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'Governo Bolsonaro tem de entender que investidor não aplica olhando em Twitter', diz gestora

Responsável pelos ativos no Brasil da holandesa Robeco, uma das maiores casas de investimentos da Europa, Daniela da Costa-Bulthuis diz que governo brasileiro precisa se comunicar melhor com a comunidade internacional

Entrevista com

Daniela da Costa-Bulthuis, gestora da Robeco para Brasil

Mariana Durão, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2019 | 09h00

RIO - Uma das maiores casas de investimentos da Europa, com € 186 bilhões em ativos sob gestão, a holandesa Robeco vê com bons olhos o avanço da agenda de reformas no Brasil, parte de sua estratégia para mercados emergentes. O otimismo do lado das medidas econômicas, entretanto, esbarra na preocupação com a atuação do governo Jair Bolsonaro em campos como o ambiental, diplomático e institucional.

Para a gestora da Robeco para Brasil, Daniela da Costa-Bulthuis, o ponto central é que o atual governo precisa se comunicar melhor com a comunidade internacional. “Tem de entender que investidor institucional não investe olhando em Twitter. A visão que a Europa tem do Brasil hoje é a pior possível."

O rumo da questão ambiental está no topo da lista de pontos vistos com cautela pelos investidores estrangeiros. Líder em investimentos integrados ao desenvolvimento social, ambiental e de governança (ESG, na sigla em inglês), a gestora tem em seu site uma lista de empresas nas quais tem restrições de investimento por problemas nessas áreas. Entre elas está a brasileira Vale, em razão das tragédias com as barragens da Samarco em Mariana e da mina do Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG).

“Se o Brasil não levar a sério a questão ambiental, o que vai acontecer é que o preço dos ativos vai ficar mais barato, porque os investidores vão descontar mais”, alerta Daniela.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista:

Em análise recente a Robeco comparou a aprovação da reforma da Previdência na Câmara ao Plano Real em importância.

A reforma da Previdência é fundamental para a sustentabilidade das contas públicas. O sistema brasileiro é muito antiquado e caro. Insustentável. O governo não tem capacidade de investir. Tudo que entra de impostos vai para pagar a Previdência. Não é que resolve o problema do crescimento (a reforma), mas é para tirar da rota de colisão.

Há sinais de melhora na economia brasileira?

Acho que o crescimento vai voltar na medida em que se recuperar a confiança, mas demora. O Brasil tem um problema de produtividade séria. Ainda é um país muito burocrático, onde a tributação de empresas é muito perniciosa. A reforma tributária é importante para investimento, mas só deve sair no ano que vem.

Há espaço para otimismo quanto ao País?

A gente tem (investido no País) mais do que o índice de referência (MSCI Emerging Markets) tem, então estamos otimistas. Nossa visão é que o Brasil seguindo com a agenda de reformas, seja tributária, de desburocratização, privatizações, do arcabouço regulatório, vai gerar muita oportunidade de investimento. As questões de desempenho ambiental, social e de governança é que preocupam, assim como a comunicação do governo.

A sra. se refere às declarações do presidente Jair Bolsonaro?

O presidente foi legitimamente eleito, está passando reformas no Congresso, mas precisa melhorar a comunicação. O governo não sabe mais se comunicar por meios oficiais, só por redes sociais. É inaceitável. As questões diplomáticas estão começando a ficar sérias. O ponto central é: o governo precisa se comunicar melhor com a comunidade internacional. Tem de entender que investidor institucional não investe olhando em Twitter. A visão que a Europa tem do Brasil hoje é a pior possível.

Estrangeiros já tiraram mais de R$ 20 bi da bolsa este ano, mas participaram de IPOs e ofertas subsequentes...

Nós participamos de algumas ofertas de empresas brasileiras. Essa questão do outflow (saída de recursos) tem mais a ver com o risco. O cenário internacional está muito ruim para o Brasil, com a China desacelerando e em conflito com os Estados Unidos. Isso gera incerteza. A situação na Argentina também acaba influenciando o Brasil. Não acho que a contaminação vá tanto para a economia real, mas precisamos ficar de olho no dólar.

A Robeco viu a lista de privatizações? Pode participar?

Nossa estratégia não é comprar controle (de empresas). A gente espera é que essas empresas continuem listadas ou sejam compradas por bons grupos, que invistam no País e gerem crescimento econômico. O setor de infraestrutura, transporte, energia, é onde vejo mais oportunidade. Toda essa parte de comércio eletrônico e pagamentos também.

Há uma crítica de que o governo está vendendo participações e não privatizando, o que significa que o dinheiro não vai para o Tesouro.

Concordo que o melhor modelo seria o que abatesse dívida, mas melhor privatizar do que não fazer nada. A privatização da BR Distribuidora foi um sucesso. Acho que tem dois sentidos em privatizar: levantar receita para abater dívida, mas também melhorar a parte operacional das empresas. Acho que o intuito do (Ministro da Economia) Paulo Guedes com essa agenda é melhorar a produtividade. É um dos pontos que me deixam mais otimista com o Brasil.

Qual a maior preocupação do investidor estrangeiro quanto ao Brasil?

A grande questão que está sendo discutida é a ambiental. Se você acha que um país tem mais risco porque não está considerando questões ambientais importantes para a comunidade global, não está levando a sério direitos humanos, e isso pode no futuro gerar perdas econômicas, você põe uma taxa de desconto maior. Se o Brasil não levar a sério a questão ambiental, o que vai acontecer é que o preço dos ativos vai ficar mais barato, porque os investidores vão descontar mais.

Deve ter piorado com a crise na Amazônia...

Demoraram a agir, mas tomaram providências (de combate aos focos de incêndio). Só que essas providências não podem ser paliativas. Ele (Bolsonaro) tem de divulgar com clareza qual vai ser a política ambiental. Tudo que a gente viu até agora foi no sentido de reduzir multas, interferência em órgãos de controle.

A Robeco leva em conta o sócio-ambiental nas decisões de investimento?

Somos líderes europeus e globais em investimento com integração de ESG (ligado a desenvolvimento social, ambiental e de governança). Tem aspectos no Brasil que terão que ser endereçados de forma clara. Como vai ficar o tratamento de minorias, índios, mulheres, direitos humanos. A gente quer ver esses direitos garantidos. Estamos em um projeto para elevar o porcentual de mulheres nos boards (conselhos de administração), ainda com predominância masculina branca muito forte. Diversidade é o ponto.

Pode falar mais sobre essa questão da interferência?

Vimos primeiro a interferência no Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), que trata de crimes financeiros e impacta a governança do mercado. Foi do Ministério da Justiça para o Banco Central. A questão é: vai ser efetivo como era antes? Vimos órgãos de controle ambiental esvaziados, mudanças na Polícia Federal. A segurança das instituições é um foco de preocupação.

Algum outro ponto?

O meio ambiente é o que mais chama atenção do lado negativo, enquanto em governos passados era a governança. Havia muita interferência, principalmente em estatais. A história triste da Petrobrás ainda é recente.

A ingerência governamental acabou?

Acho que esse governo está procurando não interferir nas estatais, mas o episódio do preço dos combustíveis (em que o presidente Bolsonaro vetou um aumento do preço do diesel pela Petrobrás) foi triste. O ponto positivo foi que o governo fez a interferência e depois voltou atrás. Não é minha maior preocupação. O ministro da Economia é liberal e não tem perfil de afetar a gestão de estatais. Já o presidente fala para o eleitorado dele, mas, às vezes, esquece que tem de falar também para a comunidade internacional.

 

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