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Andreia Lago e Tiago Soares no painel online do Summit ESG que discutiu governança nas empresas. Reprodução

Governança permite conexão entre áreas de sustentabilidade e negócios nas empresas

Evento online realizado pelo ‘Estadão’ discutiu importância de as corporações implementarem práticas ESG como pilar estratégico

Marina Aragão, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2021 | 14h44

A "revolução sustentável" só acontecerá de fato quando as áreas de sustentabilidade e negócios estiverem diretamente conectadas dentro das empresas. E com o avanço da agenda ESG (sigla em inglês para questões ambientais, sociais e de governança), quem ganha relevância nesse contexto é a governança. A iniciativa mostra a importância de se implementar as boas práticas socioambientais como pilares estratégicos das corporações. Ou seja, os setores que "levam os negócios para frente" devem entender que essa não é uma discussão apenas das equipes responsáveis pelo tema.

A relevância da governança nas empresas foi tema de painel do Summit ESG, evento online promovido pelo Estadão, nesta quinta-feira, 17, que teve como convidado Tiago Soares, gerente de Sustentabilidade do banco BV. De acordo com ele, a governança traz visibilidade e transparência para o impacto das ações da empresa, tanto para colaboradores quanto para o público externo. "A governança faz uma ponte para que as iniciativas sociais e ambientais permeiem todas as áreas da empresa", disse. No BV, 2021 marcou a estreia da sustentabilidade como pilar estratégico do banco.

Soares contou que a instituição montou um comitê para discussões sobre o tema e agora faz parte da Agenda 2030 da ONU. Segundo ele, o desafio não foi "se", mas sim "como" iriam implementar as práticas ESG. Com a alta liderança convencida da importância da iniciativa, "o primeiro passo foi atualizar a estratégia de sustentabilidade que já tínhamos, entendendo qual a necessidade que o Brasil e o mundo têm hoje", explicou. Em um plano construído a muitas mãos, o BV estabeleceu metas ESG e recompensas (bônus) para os executivos e setores de relacionamento da instituição financeira.

O banco se debruçou em três frentes de atuação que geraram cinco compromissos: a primeira é o combate às mudanças climáticas. Nesse quesito, o BV se comprometeu a compensar a emissão de gases do efeito estufa promovida pelas atividades dos colaboradores - inclusive o trajeto de carro para o trabalho - e de CO2 no seu principal negócio, que é o financiamento de veículos. Segundo o gerente de Sustentabilidade, a intenção é investir em veículos híbridos, carros elétricos e até placas solares.

A segunda frente prevê a evolução de negócios sustentáveis - aqui o compromisso é investir R$ 80 bilhões até 2030 em produções de baixo impacto no meio ambiente. Por fim, o terceiro tema é a inclusão social. O banco se comprometeu a montar seu time com 50% de liderança feminina, o que já foi alcançado entre os colaboradores. Além disso, o BV quer que pelo menos 35% dos seus funcionários sejam negros. De acordo com Soares, o banco tem feito parcerias com projetos sociais e sensibilização com o setor de RH para facilitar o recrutamento.

Atrelado a isso, Soares disse que a área de Sustentabilidade propõe continuamente programas de treinamento e informação para os mais de 4 mil colaboradores diretos, na tentativa de engajá-los e promover a mudança de mentalidade. "Não esperamos que todos se tornem especialistas no tema, mas que tenham um olhar diferente sobre aquilo que fazem."

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'Esse governo reverteu a tentativa de conter destruição da Amazônia', diz 'pai da sustentabilidade'

No Summit ESG - evento promovido pelo ‘Estadão’ -, John Elkington diz que empresas não conseguirão fazer uma transformação verde sozinhas

Luciana Dyniewicz, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2021 | 11h24
Atualizado 16 de junho de 2021 | 13h14

A adoção de princípios sociais, ambientais e de governança (ESG, na sigla em inglês) por empresas em todo o mundo não será suficiente para deter as mudanças climáticas, na avaliação de John Elkington, conhecido como “pai da sustentabilidade”. Segundo o inglês, é essencial que os governos também atuem nessa área, criando políticas públicas como impostos para emissão de carbono - o que não vem ocorrendo no Brasil.

“As empresas não conseguem fazer isso sozinhas, mesmo as maiores não conseguem. Elas podem fazer mudanças substanciais, mas dependem de governos para agir. Você tem de mudar o mercado onde elas atuam. Mas o reconhecimento da necessidade do governo está se espalhando rapidamente”, afirmou Elkington na manhã desta terça-feira, 15, em palestra online do Summit ESG, evento promovido pelo Estadão.

Criador do conceito “tripé da sustentabilidade” (segundo o qual, para uma empresa ser sustentável, ela precisa ser financeiramente viável, socialmente justa e ambientalmente responsável), Elkington destacou que países da União Europeia, além do Reino Unido e dos Estados Unidos, estão trabalhando para que uma transformação verde se viabilize. O  mesmo, porém, não tem ocorrido na América do Sul e, principalmente, no Brasil, afirmou.

Elkington criticou os retrocessos na conservação da Amazônia, apesar de ponderar que esse problema não é restrito ao governo de Jair Bolsonaro. “Uma das minhas maiores preocupações - mas isso não é especificamente contra o governo Bolsonaro - é que esse governo reverteu o progresso de anos de tentar desacelerar a destruição da Amazônia.”

De acordo com ele, a saída da crise ambiental não ocorrerá se toda a população global não trabalhar conjuntamente - daí a necessidade de o Brasil também colaborar e preservar o ambiente. “O que estamos tentando fazer na União Europeia e em outras partes do mundo não será suficiente. A covid nos mostrou que a pandemia e a mudança climática só serão solucionadas se tivermos uma solução global. Se nos unirmos.”

