Globocabo enfrenta questionamento do mercado

"A Globocabo poderá vislumbrar algum lucro no futuro?" Essa foi uma das perguntas recorrentes que os diretores da empresa das Organizações Globo tiveram de responder durante reunião, na noite de ontem, com técnicos da Associação Brasileira dos Analistas do Mercado de Capitais (Abamec-RJ), quando discorreram sobre o programa de capitalização de R$ 1 bilhão em curso e os resultados do balanço de 2001, com prejuízo líquido de R$ 700 milhões. A avaliação da diretoria da Globocabo é de que o lucro é possível. A estratégia para alavancar as vendas, porém, só deverá ser divulgada nos próximos meses, no processo de "road show" (apresentações a investidores). "O que posso garantir é que há um plano consistente, aprovado pelos acionistas", afirmou Leonardo Pereira, diretor de relações com o mercado. A mesma posição foi reiterada em editorial que ocupou quase metade da primeira página da edição de hoje do jornal O Globo. O jornal raríssimas vezes aceita publicidade paga na primeira página, e não costuma defender operações realizadas pelo grupo. O editorial procura responder algumas questões levantadas pelos analistas e reitera que a Globocabo é uma empresa que terá lucro, após resolver os seus problemas de endividamento.Alguns analistas, porém, demonstraram dúvidas quanto aos resultados futuros da empresa. Um deles observou que o volume de depreciação e amortizações da Globocabo supera o indicador denominado Ebtida (lucro bruto, antes do impacto dos impostos, juros, depreciação e amortização). No ano passado, por exemplo, o Ebtida da Globocabo atingiu R$ 277,3 milhões para uma receita líquida total de R$ 1,15 bilhão, o que dá uma relação de 24,2%, considerada muito baixa. As despesas de amortização (pagamento do principal da dívida) e depreciação das instalações contabilizaram R$ R$ 423,3 milhões em 2001. Em 2000, os números foram semelhantes. Para uma receita líquida de R$ 1,1 bilhão, a empresa registrou Ebtida de R$ 231,6 milhões, enquanto a soma de amortizações e depreciações totalizou R$ 365,9 milhões (relação de 22%). A esperança da empresa é que a capitalização reduza o peso financeiro.Outro assunto delicado a que os executivos da Globocabo tiveram de responder é quanto à associação com a Microsoft. O gigante americano associou-se à empresa do grupo Globo em 1999, mas ainda não se pronunciou sobre a capitalização de R$ 1 bilhão. O diretor Pereira disse que "não há sinais" de que a Microsoft esteja pensando em vender a participação que possui na empresa. "Esse é um assunto que só a Microsoft pode responder, mas pela presença que os diretores mantêm nas reuniões do conselho, não se nota nenhum movimento de venda das ações", comentou. Os "riscos regulatórios" também são considerados pela empresa. Atualmente as grandes operadoras de telefonia fixa, como a Telefônica ou Telemar, não podem oferecer serviços de tevê a cabo. Mas, conforme os dados da própria Globocabo, a Telefônica hoje possui instalações superiores às da empresa das Organizações Globo no segmento de banda larga (alta velocidade). E ele admite que o governo pode rever a legislação, o que tornaria as concessionárias de telefonia fixa concorrentes da empresa. "É pouco provável, mas esse risco existe", admitiu Pereira. Em contrapartida, o diretor da Globocabo acredita que a empresa tem algumas vantagens. "A nossa base de clientes, de 1,4 milhão de assinantes, é o nosso principal ativo, e nos dá poder de barganha com os grandes programadores mundiais", observou. Entre os maiores custos desse tipo de empresa está a compra de programas de televisão, o que representa em torno de 40% do faturamento. No ano passado, a empresa já conseguiu melhorar a negociação na compra de filmes, conseguindo economia de R$ 106 milhões, de 2002 a 2004. Um dos principais fornecedores da empresa é a Globosat, também controlada pelas Organizações Globo. A Globosat tem 18 canais de televisão que são distribuídos pela Globocabo, e os negócios entre as partes "são públicos", sendo divulgados no balanço da empresa no item "partes relacionadas". E Pereira garante que a Globocabo paga "preços de mercado" aos programas dos canais da Globosat.Além da redução dos custos, o plano de negócios da Globocabo prevê substancial aumento das receitas, inclusive em novos negócios. O fornecimento de serviços de acesso à Internet via cabo (o que já é feito através do Virtua), deverá ser ampliado, e há novos nichos a serem explorados.

Agencia Estado,

21 de março de 2002 | 18h16

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