REUTERS / Kevin Lamarque
REUTERS / Kevin Lamarque

Governo brasileiro não foi notificado de sobretaxa americana ao aço e ainda define estratégia

País deve tentar convencer os Estados Unidos de que o Brasil não manipula o câmbio e demonstrar que as exportações são complementares à economia norte-americana, e não predatórias

Lorenna Rodrigues, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2019 | 18h27

BRASÍLIA - Pego de surpresa pelo Twitter do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, às 8h da manhã em que prometia sobretaxar o aço brasileiro, o governo brasileiro ainda não recebeu nenhuma comunicação oficial sobre o assunto. Em reuniões ao longo do dia, representantes do Itamaraty e do Ministério da Economia ainda tentam traçar uma estratégia para tratar o problema.

O governo procura entender como a sobretaxa será aplicada e qual o impacto da medida. Os primeiros contatos com “interlocutores de Washington”, como anunciou o governo em nota, serão feitos via diplomacia.

Há dois pontos que devem ser esclarecidos: o primeiro, é tentar convencer os Estados Unidos de que o Brasil não manipula o câmbio, ao contrário do que alegou Trump na rede social. Esse foi o tom também utilizado pela indústria brasileira. Tanto o Instituto Aço Brasil quanto a Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulgaram nota em que expressaram sua “preocupação” com o fato de Trump acusar o governo brasileiro de desvalorizar o real e reforçaram o argumento de que o câmbio é livre no Brasil.

“O Brasil não manipula o câmbio de jeito nenhum. Quando o Banco Central faz uma intervenção, é justamente no sentido de preservar a estabilidade do real e mantê-lo valorizado. A indústria não tem interesse em um câmbio desvalorizado artificialmente”, afirmou o diretor de Desenvolvimento Industrial da CNI, Carlos Abijaodi.

Do início do ano até a última sexta-feira, 29, o dólar já subiu 9,43% frente ao real, barateando as exportações brasileiras e aumentando a competitividade dos produtos do país lá fora. Somente em novembro, a alta foi de 5,73%.

O real foi a quarta moeda que mais perdeu valor em relação ao dólar no mês de novembro, segundo levantamento da Austin Rating, com uma desvalorização de 5,2%. A moeda brasileira ficou atrás somente do bolívar soberano, da Venezuela (-36,1%), do kwacha, da Zâmbia (-9,3%), e do peso do Chile (-8,1%).

O ranking considera as variações de 121 moedas no mundo. No acumulado no ano, o Brasil ocupa a 13ª posição. A liderança é da Venezuela (-98,3%), seguida pela Argentina (-37,2%).

Outro ponto a ser atacado pelo governo brasileiro é tentar demonstrar que as exportações brasileiras são complementares à economia norte-americana, e não predatórias. Este foi o mesmo argumento utilizado pela equipe do ex-presidente Michel Temer quando da primeira ameaça de sobretaxa ao aço, feita pelo governo norte-americano no ano passado.

A maior parte do aço vendido pelos Estados Unidos é do produto semimanufaturado utilizado como insumo pela indústria norte-americana. Foi por pressão da própria indústria local que o governo norte-americano impôs uma cota livre da sobretaxa, que acabou sendo mais do que suficiente para garantir que todas as exportações de aço brasileira não fossem taxadas desde então.

Neste ano, até novembro, as exportações de semimanufaturados de ferro e aço para os Estados Unidos somam US$ 2,57 bilhões, valor 13,5% menor do que no mesmo período do ano passado. O produto representa 9,3% das vendas para o país.

Oficialmente, o governo brasileiro disse apenas que está “em contato com interlocutores em Washington” após ter tomado conhecimento da declaração de Trump. Não especificou que interlocutores são esses.

O governo trabalhará para defender o interesse comercial brasileiro e assegurar a fluidez do comércio com os EUA, com vistas a ampliar o intercâmbio comercial e aprofundar o relacionamento bilateral, em benefício de ambos os países”, afirma nota, assinada pelos ministérios das Relações Exteriores, Economia e Agricultura.

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