Globalização amplia efeito da crise

O veterano investidor global Mohamed El-Erian, que dirige a Pimco e atravessou muitas crises financeiras, emitiu um relatório descrevendo o novo e perigoso estado da economia global de hoje. Ele a descreveu da seguinte maneira: "O mundo está seguindo para um destino instável, por território pouco familiar, numa estrada acidentada e, criticamente, já tendo usado seu estepe", Gosto dessa imagem.

THOMAS L. FRIEDMAN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

25 de maio de 2010 | 00h00

Os EUA usaram o estepe para impedir um colapso do sistema bancário e estimular a economia após o estouro do mercado subprime. A União Europeia usou o estepe em seu próprio estímulo econômico e depois para impedir uma corrida aos bancos europeus provocada pelo derretimento da Grécia.

Isso tudo se agrava porque não estamos vivendo apenas num mundo sem mais estepes, mas num mundo sem distâncias. Os países estão integrados mais do que nunca. Hoje estamos guiando com o para-choque encostado no para-choque de qualquer outra economia importante, de tal modo que barbeiragens em qualquer parte podem causar um engavetamento global.

E isso leva ao assunto principal desta coluna: nesse tipo de mundo, a liderança em todo nível de assuntos governamentais e empresariais é mais importante do que nunca. Não temos mais nenhuma margem de erro. Mas o que significa "liderança"? Quando El-Erian diz que não temos estepe, ele quer dizer que temos um pool de recursos muito diminuído, seja para atenuar o impacto de mercados quando eles se descontrolam, seja para financiar uma melhor assistência à saúde, escolas e infraestrutura para o crescimento. De modo que liderança hoje tem tudo a ver com empreender ações inovadoras que gerem novas capacidades e recursos - e sermos inteligentes e disciplinados com cada centavo que gastamos ou investimos.

Acabamos de esvaziar o Tesouro para um salvamento. Será que isso proporcionou apenas um necessário tranco para a economia, ou acabará nos tornando mais adequados e mais competitivos para podermos levar nossa economia mais longe e mais rápido? Tenho dúvidas. Estamos aprovando uma nova lei de regulamentação financeira. Estamos apenas fingindo resolver o problema ou essa nova lei aumentará nossa capacidade de gerar os recursos para amortecer a próxima crise e financiar o próximo reinício? Ainda tenho dúvidas. Muito vai depender da execução.

Da mesma forma, no que toca à Mãe Natureza, também estamos com pouca margem de erro. Quanto mais permanecermos viciados em petróleo e não enfrentarmos suas consequências geopolíticas e ambientais, mais convidaremos catástrofes repentinas como o vazamento no Golfo.

Nesse clima econômico, as pessoas sabem que precisam ser mais inteligentes, mais frugais e fazer escolhas mais duras em suas vidas privadas.

Os gregos estão protestando contra a austeridade que lhes está sendo imposta, mas eles também estão tomando seu remédio fiscal - por enquanto./ TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

O AUTOR É ESCRITOR E COMENTARISTA POLÍTICO

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