Globalização é insustentável e tem que ser revista, diz OIT

Depois de dois anos de estudos, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) anunciou os resultados da mais ampla avaliação sobre os efeitos sociais da globalização já realizada por um órgão da Organização das Nações Unidas (ONU). As conclusões não poderiam ser mais alarmantes: o processo da globalização não tem ética e é politicamente insustentável. Durante o período de maior intensidade da globalização, entre 1990 e 2003, a economia mundial passou a crescer a taxas menores que nas décadas anteriores, e o desemprego atingiu níveis recordes, com 185 milhões de pessoas sem trabalho. "Há desequilíbrios persistentes no atual funcionamento da economia global que são eticamente inaceitáveis e politicamente insustentáveis (...). Em resumo, a governança global está em crise", afirma o documento "Por uma Globalização Justa". O relatório pede que os líderes mundiais repensem "com urgência" os caminhos atuais da globalização e as instituições políticas existentes. "A globalização precisa e pode ser modificada", afirma a comissão montada pela OIT para o trabalho, e que foi formada por 26 personalidades internacionais, entre elas a ex-primeira-dama do Brasil Ruth Cardoso e o economista americano Joseph Stiglitz. "Para a maioria das mulheres e dos homens, a globalização foi incapaz de satisfazer suas aspirações mais simples e legítimas, como conseguir um trabalho decente e um futuro melhor para seus filhos", afirma o documento. "Poucos são beneficiados e muitos não têm influência sobre o curso da globalização", afirmou Tarja Halonen, presidente da Finlândia e coordenadora do relatório. PotencialO documento, porém, não é um manifesto contra a globalização e faz também elogios ao processo. O relatório lembra que a globalização permitiu que elementos como democracia, direitos humanos e meio ambiente recebessem maior atenção. "O potencial para o bem da globalização é imenso", diz o documento, que pretende superar o "diálogo de surdos" entre o Fórum Social de Porto Alegre e o Fórum Econômico de Davos. Segundo a avaliação da OIT, porém, o problema é que o impacto da globalização sobre os países não é uniforme. "Existem claramente perdedores e ganhadores no processo", afirma o documento. Entre os países beneficiados pela globalização, estão essencialmente as economias ricas que, com capital, tecnologia e educação, usaram o processo para avançar em seu desenvolvimento. Entre os países que se beneficiaram, o estudo também aponta os casos da China e da Índia. Nesses países, as exportações cresceram e os investimentos externos aumentaram a cada ano. No outro extremo, estão os países menos desenvolvidos, que saíram como os grandes perdedores da globalização e estão presos em um ciclo que inclui pobreza, falta de educação e economias frágeis. O raio X da globalização aponta que a riqueza suplementar gerada pela globalização não resultou em uma maior distribuição de renda e que a desigualdade social aumentou. O documento, porém, reconhece que a pobreza diminuiu no mundo entre 1990 e 2000, mas graças aos desenvolvimentos na China e na Índia, onde o número de pessoas vivendo em extrema pobreza foi reduzido de forma significativa. No total, o número de pobres passou de 1,2 bilhão de pessoas em 1990 para 1,1 bilhão no início da atual década. Na América Latina, o número de pobres aumentou em 8 milhões. Outra preocupação dos especialistas refere-se aos números de desempregados, que atingiram níveis recordes. Os autores do relatório acreditam que a criação de postos de trabalho deva ser um dos objetivos globais, e pedem uma coordenação de políticas macroeconômicas para a elaboração de uma estratégia de crescimento e de pleno emprego. A América Latina foi uma das regiões mais atingidas pelo desemprego nos últimos anos. Em 1990, o porcentual de pessoas sem emprego chegava a 6,9%. Hoje, a média é de 9,9%. No Brasil, o relatório destaca que a liberalização dos anos 90 não criou novos empregos e que a diferença entre os salários dos trabalhadores aumentou. RespostasOs especialistas ainda formulam várias propostas para corrigir a globalização, a maioria delas sugerindo um processo mais justo e regras comerciais que permitam uma participação mais positiva dos países em desenvolvimento. A OIT ainda pede a elaboração de um estratégia global de crescimento, investimento e emprego, e não descarta que novas organizações sejam criadas para debater as políticas de globalização. Outra sugestão se refere à criação de uma entidade que faria uma avaliação periódica dos efeitos da globalização, e de um grupo parlamentário internacional que supervisionaria as organizações existentes para garantir coerência entre as várias entidades. Para os especialistas, instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial precisariam ser "re-equilibrados" e a ONU fortalecida, para que o sistema multilateral seja preservado. Outra constatação: "a resposta à globalização começa em casa". Serão beneficiados pelo processo aqueles países que conseguirem dar justiça social, educação e proteção social a seus cidadãos.

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