Google dá 'nova chance' à indústria dos Estados Unidos

Ao fabricar o Nexus Q em solo americano, empresa mostra que alta de custos na China começa a mudar cenário para os EUA

JOHN MARKOFF, THE NEW YORK TIMES , SAN JOSE, CALIFÓRNIA, O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2012 | 03h08

Gravada na base do novo media player doméstico sem fio do Google, lançado na quarta-feira, está sua característica mais interessante. Em baixo do Nexus Q há uma simples inscrição: "Projetado e fabricado nos EUA".

Os executivos e engenheiros do Google decidiram fazer uma experiência com a indústria americana e construir o aparelho no país. "Estivemos ausentes por muito tempo e então decidimos: 'Por que não tentamos para ver o que acontece?'", disse Andy Rubin, executivo do Google que dirige a divisão do sistema operacional Android da companhia.

O Google não fala muito sobre sua produção americana, e se recusa a revelar até mesmo onde se localiza a fábrica no Vale do Silício. E nem fala muito dos fornecedores de muitas de suas peças nos Estados Unidos.

Rubin disse que a companhia não está envolvida numa cruzada. Entretanto, o projeto será acompanhado atentamente por outras companhias do setor eletrônico. Todas chegaram à conclusão de que os produtos de eletrônica de consumo não podem mais ser fabricados nos EUA. Na última década, a abundante e barata mão de obra e as normas ambientais mais brandas na China praticamente acabaram com o que era anteriormente um vibrante setor da indústria americana.

Desde a década de 90, companhias americanas, entre elas Hewlett-Packard (HP), Dell e Apple, tornaram-se meros centros de design e marketing, e passaram a contratar fabricantes em Shenzhen e em outras cidades da China.

Agora, se começa a ver provavelmente os sinais de uma inversão dessa tendência.

Por enquanto, o processo ainda é lento, mas várias companhias americanas voltaram a fabricar seus produtos nos Estados Unidos. Muitas delas são pequenas, como a ET Water Systems. Entretanto, tem havido movimentações bastante visíveis das maiores fabricantes de produtos industriais e de consumo. No ano passado, General Electric e Caterpillar, por exemplo, trouxeram de volta as suas operações de montagem para os EUA. (A companhia europeia Airbus poderá concluir em breve um acordo para a construção de jatos no Alabama.)

Causas. Não há apenas uma razão para esta mudança. O aumento dos custos da mão de obra e da energia tornaram a fabricação de produtos na China bem mais cara; os custos dos transportes subiram; as companhias estão cada vez mais conscientes dos riscos de roubo da propriedade intelectual quando os produtos são fabricados na China; e, num setor em que o tempo que o produto leva para ser comercializado constitui uma vantagem competitiva, é mais fácil para os engenheiros dirigir por 10 minutos numa rodovia até a fábrica, do que embarcar numa viagem de 16 horas.

Isto é válido para a empresa californiana ET Water Systems. "Você precisa de uma colaboração em tempo real", disse Par McIntyre, diretor executivo da fabricante de sistemas de gestão de irrigação, que recentemente transferiu sua fábrica de Dalian, na China, para o Vale do Silício. "Francamente, preferimos trabalhar aqui, porque mandar um dos nossos funcionários para a China por duas semanas de cada vez é complicado".

Harold L. Sirkin, um diretor gerente do Boston Consulting Group, disse: "Com o custo da mão de obra a US$ 0,58 a hora, trazer a fábrica de volta era impossível, mas a US$ 3 a US$ 6 a hora, como estão atualmente os salários nas cidades costeiras da China, de repente as coisas mudaram de figura". A empresa informou em abril que um terço das companhias americanas com faturamento superior a US$ 1 bilhão estudava a possibilidade de trazer de volta as fábricas para os EUA. O Boston Consulting previu que a decisão poderá representar a criação de 2 a 3 milhões de empregos no país.

"As empresas que hoje investem em tecnologia nos EUA estão mais hábeis e ágeis", disse Drew Greenblatt, dono da Marlin Steel Wire Products, em Baltimore, que continua a fabricar seu produto nos EUA utilizando tecnologias de automação. "As peças são fabricadas mais rapidamente e a qualidade é melhor."

Há outros fatores também, diz Mitch Free, diretor executivo e fundador da Mfg.com, um mercado eletrônico para a indústria. Ele citou as novas tendências, incluindo os sistemas de manufatura distribuída e customização que hoje têm um papel importante, oferecendo um novo suporte para o setor industrial americano. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO E ANNA CAPOVILLA

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