Gorjetas são cada vez mais raras

Trabalhadores ligados ao turismo perdem renda e lojas aumentam descontos

, O Estadao de S.Paulo

06 de setembro de 2009 | 00h00

Las Vegas ainda não se reergueu depois que o castelo de cartas da economia americana começou a desmoronar. O número de visitantes diminuiu e, como consequência, os meios de hospedagem, restaurantes e lojas recorreram aos descontos para tentar estancar as perdas.

O mexicano Arturo, faxineiro de um hotel cinco estrelas, não tem dúvidas de que a situação hoje é bem diferente da dos tempos de cassino cheio e apostas estratosféricas. "Há menos gente por aqui, portanto, recebo menos gorjeta. Essa é a minha realidade desde que a crise começou."

Camareira de outro hotel de luxo da cidade, a dominicana Agueda confirma a má fase para quem vive em Las Vegas. Segundo a estrangeira, a situação para os trabalhadores anda bem difícil. Ela ganha por volta de US$ 1 mil por quinzena, numa jornada diária de seis horas. As horas extras foram cortadas, o que dificultou a vida, principalmente depois que o banco no qual ela financiou a casa onde vive com o marido subiu o valor da prestação de US$ 2 mil para US$ 2,5 mil.

"Não há muito o que fazer. Agora, lutamos para não perder a casa. O banco nem quis saber de negociar, apesar de a situação não andar muito boa na cidade. Subiu o valor da prestação e pronto. E nem tem mais tanta gorjeta para ajuda", relata Agueda.

COMÉRCIO FRACO

Nem mesmo os negócios tradicionais conseguiram manter o apelo dos bons tempos. A Welcome Las Vegas, rede especializada em souvenirs, cortou 12% dos funcionários depois que a economia começou a degringolar, como relata Lucy Medina, gerente da loja no hotel The Venetian.

Para seduzir a clientela que passa em frente à vitrine da Welcome Las Vegas foi preciso recorrer aos descontos, maiores e mais abrangentes. Antes só um produto costumava entrar na queima de estoque. Atualmente são 12. Os descontos não passavam de 30% e agora chegam a 60%, segundo a funcionária.

Uma camiseta na Welcome Las Vegas valia US$ 15,95 nos bons tempos e caiu para US$ 7,95 com a liquidação da crise. Nas outras lojas que fazem parte do grupo, a estratégia foi outra. Para dar sustentação às vendas, os donos da empresa mudaram o mix de produtos. "As lojas de sapatos, de roupas para crianças, mulheres e homens passaram a ter também mercadorias mais baratas, além das promoções. Foi o jeito de não sentir tanto a queda nas vendas", explica Lucy.

No mesmo The Venetian Robert Flandgan atendia aos interessados em fazer um passeio de gôndola pela réplica dos canais de Veneza, a principal atração do hotel. Paciente, o americano tentava mostrar as maravilhas do tradicional passeio, sem muito sucesso.

O The Venetian tem uma concentração das melhores lojas de luxo do mundo. Mas, segundo Flandgan, até o consumo de alto padrão sucumbiu à crise econômica global. "Agora só se veem moças andando por aí com as sacolinhas cor-de-rosa da Victoria?s Secret (grife de cosméticos e de lingerie voltada principalmente à classe média) e com produtos de US$ 10", diz o observador Flandgan.

Flandgan aproveita a conversa para fazer o comercial. Para ele, uma das formas de melhorar a economia da cidade é com o aumento de voos diretos para a cidade, especialmente do Brasil.

"O governo deveria negociar com os outros países e com as companhias aéreas para facilitar o acesso a Las Vegas. Imagine a diferença que faria um voo de São Paulo direto para cá. Vocês viajariam umas 10 horas, seria bem mais fácil (com a conexão em Dallas são cerca de 14 horas, fora a espera pelos voos)", sugere.

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