Fábio Motta/Estadão
Fábio Motta/Estadão

Gol mostra otimismo após perda bilionária, mas volta ao lucro deve demorar

Companhia aérea prevê mais demanda no fim do ano e planeja retorno de voos para os EUA no 2.º trimestre de 2022

Juliana Estigarríbia, O Estado de S.Paulo

09 de novembro de 2021 | 10h45
Atualizado 09 de novembro de 2021 | 23h05

Depois de mais um prejuízo bilionário no terceiro trimestre, de R$ 2,5 bilhões, a Gol tentou demonstrar otimismo para o quarto trimestre, quando a demanda sazonalmente mais forte coincidirá com o ápice da vacinação contra a covid-19 no País. A companhia projeta de 600 a 700 voos diários para dezembro, ante média de 460 em novembro. Ainda assim, a aérea deve continuar a enfrentar desafios para reduzir o endividamento em um cenário de juros e custos mais altos.

O presidente da Gol, Paulo Kakinoff, reforçou que a companhia está retomando gradualmente os voos internacionais, com destaque para países como Uruguai, Argentina e México. Os Estados Unidos devem voltar ao portfólio da companhia no segundo trimestre de 2022. 

A decisão se deve, em parte, ao represamento de pedidos de vistos no Brasil e principalmente pela taxa de câmbio. “Pode ficar caro para os brasileiros viajarem para os Estados Unidos”, disse o executivo, em teleconferência de resultados. Enquanto isso, a aérea supre a demanda externa por meio da parceria com a American Airlines.

O analista da Mirae Asset Corretora, Pedro Galdi, aponta que a companhia tenta mostrar um viés positivo, com um maior número de voos e de uso de aeronaves. “Mas pesa a expectativa de que, apesar do crescimento dos voos domésticos, o segmento internacional vai demorar um bom tempo para voltar ao normal.”

Dívidas

Além disso, analistas alertam para o endividamento elevado da Gol. Ao fim de setembro, a alavancagem da companhia, medida pela relação entre a dívida líquida ajustada e a geração de caixa, alcançou 9,7 vezes, piora significativa em relação ao indicador de 4,3 vezes em igual período de 2020.

De janeiro a setembro, as despesas da Gol somente com juros de empréstimos e financiamentos cresceram cerca de 20% sobre igual período de 2020, para R$ 1,37 bilhão. “O endividamento da companhia continua alto”, pontua Galdi.

Diante de um horizonte de custos de combustível e dólar ainda elevados, a Gol segue com desafios. Em relatório, o Citi avalia que a companhia enfrentará cenário adverso de preços de combustível e condições econômicas negativas.

O diretor vice-presidente financeiro da Gol, Richard Lark, minimizou os riscos macroeconômicos. “No Brasil, o cenário de risco fiscal é melhor do que nos EUA, por exemplo. Os fundamentos no País estão indo bem”, disse a analistas. “É claro que o câmbio afeta o combustível e os custos com aeronaves”, admitiu. 

A companhia também está em um movimento de renovação da frota: um de seus objetivos é ampliar o uso dos aviões da linha MAX, da Boeing, considerados mais econômicos.

Para entender

  • Endividamento: O ponto que mais chamou a atenção foi a severa alta do endividamento, que superou em mais de 9 vezes a geração de caixa; com a melhora do mercado esperada para o 4.º trimestre, a companhia espera reduzir esse indicador para cerca de 5,2 vezes até o fim deste ano;
  • Volta dos voos: A companhia espera chegar a 600 a 700 voos por dia no mês de dezembro, ante cerca de 450 diários previstos para novembro, tanto pelo efeito sazonal das férias de verão, quanto pelo avanço da vacinação contra a covid-19;
  • Voos internacionais: Enquanto os voos para a América do Sul já começam a ser retomados, a volta das rotas para os Estados Unidos só deve ocorrer no 2.ºtrimestre de 2022 – analistas apontam que demanda deve ser afetada pela alta do dólar e pelas dificuldades de obtenção de vistos para cidadãos brasileiros;
  • Custos em alta: O dólar tem forte efeito nos custos do setor: o cenário para o combustível de aviação não é dos melhores, diante da disparada do petróleo no mercado global e da desvalorização do real por aqui;
  • Nova frota: Apesar de os aviões 737 MAX terem sofrido questionamentos após dois acidentes fatais, que resultaram na morte de 346 pessoas, a aeronave é uma aposta da Gol após o retorno do equipamento ter sido aprovado pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). “Aceleramos a transição da nossa frota”, disse Paulo Kakinoff, presidente da Gol.

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