O inglês disse ainda que investidores e órgãos internacionais não deverão ajudar no trabalho de preservação ambiental do Brasil se o próprio governo não adotar iniciativas que façam isso. “O investidor de fora tem de ter confiança de que está investindo em cadeias de valor e de que o governo vai assegurar que pessoas normais não continuarão destruindo o ambiente. O governo precisa mostrar que o ambiente, nesse caso a Amazônia, é um ativo. Se não, ninguém vai investir no longo prazo.”

Elkington afirmou acreditar que o capitalismo é o futuro, mas não em sua forma corrente. Segundo ele, o padrão estabelecido por Milton Friedman, em que empresas deveriam buscar apenas o lucro, ficou ultrapassado e a mudança será rápida porque a pressão sobre as empresas aumentou muito conforme as expectativas em relação a elas foram se alterando.

“ESG ainda é algo reativo, mas há uma mudança fundamental no modo de o mundo pensar. Governos, pessoas e empresas estão começando a se preocupar se nossos sistemas -  nossa sociedade, nossa economia, nossa política - vão durar o suficiente para nos sustentar. E muita gente tem concluído que não. Portanto, o que veremos é uma expansão do que será esperado em termos de responsabilidade dos mercados e dos governos. E o ESG faz parte dessa responsabilidade.”

 

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Combate à crise climática deve ser pauta urgente no setor privado

Empresas precisam definir e monitorar metas para frear aquecimento global; painel reuniu representantes da Vale, JBS e Sabesp, além de consultores

Redação, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2021 | 14h06
Atualizado 16 de junho de 2021 | 13h15

O setor privado brasileiro deve ser protagonista no combate à crise climática e é preciso senso de urgência para frear o aquecimento global. Dentro das empresas, o tema deve estar difundido entre diretores e colaboradores, com metas bem definidas, de longo prazo. As reflexões sobre o papel das companhias nas mudanças climáticas nortearam o primeiro painel do Summit ESG, evento que está sendo realizado nesta semana pelo Estadão.

Participaram do debate na manhã desta terça-feira, 15, representantes da JBS, Sabesp e Vale, além de três consultores e especialistas no tema. Segundo Carolina Genin, diretora de Clima do instituto de pesquisa WRI Brasil, a questão climática é também uma questão econômica - e, por isso, os negócios precisam caminhar junto com o governo a fim de mitigar o problema. “A pergunta não é mais 'se', mas 'quando' e 'como'", afirmou.

Para Lauro Marins, head de consultoria ESG & Mudança Climática - Resultante ESG, o “quando” deve ser agora. “Precisamos ver os processos evoluindo de forma mais rápida. Temos curto prazo de tempo.” O especialista alerta que os países têm os próximos anos para descarbonizar a economia se quiserem cumprir o Acordo de Paris, que definiu a necessidade de conter o aquecimento global abaixo de 2 ºC, preferencialmente em 1,5 ºC.

“Não é uma opção. É a única coisa que temos para fazer”, destacou Gilberto Tomazoni, CEO global da JBS. A empresa, uma das maiores produtoras mundiais de alimentos, promete ser net zero até 2040, ou seja, zerar o balanço de suas emissões de gases causadores do efeito estufa. Para isso, um dos desafios será promover mudanças entre os fornecedores, onde se concentra a maior parte das emissões. Tecnologia e ciência podem ser aliadas nesse movimento.  

“Hoje monitoramos os fornecedores diretos, mas não os indiretos. Agora, com tecnologia de blockchain vamos monitorar os fornecedores dos fornecedores”, completou Tomazoni. 

Na Vale, uma das metas é reduzir em 15% as emissões líquidas de escopo 3, aquelas relativas à cadeia de fornecedores e clientes, até 2035, segundo Hugo Barreto, diretor de Sustentabilidade e Investimento Social da mineradora.

Para se ter uma ideia do tamanho do desafio, são produzidas 586 milhões de toneladas de CO2 na atividade da empresa e a Vale espera baixar para 496 milhões de toneladas em 2035 - essa diferença de 90 toneladas é equivalente ao total de emissões do Chile. “Há um conjunto de iniciativas isoladas e iniciativas em parceria com outras mineradoras”, explicou o diretor de Sustentabilidade e Investimento Social da Vale. Barreto citou projetos de energias renováveis, como eólica e solar, proteção de florestas e cooperação com startups para o desenvolvimento de caminhões eletrificados.

Na Sabesp, também há ações para reduzir as emissões dos veículos, como o uso de gás metano obtido com o tratamento de esgoto, conforme apresentou durante o painel do Summit o superintendente de comunicação da companhia de saneamento, Fabio Toreta. Projetos de despoluição de rios, plantio de árvores e preservação de mananciais também visam a atender à necessidade de redução das emissões e a cumprir os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, metas globais estabelecidas pela Assembleia-Geral das Nações Unidas.

Para Claudia Leite, chief purpose officer em consultoria com foco em sustentabilidade, as metas relacionadas à pauta ESG (aspectos ambiental, social e de governança) devem fazer parte da razão de existir das empresas e se difundir por toda a cadeia de produção. Precisam, ainda, mirar o futuro. O compromisso, diz Claudia, deve ser legítimo e duradouro. “Em termos de gestão, essa visão de longo prazo é essencial. Os líderes têm o papel de atuar como um farol norteando onde a companhia estará.”

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Regulação de finanças verdes no Brasil ainda depende de padronização de critérios

Em debate online promovido pelo 'Estadão', especialistas afirmaram que ainda faltam informações e esclarecimentos sobre o tema

Redação, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2021 | 15h20

Apesar dos avanços em torno da agenda de práticas sociais, ambientais e de governança (ESG, na sigla em inglês), o Brasil ainda tem muito que caminhar na regulação das chamadas finanças verdes. Na avaliação especialistas que participaram nesta terça-feira, 15, do Summit ESG, evento online promovido pelo Estadão, ainda faltam informações e esclarecimentos sobre o tema, além da necessidade de criar padrões para não sufocar as empresas com as exigências.

A consultora de sustentabilidade da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), Fernanda de Arruda Camargo, conta que, com a pandemia, muitos fundos de investimentos começaram a se autodenominar ESG. No total, são 160 fundos com esse novo título. Mas, a partir de pesquisas feitas pela associação, verificou-se uma falta de entendimento e de metodologia em relação ao assunto. 

