Globalização - agregadora ou excludente

Os investimentos estrangeiros diretos (IED) globais deverão atingir recorde superior a US$ 1,5 trilhão em 2007, de acordo com estimativas da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (Unctad), no seu Relatório Mundial de Investimentos 2007, divulgado no Brasil pela Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais da Globalização Econômica (Sobeet). As operações de fusões e aquisições de empresas fora de seus países de origem são responsáveis por cerca de dois terços desse valor. Também ganha dimensão crescente o papel dos fundos de private equity (participações em empresas). O crescimento do IED tem relação direta com a globalização financeira das últimas duas décadas. A mesma liquidez internacional que aumentou a turbulência e a volatilidade nos mercados também viabilizou a inflação de ativos e banca a intensificação da globalização comercial e produtiva. Torna-se cada vez mais difícil separar os dois fenômenos, financeiro e produtivo, que são interdependentes e complementares entre si, embora claramente determinados pelo primeiro. O estoque de IED mundial atingiu US$ 12 trilhões, mais de seis vezes superior ao registrado em 1990, de US$ 1,8 trilhão. Eles são decorrentes das atividades de 78 mil empresas transnacionais, cujas receitas anuais chegam a US$ 25 trilhões. Para o Brasil, que sempre foi um país receptivo ao investimento estrangeiro, a novidade é que, em 2006, pela primeira vez os investimentos brasileiros realizados no exterior, de US$ 28 bilhões, superaram os ingressos, de US$ 18,8 bilhões. Somente a operação de compra pela Cia. Vale do Rio Doce da canadense Inco foi responsável por US$ 17 bilhões daquele valor. Apesar de a internacionalização das empresas brasileiras ser um fenômeno crescente, o resultado pontual dos fluxos do ano passado não representa a performance acumulada nem tampouco uma tendência. O estoque de IED recebido, acumulado historicamente no Brasil, atinge, segundo o mesmo relatório, US$ 222 bilhões (20,8% do PIB), enquanto o estoque de investimento realizado pelas empresas brasileiras no exterior atinge US$ 87 bilhões (8,2% do PIB). É preciso aproveitar mais a internacionalização, de fora para dentro e de dentro para fora do País, como fator de desenvolvimento. Há uma conexão crescente entre investimentos e comércio. Cada vez mais, parcelas significativas das transações comerciais internacionais são realizadas por filiais das empresas transnacionais, que já respondem por US$ 4,7 trilhões, o equivalente a cerca de 33% do total das exportações realizadas mundialmente (US$ 14 trilhões). Se considerarmos o outro terço das exportações realizadas por suas matrizes, temos que dois terços das exportações mundiais são controlados pelas empresas transnacionais. Muitas vezes receber aportes de empresas globais determina fazer parte ou não da cadeia produtiva global de determinado segmento ou nicho. No caso brasileiro, um bom exemplo de ausência de investimentos estrangeiros em uma área estratégia é o que ocorre na área de componentes eletrônicos para informática, telecomunicações e outros aplicativos, que deve gerar um déficit comercial setorial da ordem de US$ 12 bilhões este ano. Em muitas dessas áreas não temos fabricação local e, para isso, seria fundamental atrair pelo menos um player global. Do ponto de vista da internacionalização das empresas brasileiras é crucial que esse processo ocorra em complemento e para fortalecer as suas atividades locais. É preciso inserir as empresas brasileiras nos grandes mercados, e muitas vezes estabelecer-se in loco representa uma grande vantagem competitiva. Trata-se de um movimento hoje restrito às grandes empresas, mas que pode e deve ser ampliado, na forma de consórcios e arranjos produtivos e de comercialização, para os pequenos e médios empresários. É preciso articular a estratégia de internacionalização Estado-empresas para garantir a autonomia nacional e para não ser engolido pelo acirramento da concorrência global. A globalização pode ser agregadora, mas também excludente, se não devidamente aproveitada. *Antonio Corrêa de Lacerda é professor doutor da PUC-SP, doutor em economia pela Unicamp e autor de Globalização e Investimento estrangeiro no Brasil (Saraiva). E-mail: aclacerda@pucsp.br

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