Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

'Governo agiu bem ao focar na infraestrutura para gerar empregos', diz Pastore

Professor da USP e especialista em trabalho critica a demora na aprovação final das várias medidas que o governo vem tomando para conter o avanço do desemprego no País e a elevada taxa de juro

Francisco Carlos de Assis, O Estado de S.Paulo

27 Dezembro 2016 | 13h34

Um dos maiores especialistas em relações de trabalho e recursos humanos do País, o professor da Universidade de São Paulo (USP) José Pastore defendeu a estratégia do governo para estimular a criação de vagas. No ano de desemprego recorde, em que o País observou, até outubro, 751.816 vagas fechadas, Pastore defendeu o foco principal do governo para geração de emprego no investimento em infraestrutura.

"Eu acho que vai exercer um impacto fantástico no mercado de trabalho quando os canteiros de obras começarem a ser abertos", disse. Segundo Caged, no acumulado dos últimos 12 meses até outubro, o País registrou o fechamento de 1.500.467 vagas formais.

Em entrevista exclusiva à Broadcast, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado, Pastore critica, no entanto, a demora na aprovação final das várias medidas que o governo vem tomando para conter o avanço do desemprego no País e a elevada taxa de juro, que ainda estimula ganhos via mercado financeiro em detrimento do investimento em produção. 

O especialista disse também que a reforma da Previdência é uma das mais necessárias para a economia brasileira e também para a juventude, mas tem dúvidas sobre a possibilidade de aprovação da medida sem grandes alterações pelo Congresso. Leia abaixo os principais trechos da entrevista.

A redução de 10% sobre o FGTS nas demissões sem justa causa vai gerar emprego?

Eu acho que é uma medida que poderá ter algum efeito. Mas será pequeno e contraditório porque num momento como esse, de muito desemprego, acaba facilitando a dispensa. Estes 10% foram criados para tapar lá atrás um buraco no Fundo de Garantia. E esse buraco foi tapado há muito tempo.

Então esse porcentual já poderia ter sido eliminado?

Os 10% já cumpriram a sua missão e devia já ter sido eliminado de uma vez por todas e não à base de 1 ponto porcentual ao ano, como propôs o governo. Era necessário que fosse eliminado de uma só vez, mas em momento bom.

Como o senhor viu o pacote do governo de reformas microeconômica como um todo?

O pacote é um conjunto de medidas na direção de estimular a economia e isso poderá, é claro, ter algum efeito na geração de empregos. Porém, o que o governo definiu como foco principal de geração de emprego foi infraestrutura. Eu acho que isso exercerá um impacto fantástico no momento em que os canteiros de obras começarem a ser abertos.

Em sua opinião o governo está na direção correta?

O governo tem tomado várias medidas para chegar neste ponto de abrir os canteiros de obras. Mudou a questão da Petrobras que já não é mais a única, as regras de concessão do Pré-sal já estão sendo modificadas, a própria Lei de Concessões e os critérios de concessões já estão bem encaminhados, além das regras de leniência, e estabeleceu um realismo tarifário em concessões.

São medidas eficazes?

Tudo isso é muito importante para que os investidores se interessem por investir em infraestrutura. Tem um impacto fantástico porque gera emprego depressa, assim que abre o canteiro. É diferente de uma indústria de transformação que leva cinco anos para ser construída e só gera empregos quando começa a funcionar. Segundo porque a cadeia produtiva da infraestrutura é enorme. Estimula a indústria, o comércio e serviço local.

Por que as coisas não estão acontecendo?

Porque apesar de o governo ter escolhido muito bem o foco da infraestrutura e tomado as providências necessárias para encaminhar isso, a aprovação final destas medidas está demorando muito.

E o juro real que aumenta na medida que a Selic cai menos que a inflação?

A questão da taxa de juro é crucial. A expectativa é que com o equilíbrio das contas públicas trazido pelo ajuste você tenha uma pressão menor por juros e a Selic passe a cair a uma velocidade maior. É claro que o investidor vai estar sempre de olho. Entre investir em uma obra e ganhar dinheiro no mercado financeiro ele vai ganhar dinheiro no mercado financeiro sem correr riscos.

Que avaliação o senhor faz da reforma da Previdência como está sendo proposta?

A Previdência é uma das maiores necessidades da economia brasileira e da juventude também. Ao mesmo tempo é o maior desafio político. Temos que entender bem o que está sendo proposto nesta medida tão complexa que é a PEC da Previdência para depois podermos fazer uma pedagogia adequada junto a todos os agentes econômicos e sociais. Para avaliarmos se vamos apoiar ou não apoiar a Reforma da Previdência.

O Senhor acha que a proposta passa sem grandes alterações no Congresso?

Eu tenho dúvidas. Acho que em todos os países em que foi proposta uma reforma da Previdência ela foi bastante negociada no parlamento e não será diferente aqui no Brasil.

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