Matt McKnight/Reuters
Matt McKnight/Reuters

Gol voltará a voar com o Boeing 737 Max, após liberação da Anac 

Modelo ficou suspenso após dois acidentes aéreos que deixaram 346 mortos - em outubro de 2018 (da Lion Air, na Indonésia) e em março de 2019 (Ethiopian Airlines, na Etiópia)

Cristian Favaro, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2020 | 08h00

Um dos setores na economia que mais enfrentaram turbulências nos últimos meses foi o setor aéreo. Como se não bastasse o grave efeito da pandemia sobre os negócios, a suspensão do Boeing 737 Max, mais econômico, deixou empresas em situação de caixa delicada no mundo. Parte da crise, a do Max, está caminhando a um fim. Na quarta-feira, 25, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) liberou a operação da aeronave no País, notícia importante para a Gol, única a operar no modelo em território nacional. 

A FAA (agência de aviação civil dos Estados Unidos) deu o sinal verde para a retomada do Max no dia 18 e, no dia 20, publicou a diretriz de aeronavegabilidade. O documento foi chancelado pela Anac nesta quarta-feira. O modelo foi suspenso pela autoridade norte-americana em março de 2019 após dois acidentes aéreos que deixaram 346 mortos - em outubro de 2018 (da Lion Air, na Indonésia) e em março de 2019 (Ethiopian Airlines, na Etiópia).

A revisão da agência se debruçou sobre todo o mecanismo de controle da aeronave, inclusive o sistema de pilotagem MCAS (Maneuvering Characteristics Augmentation System), que teria apresentado vulnerabilidades. Os dois acidentes, entretanto, ainda devem ser alvo de estudos por anos para serem compreendidos por completo, segundo fontes.

"A decisão da Anac, confirmando a adoção da Diretriz de Aeronavegabilidade da FAA, é um marco muito importante", disse a Gol, em nota. Segundo a aérea, o foco agora está nas etapas de despreservação das aeronaves. "Indicamos ainda que o retorno destas à operação ocorrerá de forma progressiva ao longo das próximas semanas", disse a empresa.

O superintendente de Aeronavegabilidade da Anac, Roberto Honorato, destacou o efeito positivo da proximidade entre as agências brasileira e americana desde o início do processo. "Acompanhamos muito de perto, mas no momento que os documentos finais foram publicados pela FAA se fez necessária uma avaliação de todos os pontos", disse, em entrevista ao Broadcast.

Para voltar com o Max, a Gol terá de comprovar à Anac as mudanças necessárias, como reconfiguração do sistema de controle de voo e correção do roteamento do conjunto de cabos. Adicionalmente, os pilotos terão de passar por treinamento. A aérea já tinha sinalizado que levaria um mês para realizar todas as mudanças dentro do prazo.

A Anac ganhou mais espaço ainda na discussão sobre o Max diante do fato de ter sido a única reguladora a demandar treinamento adicional aos pilotos para o sistema de pilotagem MCAS dentro do processo de certificação no Brasil. Questionado sobre como o Max deve influenciar o setor no futuro, Honorato disse que o normal da aviação é buscar aprender com as experiências. "Às vezes, experiências envolvem acidentes", disse, e emendou: "o caso vai repercutir por anos no sentido de se buscar melhorias que são possíveis e necessárias no processo de desenvolvimento e certificação".

Em tempos de pandemia e com as aéreas economizando cada centavo do caixa, o Max se mostra uma aeronave fundamental por consumir 15% menos combustível e entregar um custo por assento 14% menor do que os modelos anteriores (tem mais assentos). Por sinal, o custo menor torna o Max fundamental para a volta da Gol ao mercado internacional.

A Gol tem hoje sete unidades do modelo na sua frota. Por causa da crise da covid-19, a aérea reduziu de 129 para 95 o cronograma de recebimentos de Boeing 737 MAX previstos para 2020-2022. A Gol já havia conseguido um acordo de indenização de US$ 412 milhões com a fabricante.

Nos próximos dias, como um dos requisitos exigidos antes da retomada ao serviço do Boeing 737 MAX, serão realizados voos técnicos sem passageiros pela Gol, que serão acompanhados pela Anac e pela fabricante. "Por deliberação própria e em linha com sua cultura de excelência em Segurança, a Gol optou por exceder aos requisitos regulatórios, realizando múltiplos voos técnicos adicionais ao recomendado, o que reforça o cuidado com a qualidade do processo de retorno das aeronaves à operação", destacou a companhia.

A aérea brasileira já prepara há semanas o terreno para a volta do Max. Passou a fazer até passeios turísticos com clientes no hangar da empresa em Congonhas para apresentar o modelo e trazer confiança.

A empresa resolveu se antecipar no início deste mês e, junto dos resultados do terceiro trimestre, divulgou projeções para o primeiro trimestre do ano que vem. O presidente da Gol, Paulo Sergio Kakinoff, explicou na ocasião que as projeções já consideravam a retomada de operação do Max.

 A aposta da Gol é ter uma liquidez total em março de 2021 de R$ 2,5 bilhões. No front operacional, a aérea projeta operar em 167 rotas domésticas, ou 85% do total de 2019, e elevar a frota em operação para 102 aeronaves, ou 92% do número pré-crise. A oferta de assentos deve chegar a 76% da observada antes da pandemia.

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