Governo argentino suspende exportação de carne, diz fonte

Setor desmente os aumentos de preços e fala até em desabastecimento durante o Natal e o Ano Novo

Marina Guimarães, da Agência Estado,

16 de dezembro de 2009 | 13h46

O setor de carne bovina da Argentina voltou a ser foco de pressões do governo Cristina Kirchner. Em meio à discussão sobre um novo aumento de 25% no preço da carne, os exportadores denunciam que o Escritório Nacional de Controle Comercial Agropecuário, Oncca, suspendeu as exportações do produto. Nesta terça-feira, 15, procurado pela Agência Estado, o órgão negou a medida. Porém, na manhã desta quarta-feira, 16, uma fonte oficial explicou que a Secretaria de Comércio Interior deu ordens para engavetar, desde a última segunda-feira, 14, as licenças aos exportadores, "para evitar os abusos de preços nas festas de fim de ano". A fonte explicou que a suspensão "não é oficial porque não há um anúncio formal, mas está sendo aplicada".

 

O setor desmente os aumentos de preços e fala até em desabastecimento durante o Natal e o Ano Novo. A polêmica cresce em torno do principal alimento consumido pela população. Na segunda-feira, frigoríficos e açougues sofreram blitz dos inspetores do secretário de Interior, Guillermo Moreno, que recordaram os preços tabelados pela Secretaria e ameaçaram a indústria com o fechamento das exportações se as altas forem aplicadas.

 

O vice-presidente da Associação de Proprietários de Açougues de Buenos Aires, Alberto Williams, reconheceu que os preços aumentaram e só devem ceder depois das festas. "Teríamos que terminar o ano sem grandes aumentos porque o mercado está muito bem abastecido. Mas o setor da produção começou a dizer que ia faltar carne e, isso, provocou a alta", disse Williams em entrevista à rádio La Red. Ele acusou os produtores e a indústria pela alta ao consumidor. "Há algumas semanas que a meia rés vem subindo e os comerciantes absorveram tudo o que podiam, mas no balcão o preço se elevou somente entre 10% a 15%", minimizou.

 

O ministro de Economia, Amado Boudou, por sua vez, reconhece que "é difícil estabelecer em qual ponto da cadeia da carne se encontra o problema do aumento de preços".

 

Desabastecimento

 

O presidente da Confederação de Associações Rurais de Buenos Aires e La Pampa (Carbap), Pedro Apaolaza, alerta que a situação vai piorar. "Se o governo não mudar as políticas para o setor agropecuário, não haverá carne, nem trigo, nem milho, nem girassol suficientes para atender a demanda interna e os preços vão disparar", afirmou em entrevista à rádio Continental. "A situação vai se agravando cada vez mais e o mercado sofrerá com desabastecimento", completou, afirmando que a demanda aumenta em função das festas natalinas e "não há carne para atendê-la porque há uma crise no sistema".

 

O polêmico secretário Moreno decidiu "apertar" os frigoríficos exportadores para forçar uma baixa nos preços dos açougues. Por isso, as exportações devem ficar suspensas por, pelo menos, após o período de festas, conforme estimativa do presidente da Câmara da Indústria e Comércio de Carne da República Argentina (Ciccra), Miguel Schiariti. Em entrevista à imprensa, ontem, ele anunciou também que a indústria entrou na Justiça contra a forma do governo de dividir a cota Hilton entre os exportadores.

 

Moreno se reúne com os representantes do setor todas as sextas-feiras para "conferir" se a tabela está funcionando e se o mercado está abastecido. As estimativas das fontes ouvidas são de que depois de amanhã, o assunto seja amplamente discutido e a suspensão das exportações seja oficializada com algum tipo de anúncio. Em 2009, o principal indicador de preços do boi gordo comercializado no Mercado de Liniers, o novilho, acumula uma alta de 30%. Somente nos dois últimos meses, esse aumento foi de 16%, conforme os operadores de Liniers.

 

Mas os operadores também explicam que desde que a tabela de preços máximos foi fixada por Moreno, há cerca de três anos, a maioria dos negócios é feita no "mercado negro", fora de Liniers, onde os preços são mais elevados. O forte controle do governo sobre o setor de carne, que também tem cotas de exportação, é parte de um esforço para evitar uma disparada de preços. A Argentina possui o maior consumo per capita de carne bovina do mundo, cerca de 73 quilos anuais, e o produto tem uma peso elevado nos índices de inflação.

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