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'Globalização vai segurar a inflação nos EUA e juros devem seguir baixos pelo menos até 2023'

Economista levanta dúvidas em relação ao excesso de otimismo com a recuperação da atividade nos Estados Unidos 

Entrevista com

Barry Eichengreen, economista e professor da Universidade da Califórnia em Berkeley

Ricardo Leopoldo, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2021 | 10h00

A globalização, que evita a alta de preços de produtos importados nos Estados Unidos, deverá continuar a manter a inflação bem comportada no país, o que permitirá ao Federal Reserve (Fed, o banco central americano) prolongar a atual política de juros baixos no mínimo até 2023, disse o economista Barry Eichengreen, professor da Universidade da Califórnia em Berkeley. Um outro fator importante nesse cenário, segundo ele, é o trabalho remoto, que avançou com a pandemia do coronavírus, o que diminuirá as pressões de altas de salários em termos nacionais. 

Eichengreen disse estar um pouco preocupado com o excesso de otimismo de muitas pessoas com o ritmo de recuperação dos EUA neste ano e no próximo, pois, na sua avaliação, não consideram elementos importantes, como uma nova onda de contaminações no meio-oeste do país e o surgimento de mutações da covid-19 que não conseguirão ser plenamente derrotadas pelas atuais vacinas. 

Na avaliação do economista, os EUA ajudarão muito a acelerar a vacinação global após o final do verão naquele país, depois que boa parte da população nacional for imunizada. Ele defende que o governo americano deverá ajudar a doar vacinar no âmbito da iniciativa Covax, sobretudo para países como o Brasil que não produzem a vacina em grande quantidade e enfrentam altas de taxas de contaminações, hospitalizações e mortes. A seguir, os principais trechos da entrevista:

Como o sr. avalia as perspectivas de recuperação dos EUA neste ano e em 2022?

Eu estou preocupado que as pessoas atualmente estejam excessivamente otimistas. Elas não consideram a quarta onda da pandemia, que atualmente está sendo construída no meio-oeste. Elas não estão suficientemente atentas às futuras mutações, incluindo a possibilidade de que algumas delas não conseguirão ser contidas pelas vacinas atuais. Quanto tempo, neste caso, demorará para desenvolver a próxima vacina? Além disso, eu também avalio que haverá problemas contínuos no mercado imobiliário, especialmente se forem liquidados contratos de prédios comerciais e apartamentos cujos aluguéis estão atrasados.

E como vê a avaliação da secretária do Tesouro, Janet Yellen, de que os EUA poderão retornar ao pleno emprego no próximo ano?

Essa previsão de Janet Yellen baseia-se na premissa de mantermos o vírus sob controle. Este é o melhor cenário. Então, eu diria que, na melhor das hipóteses, o mercado de trabalho vai se recuperar totalmente em 2022. Caso contrário, demorará mais, pois dependerá do coronavírus.

Como o sr. analisa a trajetória da política monetária (política de juros) adotada pelo Federal Reserve?

Acredito que é crível o compromisso do Federal Reserve de que a política monetária não será alterada até 2023. Os dirigentes do Fed testarão o que significa pleno emprego e ajudarão a estimar a inclinação da Curva de Phillips (conceito desenvolvido pelo economista William Phillips que aponta uma correlação inversa entre desemprego e inflação - ou seja, índices de desemprego baixos levam ao aumento da inflação, e vice-versa).

Há cerca de três anos, em uma entrevista que fizemos, o sr. comentou que a curva de Phillips estava adormecida. Como ela está agora?

A curva de Phillips ainda está cochilando enquanto conversamos. Para ela despertar, dependerá do retorno ao mercado de trabalho das pessoas que o abandonaram nos últimos dez anos. Outro fator a se pensar é o trabalho remoto. Anteriormente, um mercado de trabalho restrito significava que as empresas de alta tecnologia no Vale do Silício tinham de pagar altos salários para funcionários do setor de limpeza e segurança quando o mercado de trabalho apertava, pois precisavam incentivá-los a se deslocar para os escritórios de uma distância de 60 milhas (96,5 km), onde conseguiam pagar por uma moradia. Agora, boa parte do Vale do Silício se mudou para o Havaí ou Wyoming com o trabalho online. Isso significa menor pressão de alta dos salários dos trabalhadores menos qualificados quando o mercado de trabalho estiver apertado, o que deve continuar assim em 2022 ou 2023.

