaneada pela Alemanha, também relaxe um pouco o garrote. Muito bem guardadas as proporções, o impasse remete às duras reparações da Primeira Guerra cobradas da Alemanha, para cujas consequências, depois concretizadas com a ascensão do nazismo, alertou Keynes, em As Consequências Econômicas da Paz, uma de suas obras clássicas.

Os acontecimentos deste início de 2015 na Europa resgatam importantes lições de política econômica para todos os países às voltas com problemas fiscais - caso notório do Brasil, embora os desajustes das contas públicas e seus impactos negativos na relação dívida pública/PIB, entre nós, sejam infinitamente menos dramáticos. A austeridade é uma boa referência para ajustar economias com desequilíbrios fiscais, mas não é uma panaceia. Sua aplicação tem limites relativamente estreitos, determinados, de um lado, por seus custos sociais, e, de outro, pela necessidade de abrir espaços ao crescimento econômico, sem o qual políticas contracionistas, como cachorros que mordem o próprio rabo, giram em falso.

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