“Descobrimos que precisamos informar muito e criar critérios para o uso do termo ESG”, diz a consultora. Segundo ela, outro ponto importante é incorporar o “S” (social) do ESG, que no Brasil é um grande problema. As empresas costumar focar mais no E, que representam as práticas ambientais. “Estamos caminhando com uma autorregulação e também com programas de diversidade.”

O professor da Coppead/UFRJ, Celso Funcia Lemme, afirma que o País caminhou bastante nos últimos dez anos neste tema, mas ainda precisa de melhorias, como maior transparência, ter mecanismos para separar o “joio do trigo” e fazer um mapeamento dos estágios que cada um está. Às vezes, diz ele, uma empresa não tem todos os resultados ainda, mas ela está no início do caminho e isso precisa ser considerado. 

Ele afirma que algumas organizações tentam dialogar para simplificar o processo sem perder conteúdo. Isso inclui o relatório de sustentabilidade Global Reporting Initiative (GRI) e SAS. A ideia é que uma informação pedida por uma organização sirva para outra, desafogando às empresas com toda documentação e exigências. 

Um exemplo prático apresentado durante o evento foram as emissões do Banco BV. Segundo o diretor executivo de Corporate & Investment Banking e Tesouraria da instituição, Rogerio Monori, hoje está sendo fechada a emissão de Letras Financeiras (LF) verde, de R$ 500 milhões. Os recursos serão destinados ao financiamento de painéis solares. 

No ano passado, o banco já havia feito a emissão de títulos verdes (green bonds), no valor de US$ 50 milhões, também voltados para o financiamento de projetos solares e eólicos. Monori afirma que hoje o BV tem o compromisso na área de sustentabilidade de gerar ativos da ordem de R$ 80 bilhões até 2030. “Vejo um engajamento cada vez maior das nossas equipes. Atualmente cada executivo tem metas a cumprir em suas áreas.”

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Competitividade das empresas já depende do compromisso com questões ligadas à sustentabilidade

Em palestra online do Summit ESG, realizado pelo 'Estadão', especialistas afirmaram que hoje o tema afeta de pequenas a grandes empresas 

Cleide Silva, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2021 | 15h43

O compromisso com questões ligadas à sustentabilidade passou a ser determinante para a competitividade do setor empresarial como um todo, das pequenas às grandes empresas e, sem ações nessa direção, ficará difícil obter financiamento e até mesmo mão de obra qualificada.

“Já é evidente que está cada vez mais mensurável o risco relacionado às questões ambientais, sociais e de governança (ESG, na sigla em inglês) para os negócios”, disse Carlo Pereira, diretor executivo da Rede Brasil do Pacto Global da ONU em painel do Summit ESG nesta terça-feira, 15, com o tema “A evolução do conceito ESG e estratégias das empresas”. O evento é realizado pelo Estadão até sexta-feira.

A especialista em sustentabilidade e SDG Pioneer pelo Pacto Global da ONU, Sonia Consiglio Favaretto, disse que “cada vez mais a sustentabilidade é condição para competir”. Segundo ela, entre os ganhos dessa estratégia estão a maior eficiência operacional, menor custo de capital, acesso a mercados e atração de talentos.

Para Onara Lima, diretora de Sustentabilidade do grupo Ambipar, as práticas efetivas trazidas pelas ações socioambientais, sempre pautadas por uma governança bem estabelecida, trazem oportunidades para as empresas. “Quando as empresas observam o quanto podem ser estratégicas dentro dessa agenda, além de mitigar riscos e gerar valor a longo prazo, elas entendem que é possível integrar o ESG com suas estratégias corporativas”, afirmou.

Para empresas que não entendem a diferença entre ESG e sustentabilidade, Onara esclareceu que a agenda que ganhou essa sigla do setor financeiro é o pilar dessas práticas, pois levou para a governança o olhar para as questões sociais e ambientais. A empresa precisa observar, nas suas operações e na sua cadeia, o que é relevante para o seu negócio e trabalhar em questões ligadas a isso.

Pereira citou o exemplo da Ambev, que atua na área de bebidas - que leva muitas pessoas a atrelarem a questão do consumo do álcool como um dos principais causadores de acidentes de trânsito.  Segundo ele, a empresa compreende isso e tem um programa global relacionado a essa questão que inclusive foi exemplo nas Nações Unidas.

A Ambev tem também programas de agricultura sustentável e projetos ligados ao consumo de água. “Ela tem o menor nível de consumo de água por litro de produto”, informa ele. Segundo ele, é importante a empresa não correr o risco de “falar o que não faz ou falar de alguma coisa que não é importante”.

Riscos e oportunidades

Sonia sugeriu que, para as empresas adaptarem seus negócios à agenda ESG tem de ter conhecimento, planejamento e liderança. Para o entendimento, ela pode trabalhar com seu time interno ou com uma consultoria. O planejamento deve ser feito pensando em cenários possíveis e diferentes.

Outro aspecto é a liderança. Presidentes de empresas e de conselhos têm de estar diretamente envolvidos, apoiando a agenda e dando direção. “Uma frase muito comum no meio empresarial é que o tom vem do topo”, ressaltou Sonia.

Para os especialistas, os ganhos de competitividade para empresas que seguem esse caminho já estão determinados pelo mercado. Pereira ressalta ainda que é preciso ter em consideração “que o negócio não mudou, o que mudou foi o mundo, pois os valores hoje são diferentes e o que a sociedade espera das empresas também é diferente.” 

Ele afirmou ainda que as grandes empresas precisam ter responsabilidade com toda sua cadeia e sugeriu que pequenas e médias empresas conhecerem a agenda de sustentabilidade do Sebrae.

Ao ser questionada por empresários sobre o que se ganha ao investir na agenda sustentável, Sonia respondeu que a resposta melhor é o que se perde se não investir. “Cada vez mais a gente aumenta a conta do ganho, e é preciso avaliar os riscos e oportunidades.

