FELIPE RAU/Estadão
FELIPE RAU/Estadão

'Gosto de estar em situações diferentes'

Atuando há 23 anos na indústria farmacêutica, e com experiência de mais de dez anos em países como Hungria, República Tcheca, Colômbia e Espanha, André Brázay, de 56 anos, retorna ao Brasil no cargo de diretor geral da Sandoz no Brasil - divisão de genéricos do Grupo Novartis. Feliz por estar de volta, o engenheiro químico, com MBA em finanças, sente-se motivado com mudanças. "Empresas diferentes e países diferentes são situações novas de aprendizado", diz. A seguir, trechos da entrevista.

EDILAINE FELIX , O Estado de S.Paulo

29 de junho de 2014 | 02h08

Quando se formou em engenharia química, já pensava em seguir uma carreira mais administrativa do que técnica?

Quando comecei a fazer engenharia, gostei muito. Não sou um engenheiro frustrado, gostei de trabalhar em fábrica, foi uma experiência importante em minha formação. Mas acabei buscando administração de empresas e finanças como opção de carreira porque me interessava, e como oportunidade de crescimento. Ter formação em engenharia é bom para o mercado financeiro.

Você começou sua carreira em uma indústria. Foi lá que se interessou por finanças?

Comecei a trabalhar em uma fábrica de vidros chamada Pilkington (atual Blindex). Quando fui para a área comercial percebi que precisava ampliar meus conhecimentos. A formação de engenharia é muito boa, mas tem de ser complementada, por isso fiz MBA em finanças, depois de ter passado um ano morando na Alemanha e na Inglaterra, trabalhando em fábricas do grupo. Viver fora e conhecer outra cultura é muito bom.

Como você chegou ao Grupo Novartis?

Depois de 11 anos na Pilkington, por volta de 1991 decidi sair do País. Era uma época difícil para a economia brasileira e uma fase importante para a Europa Oriental. Meus pais são húngaros e recebi uma oferta de trabalho para ir para a Hungria. Achei que era uma maneira de recuperar meu passado, me conectar com quem eu sou e ter uma nova oportunidade. Também queria conhecer um país que estava em transformação.

A Hungria foi o início dessa longa trajetória internacional?

Foi essa curiosidade que me levou para lá. Fui trabalhar na Ciba-Geigy, a antecessora do que é hoje a Novartis. Ajudei a montar a empresa que estava se formando. Até essa época, naquele país, só existiam empresas do governo.

E quais foram os desafios?

Usar o que eu tinha aprendido em finanças para montar uma empresa, com suporte que a Ciba-Geigy dava era um desafio muito grande, era irresistível. O primeiro desafio foi o da língua, apesar de achar que sabia falar, descobri que era bem mais complicado do que imaginava. Trabalhar usando a língua estrangeira é bem mais difícil. Era preciso saber a linguagem técnica, além de ter de entender como funcionavam os mecanismos para realizar os negócios.

Era tudo muito novo...

Sim. Fazer uma startup dentro de uma empresa multinacional, em um país com poucos recursos foi muito bom e um aprendizado. Mas percebendo que a indústria farmacêutica era muito mais marketing, fui buscar uma forma de aprender o que era o marketing farmacêutico. Em 1994, voltei para o Brasil para trabalhar em vendas, fazer visitas médicas, conhecer o que era o contato entre a indústria e seu cliente. Isso foi ótimo.

Em 1996 houve a fusão da Ciba-Geigy com a Sandoz. Qual a sua participação nesse processo?

Quando houve a fusão, em 1996, eu era diretor de marketing e vendas na Hungria e fui indicado para ser o presidente da Novartis na República Tcheca. Essa unidade também era uma startup e eles decidiram aproveitar a experiência que tive na Hungria. Não foi só uma mudança de empresa, mas outra mudança de vida. Fui morar em um país sobre o qual não conhecia absolutamente nada, nem falava a língua. Em um ano, não aprendi mais do que cinco palavras.

Neste caso, qual foi o desafio?

Trabalhar em um país desconhecido, sem conseguir ler o que está assinando, faz a pessoa estabelecer um grau de confiança com as pessoas que estão ao seu redor. Eram outras regras, eu era o presidente e o financeiro da empresa. Os desafios eram entender a legislação local, o que é permitido, esperado, e mais ainda conhecer os profissionais que estariam ao meu lado, ter um excelente advogado, auditor, contador, porque assim é possível conseguir manter os requisitos necessários para funcionar bem. Nessa fase, as características mais importantes que desenvolvi foram curiosidade e humildade.

Após desenvolver uma carreira internacional. Como aconteceu o retorno ao Brasil?

Depois da República Theca, fui para a Colômbia, voltei para a Hungria e segui para a Espanha. Como disse, gosto de viver situações diferentes e aprender sempre. Voltar para o Brasil também é uma oportunidade de aprendizado. Apesar de ser o local onde cresci, estudei e me formei, preciso descobrir o que mudou por aqui.

A realidade empresarial por aqui é muito diferente?

É completamente diferente. O o mercado aqui não é de saúde é mais de varejo. A farmácia aqui é uma loja que faz negócio, não é uma unidade que faz parte do sistema de atendimento a saúde, junto com um hospital ou uma instituição de saúde como em outros países. Esses são os desafios, funciona bem também, mas são situações diferentes que tenho de encarar de forma diferente daquela que encarei antes.

O que representa estar à frente da operação no Brasil?

Sem dúvida é motivador. A indústria genérica brasileira é muito forte, os competidores nacionais são fortes e a Sandoz tem o desafio de aumentar a sua relevância. Esse foi um dos grandes motivos para eu ter vindo para o País. A Sandoz é a segunda maior empresa do mundo em genéricos. No Brasil ocupamos a 10ª posição em genéricos (no mercado total).

E quais são suas metas atuais?

O objetivo é melhorar a colocação da empresa, com rentabilidade, que é um dos problemas da indústria de genéricos no Brasil. Sem dúvida, o objetivo da Sandoz no País é crescer junto com a Novartis e se transformar em uma parceira para as farmácias e para toda a cadeia de distribuição.

E quais são as próximas?

O que sempre me motivou, me motiva e espero que continue me motivando é a oportunidade de aprender coisas novas, de poder contribuir. Nunca gostei de ficar na mesma posição ou no mesmo país por mais de três ou quatro anos. Empresas diferentes e países diferentes são situações novas de aprendizado. Acho que o Brasil é uma das maiores organizações dentro da Sandoz, mas existem maiores e eu provavelmente não considero que este seja o último posto da minha carreira. Dentro de alguns anos, estarei aberto a desafios novos, quando já tiver realizado o trabalho e dado minha contribuição. O que é gostoso também é o que eu deixei para trás, a quantidade de profissionais que trabalharam comigo e com os quais mantenho contato. Enquanto tiver achando que posso contribuir para a formação de pessoas estarei buscando isso.

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