?Governar a Argentina é como dançar com a mais feia?

?Sola, fané y descangallada, la vi de madrugada salir de un cabaret? (?sozinha, desmilingüida e acabada, a vi de madrugada sair do cabaré?). A letra do emblemático tango ?Esta noche me emborracho? (?Esta noite eu me embebedo?), de Enrique Discépolo, foi relembrado nesta terça-feira como uma metáfora da Argentina atual por diversos comentaristas econômicos, depois que, em seu programa de rádio semanal, o presidente Eduardo Duhalde admitiu que governar a Argentina era como ?bailar con la más fea? (?dançar com a mais feia?).Mas ?lá más fea? permitiu a Duhalde ter nesta terça-feira mais um dia de relativo alívio cambial. O dólar, cuja cotação na véspera havia oscilado entre 2,10 e 2,20 pesos, nesta terça-feira começou o dia em 2,10 pesos. Depois, a moeda americana sofreu uma leve queda, e a jornada terminou com uma cotação que, em parte das casas de câmbio, fechou em 2,00 pesos, embora em outras tenha se encerrado em 2,05 pesos.?Prova de maturidade?As profecias pessimistas de um dólar cotado a 3,00 pesos não se concretizaram ao longo do dia. As filas na frente das casas de câmbio eram grandes, mas, ao contrário da segunda-feira, as ruas da city financeira portenha não ficaram entupidas pelo imenso fluxo de pessoas tentando vender ou comprar dólares.Duhalde sustentou que o dólar diminuirá ?mais ainda? e flutuará ?entre 1,40 peso e 1,70 peso?. Segundo o presidente, a falta de uma disparada da moeda americana nestes primeiros dias ?é uma prova de maturidade da população?. O representante do ministério da Economia no Banco Central, Guillermo Nielsen, disse que o governo estava ?aliviado? pelo comportamento do mercado cambial.Nielsen preferiu não cantar vitória e disse que é conveniente esperar pela evolução do dólar nos próximos dias. No entanto, afirmou que o governo estava ?otimista?. Alfredo Piano, diretor da Casa Piano, uma das mais tradicionais casas de câmbio da Argentina, declarou que milhares de argentinos estão vendendo os dólares que haviam guardado, ?porque precisam comer?.Por este motivo, Piano considera que o mercado ficará abastecido continuamente com a moeda americana, o que impediria uma disparada da mesma. Segundo ele, a oferta está equilibrada com a demanda.?Nervosismo?Em seu programa de rádio, Duhalde também explicou que o governo ?está persuadindo? os comerciantes a não implementarem um aumento do preços de seus produtos. Segundo ele, se os aumentos forem ?exagerados?, o governo intervirá. No entanto, o presidente admitiu que existe ?nervosismo? entre a população sobre a possibilidade de que os preços subam.Para evitar o desabastecimentos de produtos de setores críticos para a população, como os medicamentos, o governo autorizou os importadores a enviar suas divisas ao exterior em um prazo de 45 dias. Todos os outros setores enfrentam restrições ao envio de remessas ao exterior.A lebre e a tartarugaO vice-ministro da Economia, Jorge Todesca, fez um alerta aos empresários argentinos que remarcarem: ?Se aumentarem os preços de alguns produtos sem justificativa, teremos que diminuir as tarifas alfandegárias para a importação, de forma que exista maior concorrência?.O comentarista econômico Osvaldo Granados é cético: ?O dólar é como a mítica lebre da fábula, pois corre disparado no começo, mas logo pára. Mas os preços são como a tartaruga, começam lentamente, mas nunca páram??.?Condenado ao sucesso?O presidente Duhalde reuniu-se nesta terça-feira com as principais lideranças sindicais, empresariais e clericais do país para o lançamento da ?mesa social trabalhista e produtiva? do ?Diálogo Argentina?, uma ?mesa de consenso? com a qual o governo pretende tirar o país da grave crise social, econômica e financeira na qual está mergulhado.Duhalde defendeu a comunhão da política com os trabalhadores e empresários e afirmou que possui esperanças de sair rapidamente da recessão que assola o país há três anos e meio. ?O pensador brasileiro Hélio Jaguaribe diz que a Argentina é um país condenado ao sucesso, e eu acho que ele tem razão. E acho que teremos esse sucesso o mais rápido possível. Isso é o que a população está esperando?, disse Duhalde, durante a cerimônia realizada na Casa Rosada, a sede do governo.O vice-ministro Todesca declarou que o governo começará em breve uma série de negociações com os EUA e o FMI para que o setor privado possa reestruturar a dívida de US$ 40 bilhões que possui.Leia o especial

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