Ela citou uma pesquisa feita no ano passado sobre a estratégia para a perenidade nos negócios que trazem recomendações para integrar a agenda no negócio, entre as quais levar o tema para os administradores diretos do negócio, conectar o tema com o negócio, se comunicar com todas as partes interessadas (os stakeholdings).

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Brasil pode se tornar uma potência se aliar desenvolvimento econômico com proteção ambiental

Especialistas, em debate online promovido pelo 'Estadão', afirmam que o Brasil pode ser um grande protagonista global em 2030, caso comece a levar sustentabilidade mais a sério

André Jankavski, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2021 | 17h00

O Brasil tem chances de se tornar uma grande potência até o final de 2030, ainda mais com o crescimento das práticas sociais, ambientais e de governança (ESG) na agenda global. Porém, para isso, precisará saber como promover um progresso socioeconômico aliado com a sustentabilidade. Essa é a opinião de especialistas nesta terça-feira, 15, do Summit ESG, evento online promovido pelo Estadão.

Para Mariano Cenamo, fundador do Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam) e CEO da Amaz Aceleradora de Impacto, o país não conseguirá fazer mais frente à China, por exemplo, como um grande polo industrial, assim como não será um grande celeiro de recursos humanos, como a Índia é no momento. 

“Com a conservação da Amazônia e com a geração de riqueza, a partir da floresta amazônica, o Brasil tem todo o potencial de ser uma grande potência mundial”, diz Cenamo.

Mas, para isso, é necessário que as empresas participem mais do processo de criar melhores práticas socioambientais no país e sejam protagonistas, de acordo com o especialista. “Em um passado recente, quando o desmatamento estava em níveis baixos, perdemos uma chance muito grande de envolver mais a iniciativa privada nesse processo”, afirma.

A Vale é uma das companhias que buscam mudar esse cenário. Recentemente, a empresa anunciou que vai recuperar 500 mil hectares de florestas até 2030. Do total, 400 mil hectares fazem parte de florestas já existentes e outros 100 mil são de áreas degradadas, que estão passando por uma transformação com o apoio do Fundo Vale e uma rede de parceiros. No total, a empresa desembolsará R$ 100 milhões.

“Não queremos apenas entregar hectares plantados, mas construir um ambiente para que a bioeconomia floresça e criar o que chamamos de carbono de impacto”, diz Patrícia Daros, diretora de operações do Fundo Vale.

Ou seja, a Vale quer estruturar um modelo socioambiental que seja perene no longo prazo. Um exemplo dado pela executiva é o Café Apuí, na Amazônia. O projeto, feita em parceria com o Idesam, foi criado em 2012 e incentivou a plantação de café no município de Apuí (AM), em uma região que não é das mais recomendas para o plantio do grão dada a umidade do solo.

Porém, pesquisadores do Idesam apontaram que seria possível o cultivo em partes com mais sombras dentro da floresta, o que também ajudaria na recuperação da degradação do local. Deu certo e ainda com um café de qualidade superior à vista na maioria do país. Desde o início do projeto, com mudanças na produção, a colheita do Café Apuí saltou de 8 para 17 sacas por hectare.

Mais do que o café em si, mais de 40 famílias foram envolvidas em todo esse processo. A meta do Fundo Vale junto com o Idesam é envolver até 300 famílias nos próximos anos com o aumento da produtividade. 

“É super importante que se possa financiar iniciativas que estruturem cadeias de produção de maneira sustentável. É um exercício que estamos fazendo para alinhar uma série de componentes relacionados às pesquisas e identificar todos os desafios e potenciais”, diz Patrícia. 

Não por acaso, Cenamo quer auxiliar empresas que pensem em criar negócios sustentáveis e conectar com investidores que estão cada vez mais de olho nesse filão. Em cinco anos, a aceleradora Amaz prevê investir em 30 startups, com cerca de R$ 50 milhões de investimentos diretos na Amazônia, o que deve ajudar a preservar 5 milhões de hectares da floresta, assim como impactar diretamente 10 mil famílias que terão uma nova forma de renda. 

“Já existem fundos de venture capital querendo investir nessa área, mas não existe um pipeline organizado de startups. Por isso, estamos a procura de empresas com potencial de crescimento e escala e que tenha no modelo de negócio o valor de gerar um impacto positivo.”

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'Década do fazer' deve engajar empresas para reduzir desigualdades

Ação social precisa ir além dos salários dos colaboradores; no mercado financeiro, iniciativas melhoram reputação

Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2021 | 13h10

Cada vez mais o setor privado compreende seu papel na redução das desigualdades e investidores veem valor nas ações sociais. A pandemia escancarou a necessidade de olhar para as pessoas - que estão dentro e fora das empresas - ao mesmo tempo em que aprofundou as diferenças. Na “década do fazer”, o aspecto social se impõe e exigirá colaboração de governo, setor privado e sociedade civil para tornar o mundo mais justo.

A necessidade de integração social para superar desigualdades foi tema do primeiro painel desta quarta-feira, 16, no Summit ESG, evento realizado pelo Estadão. Participaram do debate Nelmara Arbex, sócia-líder de ESG da KPMG no Brasil, Claudia Yoshinaga, coordenadora do Centro de Estudos em Finanças da FGV Eaesp, Alexandre Sanches Garcia, pró-reitor da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap), e Ana Siqueira, sócia-cofundadora da Artha Educação.

Segundo os debatedores, há uma expectativa de fazer frente a problemas complexos, como a redução das desigualdades. E as empresas precisam entrar nessa equação, com soluções. “São centros de recursos financeiros, intelectuais e sem elas tentar resolver problemas fica cada vez mais difícil e muitas vezes impossível”, diz Nelmara. O papel social das empresas, afirma, vai além da definição de salários de seus colaboradores: é preciso olhar para a cadeia de fornecedores e a relação com a comunidade.

