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Global ou paroquial?
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Celso Ming
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Global ou paroquial?

Em um mundo cada vez mais conectado, decisões e omissões de determinados países podem ter impacto global e consequências compartilhadas

Celso Ming*, O Estado de S.Paulo

14 de julho de 2021 | 20h40

Como bem observa o analista Martin Wolf em sua coluna no Financial Times, o mundo oscila entre fatos e decisões globais e, ao mesmo tempo, se aferra às opções tribais. Não há coerência nas políticas adotadas e nas consequências que as seguem.

Nada mais ilustrativo do que a pandemia. Em poucos meses, a covid-19 deixou uma província chinesa e se tornou global. Também por impulsos globais, as vacinas chegaram rapidamente. Mas as autoridades seguem tomando decisões paroquiais. Gastaram quase US$ 17 trilhões para combater os efeitos econômicos da pandemia, mas não foram capazes de aplicar 0,1% disso em vacinas para a população mundial. Nem de entender que, enquanto houver apenas um ser humano não imunizado, a pandemia continuará sendo ameaça. A desigualdade também se espraiou. Os ricos tiraram proveito da pandemia e se tornaram mais ricos. Os pobres ficaram mais pobres.

A União Europeia anunciou a criação de uma taxa de carbono sobre as importações produzidas de maneira não adequada aos seus padrões ambientais. É decisão que leva jeito de protecionismo hipócrita. Protecionismo, porque é outro jeito de impedir a entrada de produtos de outros países. É hipócrita porque nada menos que 45% da matriz energética da União Europeia provém da queima de combustíveis fósseis: as máquinas funcionam com uma chave na tomada elétrica e não com queima de derivados de petróleo, mas quase metade dessa energia depende da produção de carbono.

A União Europeia prepara-se, também, para exigir que os aviões que operam em seus aeroportos substituam o querosene por combustível verde, muito mais caro, como está abaixo, no Confira. É outra decisão local com consequência global, porque qualquer avião tem de ser capaz de operar em aeroportos da União Europeia.

Nesta terça-feira, saiu a inflação dos Estados UnidosUma pancada de 0,9% em junho que aponta para 5,4% em 12 meses (veja o gráfico). Não tem impacto apenas sobre os Estados Unidos. Mais cedo ou mais tarde, o o Federal Reserve (Fed), o Banco Central americano, terá de puxar pelos juros, o que fortalecerá o dólar, com consequências sobre a economia mundial.

 

As grandes potências temem o avanço da China e redesenham a geopolítica a partir daí. No entanto, bastaram as primeiras informações de que o crescimento econômico da China pode desacelerar para levantar outros temores: os de redução do PIB do mundo.

Há algumas semanas, as potências reunidas no G-20 chegaram a um acordo para começar a taxar as multinacionais. Como isso vai funcionar ainda não se sabe. É passo importante para definir uma política fiscal universal. E, no entanto, as mesmas potências não são capazes de acabar com os paraísos fiscais. Querem a extinção dos paraísos dos outros, contanto que não mexam com os próprios.

Para o bem e para o mal, o planeta virou uma aldeia. Decisões e omissões estão sendo irremediavelmente compartilhadas. O que se pergunta agora é se povos e autoridades estão dispostos a assumir as consequências disso.

 

CONFIRA

» Combustível para aviação

A aviação civil é responsável pelas emissões de 915 milhões de toneladas de dióxido de carbono (CO2) por ano, 2% do total. Ainda não está claro o que será do combustível sustentável de aviação (SAF, na sigla em inglês), que deverá substituir ou ser misturado ao querosene de aviação, mas a tecnologia é apontada como um dos principais impulsionadores da transição energética e um motor importante para diminuir as emissões do setor de aviação. 

A Organização das Nações Unidas (ONU), através da Organização Internacional da Aviação Civil (OACI), empenhada em desenvolver um programa nessa área junto com as companhias de aviação, criou o Corsia (Mecanismo de Redução e Compensação de Emissões da Aviação Internacional, em português). 

O pacto para a redução e compensação de emissões de carbono dos voos internacionais tem como objetivo reduzir em 50%, até 2050, as emissões globais do setor - tendo como base o ano de 2005. O resultado disso seria cerca de 325 milhões de toneladas de Co2 em 2050.

O Corsia também prevê que as emissões do setor aéreo se neutralizem, mantendo os níveis observados em 2019 e 2020.

» Biomassa

O que se pode dizer é que esses combustíveis terão de ser produzidos, especialmente, a partir de fontes renováveis - a biomassa -, cujas matérias-primas em potencial devem ser bagaço e palha de cana-de-açúcar, resíduos da indústria de madeira, óleo de cozinha usado e sebo animal.  No entanto, ele ainda é um produto caro e que não tem escala de produção nem mesmo nos Estados Unidos, um dos poucos produtores de SAF atualmente. 

» Faltam investimentos

O Brasil teria condições de produzir 9 bilhões de litros de SAF, apontou estudo feito pela organização Roundtable on Sustainable Biomaterials (RSB), financiado pela Boeing. Segundo Maria Carolina Grassi, líder de Novos Negócios na América Latina da RSB, esse volume é mais do que suficiente para suprir a demanda local e reduzir de forma expressiva as emissões das companhias aéreas que atuam no País. Para o Brasil atender as metas do Corsia, o setor aéreo precisaria utilizar cerca de 1 bilhão a 1,5 bilhão de litros de combustível sustentável de aviação por ano, aponta a executiva. 

Onofre Andrade, coordenador de pesquisa para biocombustíveis da Boeing, afirma que no Brasil, o problema não é falta de opções de matéria-prima para produzir esses combustíveis, mas sim, de investimento nessa área. Porém, se a decisão política de exigir a mudança pelos países ricos for tomada, os investimentos aparecerão.

"O investimento só vai vir quando o Brasil criar um marco regulatório mais específico para os combustíveis de aviação. Dentro do RenovaBio existem referências para SAF e o diesel renovável, mas ainda são movimentos que não dão segurança suficiente para que os investidores aportem recursos que irão impulsionar e destravar as cadeias de suprimentos e produção", reforça Andrade./ COM PABLO SANTANA

*CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA

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