Globalização e inflação brasileira

A dinâmica inflacionária brasileira vem se mostrando relativamente favorável ao longo dos últimos anos. De fato, de setembro de 2005 a setembro de 2007, o Banco Central do Brasil flexibilizou gradativamente a política monetária. Em um claro contraponto aos ciclos anteriores, o processo atual mostra-se relativamente mais consolidado, quando o patamar da inflação brasileira medida pelo IPCA registra variações acumuladas em 12 meses sistematicamente abaixo da meta estabelecida. Com esse processo, consolida-se, também, uma redução significativa da inércia inflacionária proporcionada pelos preços dos itens administrados no conjunto do índice de preços. Tal dinâmica inflacionária observada no Brasil, ao longo dos últimos anos, também foi, em grande medida, observada em várias economias ao redor do mundo, a despeito de altas de preços de petróleo e commodities em geral nos mercados internacionais. Em outras palavras, desde meados dos anos 1990 a inflação mundial tem exibido um considerável grau de estabilidade em patamar baixo. Essa realidade veio à tona não apenas em economias desenvolvidas, mas também em várias economias em desenvolvimento que possuíam um histórico de inflação elevada. É natural que essa dinâmica seja rapidamente associada à generalização de boas práticas monetárias e fiscais nos diversos países, assim como o papel desempenhado pelo aumento da credibilidade das autoridades monetárias não deve ser descartado nesse processo. No entanto, outros elementos podem ter tido um papel relevante nessa dinâmica e não devem ser inteiramente desconsiderados. Dessa forma, tiveram seu papel fenômenos como o forte aquecimento da economia mundial num ambiente de elevada liquidez internacional, que proporcionou uma elevada expansão da demanda agregada em um contexto de maior integração dos mercados, em cenário de forte pressão dos preços internacionais de várias commodities. A caracterização desse processo em um quadro de maior integração comercial e financeira pode, em certo sentido, proporcionar uma diminuição da participação da produção nacional na inflação doméstica. Em outras palavras, caso isso seja verdadeiro, a dinâmica da inflação doméstica teria sido comandada em parte ao longo dos últimos anos pelo contexto internacional favorável, diminuindo o ''''peso'''' da demanda doméstica nesse processo. Nesse aspecto, cumpre questionar em que medida o processo de convergência da inflação brasileira para níveis internacionais se deve puramente às ações de política monetária do Banco Central e em que medida os fatores externos desempenharam (e desempenham) um papel nesse processo. Em linguagem direta, decisões ''''cupomistas'''' sobre a taxa de juros pouco vêm afetando diretamente a inflação doméstica, se não controlados devidamente os fatores externos, seja pela expansão da demanda agregada global, da alta de preços internacionais das commodities que exportamos, seja via mecanismo cambial. Estimamos esses efeitos utilizando diferentes especificações para esses modelos no período que compreende o regime de metas para inflação e taxa de câmbio flutuante, entre 1999 e 2006 (veja nosso texto no site www.eesp.fgv.br). As especificações utilizadas para a curva de Phillips - que relaciona a inflação com o desemprego -, que incorporam esses efeitos globais, aceitam favoravelmente, e com significativa robustez, a hipótese de que a elementos da globalização afetam a inflação doméstica. Nesse sentido, os coeficientes estimados para o hiato do produto doméstico - diferença entre o produto observado e o potencial - decaem cerca de 40% em seus valores, quando as estimações são controladas por proxies para efeitos globais. Talvez até porque o hiato do produto não seja aquele que está na cabeça do Banco Central. Nesse processo, tanto o hiato do produto estrangeiro quanto os preços internacionais das importações se mostram significativos nas estimações realizadas, bem como o papel do desalinhamento cambial na dinâmica inflacionária brasileira. É revelador o fato de que a dinâmica inflacionária brasileira foi, em grande medida, condicionada à evolução do cenário econômico internacional e o Banco Central, nesse processo, foi ''''auxiliado'''' no processo de desinflação da economia brasileira e na convergência do seu patamar em níveis internacionais. *Rogério Mori e Marcio Holland são professores da Escola de Economia de São Paulo da FGV

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