Outro efeito, menos tangível, diz respeito ao potencial multiplicador de ações nessa área. “Quando uma mulher é respeitada no ambiente de trabalho, se sente tratada igualmente, ela leva essa confiança para dentro da sua família, da sua comunidade. Isso volta para a sociedade e tem consequências que a gente nem consegue descrever”, completa Nelmara.

Ainda é difícil medir impactos financeiros de ações no aspecto social e definir indicadores, segundo Claudia. “Tenho receio de estudos que chegam de maneira muito definitiva dizendo que ESG (ambiente, social e governança) não traz ou traz valor.” O que não deve ser motivo para que o setor privado deixe de olhar para isso. “Várias iniciativas das empresas na vertente ESG são pré-financeiras. Toma-se a decisão hoje esperando ter resultado no futuro”, afirma a pesquisadora.

A agenda ESG se impõe para além do que é cobrado na lei. No mercado financeiro, a atenção a essas questões já tem impacto na reputação das companhias. Para Ana, a valorização de ações sociais nas empresas pelos investidores é uma “maratona” e a mudança de chave “não acontece do dia para a noite”. É preciso, segundo ela, engajamento com as empresas, o que não se resume ao voto em assembleia: diz respeito a conhecer profundamente o negócio. “Os próprios gestores e analistas devem se educar e saber cobrar das empresas essa transformação.”

Quando o tema é redução das desigualdades, as dificuldades com o ensino na pandemia trazem desafio adicional. Milhares de crianças e jovens ficaram sem escola e sem acesso à tecnologia. Tudo isso dificulta a formação de profissionais qualificados para ocupar postos nas empresas e o risco é de que famílias pobres fiquem cada vez mais pobres. A pandemia também afetou o ensino superior e até mesmo a educação executiva, necessária para a formação de lideranças dentro das corporações.

“As empresas têm papel na parte de incentivo aos seus colaboradores para o estudo. Na pandemia, isso caiu muito”, diz Garcia. A necessidade de formação também se impõe diante da automação de postos de trabalho, segundo Ana, e há um dever moral e ético de olhar para essas questões, especialmente para os mais vulneráveis, se quisermos levar o País adiante.

A responsabilidade não é só do governo. “A ‘década do fazer’ vai exigir que a gente escolha onde pode contribuir mais. Para as empresas, é uma trajetória. Não tem problema se está começando", diz Nelmara. "O importante é entender que isso faz parte da construção do futuro que queremos ter. É uma década de colaboração por soluções”, completa a sócia-líder de ESG da KPMG no Brasil.

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Empresa de moda tem papel na mudança de mentalidade do consumidor

Marcas podem ser indutoras de comportamentos alinhados à sustentabilidade e preservação do meio ambiente

Júlia Marques, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2021 | 19h05

Tornar sustentáveis as empresas de moda ainda esbarra no desafio de educar a sociedade para que se reconheça o valor de peças produzidas sob o cuidado da preservação do meio ambiente. A boa notícia é que as próprias empresas podem ser agentes da mudança de mentalidade dos consumidores. E cada vez mais cumprem esse papel.  

O Summit ESG, evento realizado pelo Estadão, trouxe nesta terça-feira, 15, discussões sobre boas práticas para a moda sustentável. Participaram do debate Mauro Mariz, diretor de Gente, Gestão e Sustentabilidade da Riachuelo; Oskar Metsavaht, fundador da Osklen e do Instituto-E e embaixador da Unesco para Sustentabilidade; e Felipe Guimarães Fleury, docente dos cursos de Negócios da Moda e Design de Moda da Universidade Anhembi Morumbi. A mediação foi de Alice Ferraz, empresária, fundadora da Fhits e colunista do Estadão.

Mariz destacou que hoje as empresas são cobradas não só pelo lucro, mas principalmente sobre como fazem esse lucro. Nesse sentido, ganham cada vez mais relevância as discussões sobre cadeias de produção sustentáveis e atenção às pessoas que participam do processo produtivo. “As empresas precisam ser agentes de mudanças, educando o consumidor.”

Para Fleury, se no passado as empresas ligadas à moda atendiam aos parâmetros ambientais por medo de multa, hoje grandes corporações já trabalham nessa lógica por convicção. Uma das principais referências na moda associada à sustentabilidade, Metsavaht pondera, no entanto, que o desenvolvimento sustentável demanda inovação e que, por isso, não ocorre de uma hora para outra. “Demora para a sociedade entender e valorizar.”

Como toda inovação, peças produzidas sob esses parâmetros podem custar um pouco mais caro. É preciso que os consumidores vejam que há um valor ligado a uma confecção que não destrói florestas e que fomenta o desenvolvimento de comunidades pobres. “Quem consome ajuda aquele pequeno povo que vive da extração ou o projeto de um biólogo. Esse é o ponto de virada”, diz Metsavaht.  

Mariz aponta ainda que o custo das peças tende a ficar menor. Segundo ele, hoje boa parte das matérias-primas são mais sustentáveis, sem que isso leve a nenhum custo adicional. Na Riachuelo, há exemplos de redução do volume de água para produzir jeans, uso de energia renovável e o apoio à capacitação de profissionais no sertão do Nordeste para atuar na costura.

Consumidores devem ficar atentos e verificar se os produtos da moda atendem, de fato, à urgência de preservação ambiental, alerta Fleury. O professor citou o exemplo da fibra de algodão, propagandeada por empresas como sustentável. A produção, no entanto, pode esconder o uso de agrotóxicos, com contaminação do solo, ou de combustíveis fósseis para o transporte.

Outro desafio, segundo os debatedores, é garantir o upcycling na moda, ou seja, o reaproveitamento de materiais. Para Fleury, o processo depende da educação dos consumidores e Metsavaht diz que a logística reversa que promove o upcycling ainda é cara. Alguns passos nesse sentido estão sendo dados, segundo Mariz, para prolongar a vida útil dos produtos. O diretor da Riachuelo citou parceria com a Liga Solidária para facilitar a doação de peças ou a reciclagem de roupas.

