Governadores criticam real forte e fazem pedidos a Lula

Em reunião no Palácio do Planalto, governadores dos Estados agrícolas entregaram ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva um documento no qual detalham as causas da crise no setor e fazem um série de pedidos ao governo federal. "As dificuldades pela qual passa nossa agropecuária foram provocadas principalmente pela política econômica do governo federal, orientada para o fortalecimento da moeda real frente ao dólar", informaram os governadores no documento.Eles também criticam a alta dos preços do óleo diesel. Segundo eles, para plantar, colher e transportar a produção de 1 hectare de soja são gastos 200 litros de óleo diesel. Em novembro de 2002, esse custo era de US$ 70 ou 7 sacas de soja por hectare. Em abril de 2006, esse custo era 200 dólares ou 20 sacas de soja por hectare.Segundo os governadores, mesmo que os preços internacionais dos grãos estejam em suas médias históricas, a perda de renda do produtor brasileiro foi reduzida pela desvalorização cambial. Eles citam uma estimativa da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), que indica perda de receita de R$ 18 bilhões em 2005. Eles estimam redução de pelo menos 30% na área plantada com soja, milho, arroz e algodão na próxima safra e eliminação de pelo menos 600 mil empregos na cadeia produtiva.Descartada medida cambialSegundo relato do governador do Rio Grande do Sul, Germano Rigotto, o presidente Lula não prometeu mudanças no câmbio, insistindo que ele continuará flutuante, alegando que uma solução para os problemas da agricultura virá com as medidas do pacote a ser anunciado dia 25.Mais cedo, o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, havia afirmado que as medidas anunciadas pelo governo para a agricultura até agora eram insuficientes, mas descartou que sejam tomadas decisões que envolvam o câmbio. "O câmbio é uma questão macroeconômica que foge da minha área. É evidente que nós reconhecemos que a taxa de câmbio é um inibidor do processo de produção."Na última sexta-feira, o governo anunciou que liberará R$ 1 bilhão para garantir o preço mínimo na comercialização da soja. Estes recursos serão liberados por meio de Operações de Prêmio de Risco de Opção Privada (Prop). Trata-se de um auxílio que o governo pagará para garantir a renda mínima do produtor. A compensação será variável, entre R$ 1,50 e R$ 6 por saca de 60 quilos. O valor mais alto será para compensação para as regiões mais distantes. A meta é apoiar entre 15 e 20 milhões de toneladas de soja em leilões.PedidosComo medida emergencial, os governadores pedem a suspensão por 120 dias de todos os vencimentos dos financiamentos e dívidas rurais, mantendo em situação de normalidade para que possa ser implantada a securitização, ou seja, a repactuação destes débitos. Os governadores defendem que estes débitos sejam pagos em 25 parcelas anuais, iguais e sucessivas a partir de outubro do próximo ano, com encargo financeiro pré-fixado de 3% ao ano.Eles também pedem a prorrogação das dívidas no sistema bancário de acordo com a capacidade de pagamento, com três anos de carência, medida que beneficiaria produtores de café e cacau.Outra lista de pedidos trata da política agrícola e de renda do setor rural. Os governadores querem garantia de preços mínimos condizentes com os custos de produção, além de R$ 2,8 bilhões para apoiar a comercialização da safra 2005/06. Outro pedido é a desoneração de impostos sobre insumos agrícolas e a retirada da Contribuição sobre Intervenção de Domínio Econômico (Cide) incidente sobre o óleo diesel. Reivindicam também a garantia de recursos para a defesa sanitária animal e vegetal e implementação do seguro rural. Como medida estrutural, eles pedem a restauração efetiva das rodovias federais, como foram de reduzir os custos de frete. Ainda fazem parte da pauta apresentada ao governo federal pedidos relacionados à macroeconomia - redução das taxas de juros; redução dos níveis de depósito compulsório para aumentar a oferta de recursos a juros oficiais; e revogação da Medida Provisória que permite aplicações externas isentas de IOF, o que reduziria a entrada de