Quem está correto: o Federal Reserve ou os mercados sobre a tendência da inflação nos EUA?

A globalização - o fato de que os preços de grande parte das mercadorias que os EUA consomem são determinados na China e no Vietnã - faz com que a taxa de utilização da capacidade doméstica nos Estados Unidos não seja mais o único determinante da inflação. Sem muitas mudanças em termos de inflação de preços de produtos importados, acredito que a inflação geral permanecerá moderada. Este ano pode haver alguma alta temporária, pois há problemas de transporte, como os vistos no tráfego de contêineres no Canal de Suez, e alguma escassez pontual, como no caso de semicondutores. O Fed entende que a inflação é transitória e está com o foco no núcleo e na inflação subjacente. Mesmo que a inflação esteja acima da meta no segundo semestre de 2021, não creio que levará o Fed a acelerar a normalização das taxas de juros.

O sr. acredita que o Congresso vai aprovar este ano o plano de infraestrutura do presidente Joe Biden, que prevê investimentos de US$ 2,25 trilhões?

Avalio que o Congresso aprovará uma nova legislação na área de infraestrutura, cujos detalhes ainda serão definidos. Acredito que o novo plano será pago em parte pelo aumento dos impostos sobre empresas e pessoas mais ricas e em parte financiado por dívida pública. Qual é o tamanho exato deste plano? Talvez dois terços do que Biden está propondo, sendo que metade financiada com impostos. Não estou preocupado com a dívida pública adicional, pois sabemos que os investimentos em transporte, educação e combate a mudanças climáticas tornarão a economia mais produtiva no longo prazo. Se conseguirmos elevar o denominador da relação dívida/PIB dessa forma, ficarei ainda menos preocupado com a dívida adicional que poderá surgir.

O sr. é a favor de um imposto corporativo global mínimo?

A participação do trabalho na renda nacional vem diminuindo há décadas, em parte como resultado da capacidade das empresas de realocar suas atividades, graças à globalização, ou ao menos realocar onde contabilizam seus lucros. O declínio na participação do trabalho é um fator que alimentou a reação populista e suas políticas destrutivas em países como os Estados Unidos. Tanto a lógica econômica quanto a lógica política apontam a importância de que as empresas paguem sua parte de forma justa. Mas isso requer um acordo internacional. Caso contrário, haverá competitivas reduções de impostos corporativos, uma corrida para o fundo do poço. Eu sou totalmente a favor de negociar de forma internacional a base para a tributação de empresas.

O compromisso do presidente Biden de que os EUA deverão ajudar em poucos meses a combater a pandemia mundial é a grande esperança para acelerar a imunização em termos globais?

Certamente. No verão, os EUA terão vacinado todos os americanos que concordarem em ser imunizados e terão construído um estoque de vacinas. O país deve direcionar sua capacidade de produção de vacinas para abastecer o resto do mundo.

Neste caso, as vacinas fabricadas nos EUA devem ir especialmente para países que não são grandes produtores, como o Brasil, ou também deve incluir nações que fabricam imunizantes em larga escala, como a Índia?

Idealmente, as decisões de distribuição internacional de vacinas, incluindo às doadas por governos como o dos EUA, deveriam ser adotadas no âmbito da iniciativa Covax, não por governos nacionais. Os governos tendem a misturar objeções à política externa com objetivos globais de saúde, o que não é desejável. A Covax deve priorizar países com variantes contagiosas e onde são altas as taxas de contaminação, hospitalizações e mortes. Neste caso, o Brasil se classifica.

Quando veremos novamente a normalidade da vida econômica nos Estados Unidos e no mundo em geral?

Se estivermos com o foco sobre americanos que fizeram viagens de negócios para a África ou América Latina, temo que possa levar mais de dois ou três anos. No caso dos americanos para quem férias significam ir para o Havaí e sair significa assistir a um jogo de beisebol da liga local, poderemos ver esse retorno no final deste ano, desde que não haja novas mutações perturbadoras da covid-19.

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