Mais do que nunca, segundo os debatedores, parcerias no mundo da moda têm de ganhar força para garantir a sustentabilidade dos projetos. A conexão pode ser feita com cientistas, organizações da sociedade civil e até com outras empresas. “Temos de sair da competição e ir para um modelo colaborativo”, diz Metsavaht. 

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Na economia circular, empresas devem transformar produtos em serviços, dizem especialistas

Summit ESG, evento promovido pelo ‘Estadão’, discutiu o gerenciamento de resíduos de forma sustentável, o que passa por questões culturais e mudança de mentalidade

Redação, O Estado de S.Paulo

15 de junho de 2021 | 20h09

As empresas não precisam "inventar roda" para colocar em prática a economia circular em suas cadeias de produção. Baseado na inteligência da natureza, o movimento se apoia na ideia de que os resíduos são insumos para a confecção de novos produtos. No meio ambiente, restos de vegetais consumidos por animais se decompõem e viram adubo para plantas, por exemplo. Esse conceito é chamado de “cradle to cradle” (do berço ao berço), no qual não existe a ideia de resíduo, ou seja, tudo é nutriente para uma nova rodada de produção. 

As reflexões fizeram parte do último painel desta terça-feira, 15, do Summit ESG, evento que está sendo realizado nesta semana pelo Estadão. Participaram do bate-papo Guilherme Brammer, presidente da Boomera, empresa de gestão de resíduos, e Susana Carvalho, diretora executiva da JBS Ambiental. 

De acordo com Brammer, a economia circular veio para "hackear" um sistema baseado na obsolescência programada - que estabelece o fim da vida útil de produtos - e na ociosidade. Segundo ele, a maioria dos nossos bens de consumo ficam parados a maior parte do tempo, como um micro-ondas, por exemplo. "A sensação de posse (do produto), e não o acesso ao item, sempre foi mais importante", disse. Mas, segundo ele, as empresas estão entendendo que devem "transformar produtos em serviços". O aluguel de filtros de água, as corridas de Uber e a hospedagem em apartamentos por meio do Airbnb são exemplos de modelos de negócio que evitam o desperdício de recursos.

Nesse sentido, Susana afirmou que as empresas precisam utilizar a sustentabilidade como "estratégia de inovação", tendo o compromisso de exercer o menor impacto para o meio ambiente e a sociedade. Brammer concordou: "Não é abrir mão da lucratividade e da experiência do consumidor, é fazer diferente." Segundo ele, a jornada do repensar, recusar, reduzir, reutilizar e reciclar - pilares da economia circular -, deve fazer sentido na cabeça das pessoas que acham que o ciclo findou quando o resíduo é "jogado no cesto de lixo".

Focada nisso, a JBS tem atuado em algumas frentes de conversão de resíduos em novos produtos, utilizados na própria companhia de alimentos. A empresa já está pavimentando obras com o "piso verde" - feito com embalagens plásticas de produtos in natura, que antes eram destinadas a aterros. Outra atuação da empresa está na produção de biodiesel a partir de sebo bovino e óleo de fritura - recolhido em residências de 40 cidades brasileiras. Segundo Susana, a JBS já produziu 265 milhões de litros de biodiesel a partir desses insumos. 

Além disso, a executiva disse que a empresa está em processo final de construção de uma fábrica para a produção de fertilizantes a partir de resíduos orgânicos gerados na empresa. Tudo isso faz parte da missão Net Zero, na qual a JBS se compromete a zerar o balanço de suas emissões de gases causadores do efeito estufa até 2040.

Questão cultural

De acordo com Brammer, a pandemia fez com que esses processos de implementação de medidas sustentáveis fossem acelerados dentro das empresas. No entanto, disse ele, existe uma questão cultural na sociedade e até mesmo dentro das corporações que é complicado reverter. "O mais difícil não é a ciência, a tecnologia, mas a mudança na forma de pensar." 

O presidente da Boomera ressaltou que, por esse motivo, as startups começam com uma "vantagem competitiva", uma vez que já que se estruturam em pilares da sustentabilidade. Para as empresas já formadas, ele sugere estabelecer parcerias com outras instituições, inclusive as acadêmicas e as cooperativas de catadores, que entendem do negócio. "Se abrir para a inovação social e ambiental é fundamental."

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Preocupação com sustentabilidade começa a pesar na decisão de compra dos brasileiros

Em debate online do Summit ESG, realizado pelo 'Estadão', especialistas dizem adesão das empresas à agenda ambiental, social e de governança afeta valor de empresas e marcas

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2021 | 15h35

O consumidor está atento a marcas e a empresas preocupadas com questões ambientais, sociais e de governança (ESG, na sigla em inglês) na hora de ir às compras. Recente pesquisa da consultoria Mckinsey revelou que 85% dos brasileiros dizem que se sentem melhor comprando produtos sustentáveis. Uma enquete global mostra também que 97% dos entrevistados esperam que as marcas solucionem problemas sociais.

“Ao menos na hora em que são questionados, os consumidores dizem que estão buscando produtos mais sustentáveis”, afirmou Marcus Nakagawa, professor de graduação e MBA da ESPM. Ele apresentou esses dados nesta quarta-feira, 16, durante o Summit ESG, evento online promovido pelo Estadão. No painel foram abordados os impactos no consumo causados pelo fato de uma empresa ou marca seguir ou não os princípios de sustentabilidade nos negócios. Segundo o professor, as pesquisas apontam que o consumidor começa a entender a necessidade de comprar produtos que tenham esse valor agregado.

Essa também é a percepção da CEO da Whirlpool no Brasil, Andrea Salgueiro Cruz Lima. Para a executiva, os consumidores dos eletrodomésticos que sua empresa fabrica estão cada vez mais preocupados com os princípios ESG, porém de forma intuitiva, não sabendo que estão falando isso. Os consumidores buscam empresas com compromisso social e ambiental. “Não adianta a empresa olhar para dentro, ela tem que estar preocupada em como se coloca na comunidade. Cada vez mais, o valor e a longevidade de uma empresa e de uma marca estão hoje ligados à sustentabilidade.”

