Coluna

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Globalização precisa de ajustes, dizem especialistas

A reforma nas principais instituições multilaterais internacionais, como FMI, Banco Mundial e OMC, e uma nova arquitetura financeira internacional, com a introdução da taxa Tobin para conter movimentos especulativos, podem ajudar a corrigir os rumos da globalização e diminuir as disparidades econômicas e sociais entre os países industrializados, em desenvolvimento e subdesenvolvidos. A opinião é do presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet), professor Antônio Corrêa de Lacerda. Para José Antonio Ocampo, secretário executivo da Cepal (Comissão Econômica para América Latina e o Caribe), eventos recentes mostram que a crescente insatisfação com a desigualdade provocada pela liberalização econômica está abrindo espaço para um debate mundial positivo, que pode provocar uma forte correção no processo de globalização. Em tempos de Davos e de anti-Davos, a necessidade de um ajuste no processo encontra respaldo em ONGs, governos e até entre empresários de países em desenvolvimento, que querem o fim do protecionismo nas nações industrializadas.Na avaliação do presidente da Sobeet, uma organização patrocinada por grandes empresas, as mazelas e as desigualdades brasileiras não são frutos exclusivos da liberalização econômica, mas da forma como o País se inseriu no processo de globalização. "A inserção brasileira foi passiva porque o País não tem um projeto nacional de desenvolvimento", ressalta. Ele compara os processos de abertura de países como China e Coréia aos de Brasil, Argentina e México. "Os asiáticos não abriram mão de um projeto nacional, que valorizava as exportações e o desenvolvimento da produção interna. Hoje, estão melhores do que os países da América Latina", afirma.Ocampo destaca que na América Latina, região em que o processo de reformas mais avançou na década passada, o crescimento econômico médio nos anos 90 foi de 3,2% ao ano, ritmo bastante inferior ao registrado nos anos 50 e 60, de 5,5% ao ano. "É preciso retomar a agenda do desenvolvimento", defende o economista.A forma de inserção externa é apenas um dos pontos do que Lacerda chama de projeto nacional de desenvolvimento. No que se refere a atitudes que o próprio País pode adotar para enfrentar melhor a globalização e reduzir as desigualdades, a Sobeet recomenda um programa consistente de exportações e de substituição de importações, investimento em educação e treinamento de pessoal para capacitar melhor a indústria brasileira e torná-la mais competitiva, maior promoção de produtos brasileiros no Exterior, estímulo ao turismo como fonte de atração de capital estrangeiro e impulso à criação de multinacionais.Celso Lafer - "O Brasil, como décima economia do mundo, pode ter um papel muito mais incisivo na defesa de seus interesses e no processo de reforma das instituições internacionais. A escolha de Celso Lafer para chefiar o Itamaraty pode marcar uma mudança na atitude do Brasil no cenário internacional", afirma o professor. Para ele, as instituições multilaterais deveriam servir a todos os países, mas a prática mostra que só os países ricos são beneficiados. "É por isso que defendemos mudanças nas instituições e um perfil mais arrojado para o Brasil", completa. A nova arquitetura internacional de fluxos financeiros já está em estudo, mas ainda é incipiente, segundo o presidente da Sobeet. A falta de um mecanismo de controle sobre os fluxos gera instabilidade, sobretudo em economias mais dependentes de capital estrangeiro. A implementação da taxa Tobin, espécie de imposto sobre operações financeiras, é apontada como uma solução viável para reduzir as incertezas provocadas pelo capital especulativo. "A crise asiática foi provavelmente o pior revés para o processo de liberalização financeira, deixando claro que pode ser uma profunda fonte de instabilidade macroeconômica quando não está acompanhado de um marco institucional", ressalta Ocampo.Para a Cepal, um nova agenda de desenvolvimento precisa incluir, pelo menos, dois temas importantes: o primeiro é um novo equilíbrio entre o mercado e o interesse público, de forma a permitir que as forças de mercado se beneficiem das medidas que os auxiliem a funcionar adequadamente dentro de um marco competitivo e a garantir uma participação eqüitativa dos resultados do desenvolvimento. Também deve estar na agenda de desenvolvimento a adoção de políticas públicas voltadas para o interesse comum, mais do que como ações estatais.A Cepal também defende que a globalização deixe de reproduzir as antigas assimetrias da economia mundial e não crie novas desigualdades. "Para isso, é fundamental a existência de uma rede de instituições regionais que respeite a ordem global, com maior grau de autonomia", diz Ocampo. No que se refere a melhorias sociais, a Cepal acredita que o progresso pode ser obtido com três fatores: uma política social de longo prazo, que aumente a equidade e garanta a inclusão das pessoas nos benefícios da globalização; um crescimento econômico que gere um volume adequado de empregos de qualidade; e uma redução da heterogeneidade estrutural dos setores produtivos que diminua as brechas entre as distintas atividades econômicas.

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