dólares no País.ProtestosCerca de 1.500 trabalhadores rurais chegaram nesta terça-feira à Esplanada dos Ministérios fazendo a manifestação do "12º Grito da Terra", uma iniciativa da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura. O ato é uma forma de protesto à política adotada pelo governo com o setor, e suas principais reivindicações são a garantia de preços mínimos para os produtos da agricultura familiar, a renegociação de dívidas rurais e a liberação de R$ 11 bilhões para o Programa de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf).Com este mesmo objetivo, houve protestos em várias regiões do País durante todo o dia:- São Paulo: o trecho entre os quilômetros 419 e 420 da Raposo Tavares, na região de Palmital, em São Paulo, foi interditado por uma manifestação de produtores rurais;- Paraná: cerca de 300 produtores rurais de São Paulo e do Paraná bloquearam durante quase 10 horas, a Rodovia Francisco Alves Negrão (SP-258), na divisa entre os dois Estados, em protesto contra a política agrícola do governo. O bloqueio começou às 7 horas, no km 342, em Itararé, e foi encerrado pouco antes das 17 horas. Os agricultores estacionaram tratores, colheitadeiras e caminhões sobre a pista. Só era permitida a passagem de automóveis, ambulâncias e caminhões com produtos perecíveis. Foram estendidas faixas na beira da estrada com frases contra o governo Lula;- Bahia: Produtores rurais do oeste baiano, maior pólo agrícola do Nordeste, bloquearam as duas principais estradas da região, a BR-242 e a BR-020, que ligam os municípios de Barreiras e Luiz Eduardo Magalhães aos estados de Tocantins, Goiás e Brasília. Dezenas de carretas e caminhões foram colocados nas pistas desde as 7 horas da manhã, interditando todo o tráfego nos dois sentidos. Os manifestantes só permitem a passagem de ambulâncias;- Goiás: pacote com novos protestos contra a política agrícola do governo federal é preparado pelos produtores agrícolas em Goiás. Eles se uniram aos setores de indústria, comércio e de prestação de serviços. Representantes dos agricultores afirmam que o clima poderá ficar tenso e alertam que os bloqueios de estradas vão se multiplicar em todo o Estado;- Mato Grosso do Sul: produtores rurais chegaram pela manhã montados em 400 cavalos e levando na frente uma tropa de 50 burros, sem montaria. Também máquinas agrícolas, caminhões, utilitários, automóveis e motocicletas faziam parte da movimentação que congestionou o centro da cidade. Em Corumbá, pecuaristas distribuíram três mil quilos de carne bovina. De graça, o produto entregue em bandejas de isopor pesando um quilo cada, deu apenas para a metade das pelo menos seis mil pessoas que formaram uma longa fila em volta do quarteirão central da cidade;- Mato Grosso: as principais rodovias federais que dão acesso às regiões Sul, Sudeste, Centro-Oeste e Norte do País foram bloqueadas parcialmente. Houve bloqueios em 13 pontos das BRs-163, 364, 158 e 70. A estratégia foi barrar o transporte de grãos, fibras, carnes, insumos e fertilizantes. Em Cuiabá, cerca de 500 representantes da indústria, comércio, transportes e estudantes fizeram uma passeata em apoio aos agricultores. Em Rondonópolis, os produtores agrícolas queimaram uma colheitadeira, fardos de rejeito de algodão e pneus velhos, além de bloquearem a BR-163, que dá acesso a Campo Grande e São Paulo, e a BR-364, que dá acesso à Ferronorte e a Goiás;- Maranhão: cerca de 1.500 agricultores maranhenses participaram de protestos em sete cidades - Balsas, Bacabal, Imperatriz, Açailândia, Grajaú, Barão de Grajaú e Chapadinha. Três rodovias federais do sul do estado - BR-222, BR-135 e BR-230 - foram interditadas em Balsas, Barão de Grajaú e em Açailândia. Uma passeata reuniu mais de 1.000 produtores rurais, a grande maioria pecuaristas, em Bacabal para onde converge grande parte da produção de leite do estado. O protesto mais agressivo ocorreu em Balsas, distante 790 km de São Luís e onde estão estabelecidos a grande maioria dos sojicultores do Maranhão. Os agricultores levaram caminhões, tratores e colheitadeiras para a rodovia que cruza a cidade - a BR-230.

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