A preocupação de checar se a marca ou a empresa tem propósito é nítida sobretudo entre os consumidores da geração dos millennials e da geração Z na hora de ir às compras, ressaltou Andrea. “Para essas gerações mais jovens, esse é um fator decisivo.”

Essa percepção de busca de propósito na hora de levar um produto para casa também foi detectada por Hans Christian Temp, membro da Organização Cidades Sem Fome. Ele citou como exemplo os resultados obtidos em um projeto, iniciado em 2004, de horta urbana na periferia da cidade de São Paulo para produção de alimentos orgânicos. “Percebemos que os consumidores de outras regiões da cidade querem alimentos socialmente sustentáveis, que gerem impacto social onde atuam”, disse Temp. Também a sua percepção é de que as gerações mais jovens, sejam das classes A ou C, estão mais atentas a esses princípios quando vão consumir produtos ou marcas.

Apesar do avanço da preferência do consumidor por produtos sustentáveis, os participantes do painel apontaram obstáculos. Um deles é o preço desses produtos que, muitas vezes, é mais elevado em relação aos similares. Andrea, da Whirlpool, reconheceu que o preço sempre é decisivo no consumo na sociedade brasileira, marcada por grande desigualdade social. No entanto, ela pondera que, para parte da população mais informada, essas outras questões passam a ter um peso tão ou mais importante quanto o preço na escolha de um produto.

Outro obstáculo diz respeito ao discurso das empresas: elas realmente fazem o que dizem em relação à sustentabilidade ou se trata apenas de uma narrativa para conquistar o consumidor e vender mais? “Tem muita empresa se aproveitando”, alertou Nakagawa, da ESPM. Para evitar escolhas erradas, ele recomendou  que o consumidor pesquise na internet para se informar sobre a atuação das empresas junto a órgãos isentos. Outro caminho seguro, na sua opinião, é observar selos de certificação que os produtos carregam nas embalagens.

Investidores 

O movimento que desponta entre consumidores também ganha força entre investidores. “Os investidores estão alinhados com os consumidores”, afirmou Frederic de Mariz, head para o setor financeiro e ESG no banco de investimento UBS BB. Ele ressaltou que o processo demorou para chegar nesse ponto, mas veio com força.

Isso é o que mostra um estudo com mais de 45 mil investidores em cinco países feito pelo banco, onde 70% dos investidores explicaram que gostariam que seus investimentos estivessem alinhados com empresas que sigam seus valores, isto é, os princípios ESG.

Do lado do consumo, o estudo revelou que no mundo 40% das pessoas deixaram de comprar marcas que não estavam alinhadas a esses princípios. No Brasil, esse resultado foi ainda maior, chegou a 47%, observa Mariz. “O brasileiro está olhando para essa temática”, afirmou.

Investir em empresas que seguem os princípios ESG pode ser também um bom negócio. “É inteligente do ponto de vista financeiro”, frisou Mariz. Estudo publicado pela Universidade de Nova York revelou que 58% das empresas que seguem os princípios de sustentabilidade registraram melhora nos resultados operacionais e na performance financeira.M

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Pandemia desafia gestão da saúde e expõe urgência de pauta ambiental

Evitar novos vírus e doenças depende da forma como lidamos com a natureza; risco é de que retorno à normalidade tire foco de problemas

Redação, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2021 | 20h05

Só agora o mundo começa a enxergar uma luz no fim do túnel para superar o período mais agudo da pandemia de covid-19. E os países ainda devem sofrer uma série de consequências da doença no curto e médio prazo. O contingente de pessoas com sequelas e os problemas de saúde decorrentes de outras enfermidades não tratadas durante o isolamento são apenas algumas delas.

No Brasil, tudo isso ocorre em um contexto de redução do orçamento para a saúde e desarticulação entre os entes federativos. Enquanto se tenta arrumar a casa devastada pelo vírus, não se pode deixar de lado o trabalho para evitar o surgimento de novas pandemias. Cientistas já afirmam que os desequilíbrios ambientais podem estar por trás das infecções - o que impõe urgência a uma agenda de preservação ambiental e desenvolvimento de ciência e tecnologia.

No último painel desta quarta-feira no Summit ESG, evento realizado pelo Estadão, especialistas discutiram os caminhos para garantir qualidade na atenção à saúde e destacaram mudanças induzidas pela pandemia. Participaram do debate Arthur Chioro, ex-ministro da Saúde e professor na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Edi Souza, diretor executivo do Hospital Sírio-Libanês, Gonzalo Vecina, médico sanitarista e professor da Faculdade de Saúde Pública da USP, e Raquel Giglio, vice-presidente de Saúde e Odonto da SulAmérica.

“Relações interfederativas para colocar o SUS (Sistema Único de Saúde) para funcionar sempre foram desafiadoras. Hoje vivemos um momento em que essas relações estão praticamente implodidas”, afirmou Chioro. O descompasso entre ações municipais, estaduais e federais cria entraves até mesmo para o avanço da vacinação no Brasil e, segundo o ex-ministro, falta coordenação nacional. Outro problema, de acordo com Vecina, é a nossa “capacidade de esquecer”. Se hoje há atenção à desigualdade de acesso aos serviços de saúde, escancarada pela pandemia, com o retorno à normalidade, o risco é de que essas questões saiam do foco.

O País já começa a se deparar com o desafio de tratar pacientes com sequelas da covid-19, aumento de transtornos mentais e as consequências da falta de acompanhamento de doentes crônicos durante o isolamento. “Um ponto que tem nos preocupado demais são exames periódicos preventivos”, diz Raquel. Segundo a vice-presidente de Saúde da SulAmérica, houve redução de 60% dos exames para detecção de câncer de mama e colo de útero.

Pacientes diagnosticados tardiamente tendem a pressionar mais os serviços de saúde e há ainda demanda maior por atendimentos para transtornos mentais. A telemedicina, que explodiu na pandemia e deve perdurar, pode desafogar o fluxo, segundo Raquel. As consultas remotas, antes realizadas sob forma de orientações, passaram de 500 por mês para 1,5 mil por dia durante a emergência sanitária na SulAmérica. Grande parte dessas consultas não demanda atendimento presencial subsequente.

Outro ponto para fortalecer a atenção à saúde é entendê-la de forma mais ampla, ou seja, algo que vai além de apenas diagnosticar e tratar doenças. Segundo os especialistas, o paciente precisa ser visto como agente de sua própria saúde. Incentivar hábitos saudáveis e oferecer condições para que a população cuide da alimentação e possa fazer atividades físicas tem consequência direta na redução da incidência de doenças e consumo de medicamentos.

O cuidado ao meio ambiente também melhora a saúde, embora as duas áreas ainda sejam vistas de forma dissociada. Souza lembrou que a poluição do ar causa 50 mil mortes por ano no Brasil e onera os cofres públicos. Para diminuir os impactos ao meio ambiente, o Sírio-Libanês tem as metas de reduzir em 50% as emissões de gases de efeito estufa até 2030 e em 100% até 2050, segundo detalhou o diretor executivo do hospital.

A saúde passa, ainda, por investimentos em saneamento básico. E evitar o surgimento de novos vírus, que podem paralisar o mundo outra vez, depende de ações ambientais urgentes. “Se continuarmos destruindo o meio ambiente, vamos continuar tendo pandemias", diz Vecina. "Já tivemos gripe aviária, suína, gripe do camelo, um monte de eventos. Podem não ter tido a mesma magnitude do Sars-Cov-2, mas foram importantes e preocupantes do ponto de vista de saúde pública”, completou.

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ESG deixa de ser uma opção para ser obrigação no dia a dia da empresa, apontam especialistas

Temática precisa deixar campo da intenção para ser prática e estar na agenda do mais alto nível de gestão da companhia, segundo participantes de painel online do Summit ESG, realizado pelo Estadão

Fernanda Guimarães, O Estado de S.Paulo

17 de junho de 2021 | 11h14

Questões relacionadas às questões ambientais, social e de governança (ESG, pela sigla em inglês) deixaram de ser uma opção para as empresas conduzirem seus negócios para ser um ponto crucial, tanto para a perenidade da empresa quanto para responder a uma demanda cada vez maior da comunidade e investidores, que têm cobrado uma postura mais sustentável do mundo corporativo. Para especialistas, a pandemia ajudou a colocar em evidência a necessidade de as empresas trabalharem esses pontos, mas concluem que muitas companhias ainda precisam sair do campo das intenções para colocar o ESG em prática. Para isso é relevante que o tema esteja sobre a mesa da mais alta cúpula da administração.

O vice-presidente de Relações Institucionais e Sustentabilidade da Vivo, Renato Gasparetto, afirma que as questões ESG antes eram, de fato, mais na esfera ativista, mas que hoje passaram a fazer parte da “jornada de efeitos práticos”. “No caso da Vivo o ESG passou a ser um diferencial de quais investimentos a empresa irá fazer ou não”, comenta o executivo, durante o Summit ESG, evento online promovido pelo Estadão.  “O ESG deixou de ser uma opção e passou a ser obrigatório para a perenidade do negócio”, aponta.

A diretora da Global Reporting Initiative (GRI) no Brasil, Glaucia Terreo, destaca que a grande dificuldade das empresas ao fazerem seus relatos de sustentabilidade é entender o objetivo desses documentos que trazem informações ESG. Essa elaboração deve se entendida como uma adequação da empresa ao atual contexto do mercado e da sociedade, no qual o próprio mercado financeiro, incluindo investidores, cobram esse tipo de postura das empresas. A GRI é uma organização internacional que traz diretrizes para as empresas elaborarem documentos que trazem as informações sobre questões como mudança climática e direitos humanos.

“O mercado está trabalhando com essas informações. A empresa tem de entender que trabalhar seus impactos e controlar a questão planetária e ser competitiva ao mesmo tempo”, afirma a especialista, lembrando que as questões relacionadas à temática ESG precisam estar sob o guarda-chuva da mais alta cúpula da corporação, ou seja, o Conselho de Administração.

A visão, ainda, é de que a pandemia escancarou a necessidade de toda a comunidade e empresas sobre as questões ESG, algo que poderá acelerar medidas práticas em torno do assunto. “É preciso sair do estado de alerta e agir. A pandemia trouxe um sinal de alerta sobre nossa interdependência e vulnerabilidade e a consciência de que não estamos acima da natureza. Esse movimento ESG existe há décadas, mas estavam separado, difuso e segregado”, comenta. “É uma janela de oportunidade que não podemos perder.” 

Ponto muito relevante na questão ESG, a diversidade, segundo a economista e consultora independente para inclusão Dulcejane Vaz, é profunda e precisar estar alinhada ao propósito da empresa.  

Segundo a especialista, para o movimento de diversidade avançar é preciso criar aspirações dentro da empresa. “Diversidade gera criatividade, que vai gerar inovação se houver inclusão de fato”, diz. As cotas utilizadas para compor cargos por mulheres e negros, por exemplo, são, segundo ela importantes, mas é uma medida transitória, de forma a se fazer uma compensação histórica.

Desafio no setor público. O tema ganhou os holofotes no mundo corporativo, mas precisa também estar na agenda dos governos, incluindo as esferas municipais, estaduais e federal. O secretário executivo do Iclei - Governos Locais pela Sustentabilidade - na América do Sul, Rodrigo Perpétuo, aponta que os governos precisam conhecer esses impactos de forma que esse tema possa ter uma apropriação política da centralidade que a sustentabilidade precisa ter dentro da política pública. 

“Por isso é importante em  transformar esse compromisso voluntário em medidas. É importante gerar ou adaptar leis incorporando a sustentabilidade como critério, de forma que o tema consiga atravessar o tempo dos governos”, destaca.

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