Alexander Ingram/The New York Times
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Governo britânico ‘paga a conta’ para recuperar economia

Com incentivo oficial, população que fez refeições em restaurantes, bares e pubs no mês de agosto ganhou desconto de 50% no preço

Eshe Nelson, THE NEW YORK TIMES

30 de agosto de 2020 | 05h00

Quando o governo britânico disse às pessoas que elas não precisariam mais ficar em casa, foi preciso uma narrativa convincente para fazer todos saírem e, principalmente, gastar dinheiro. A resposta: comida pela metade do preço

Durante o mês de agosto, o governo ofereceu desconto de 50% em todas as refeições feitas em restaurantes, pubs ou cafés, chegando a £ 10 (US$ 13) por pessoa, às segundas, terças e quartas-feiras. Os britânicos receberam o desconto de bom grado. “A quarta passada foi o caos”, disse David Williams, coproprietário do Baltic Market, que abriga cerca de uma dúzia de bancas de comida de rua e bebida dentro de uma cervejaria do século 19 convertida em espaço comercial em Liverpool. 

Nas primeiras três semanas do programa Eat Out to Help Out (Coma fora para ajudar), 64 milhões de refeições – quase o suficiente para toda a população britânica, de cerca de 67 milhões de pessoas – foram consumidas usando o desconto, o que custou £ 336 milhões (US$ 441 milhões) ao governo.

Quando Rishi Sunak, principal autoridade financeira britânica, anunciou o desconto em julho, ele o descreveu como um meio “inédito” de oferecer apoio ao 1,8 milhão de pessoas trabalhando na indústria da hospitalidade. Entre abril e junho, a produtividade desse setor da economia despencou 87%. 

No primeiro dia, 3 de agosto, as vendas nos restaurantes tiveram alta de 100% em relação à segunda-feira anterior, de acordo com a consultoria CGA, que rastreia dados do consumo de refeições e bebidas nos restaurantes britânicos. “Subestimamos o efeito que o desconto teria”, disse Williams a respeito da medida, que incluía bebidas não alcoólicas. “Na maioria dos restaurantes de Liverpool, ficou impossível conseguir uma mesa entre segunda e quarta.”

A oferta do governo, potencializada pelo clima ameno do verão, estimulou os clientes a voltar aos restaurantes, especialmente nas mesas externas oferecidas por muitos estabelecimentos. Mas e se os clientes deixarem de sair de casa quando o clima esfriar? E se o desemprego aumentar quando o programa oficial de licenças chegar ao fim, em outubro?

“No momento, tento aproveitar todos os benefícios que o programa está proporcionando”, disse Williams. “Mas não consigo afastar a sensação de que estamos em uma espécie de lua de mel e, quando vier outubro, com o fim das mesas nas calçadas e das licenças pagas, a paisagem será diferente.”

Em uma recente noite de terça-feira, a região do Soho, no centro de Londres, assumiu um clima festivo. A chuva deu trégua, e as ruas foram fechadas para os carros, permitindo aos restaurantes que colocassem suas mesas na rua. Em várias ruas não se via uma única mesa vazia, e o ruído era comparável ao de uma noite de verão da era anterior à pandemia. 

Antes da pandemia, “era aqui que todos queriam estar”, disse Stani Visciano, maître do Lina Stores, restaurante italiano no Soho. Em uma noite típica, uma fila de clientes já teria se formado até as 17h, quando o restaurante abria as portas. O público que jantava antes do teatro se transformava no público da noite, e quem estivesse sem reserva teria de esperar bastante, disse ele.

A economia britânica teve desempenho pior do que qualquer outra na Europa durante o segundo trimestre do ano, por causa de uma quarentena mais longa e da alta dependência em relação aos gastos do consumidor. Para sair desse buraco, o país precisa que as pessoas voltem aos bares, restaurantes e cafés em grande número. O governo destinou £ 500 milhões para o desconto de 50% nas refeições de restaurantes, quantia que os economistas não consideram muito substancial ante os £ 190 bilhões que o governo pretende gastar na recuperação econômica após a pandemia.

Nova ‘psicologia’

Após passar meses alertando para os perigos dos espaços públicos fechados, o governo precisa agora convencer as pessoas que é seguro retomar seus antigos hábitos. Ao longo da crise, o governo recorreu a economistas comportamentais – e seus princípios parecem estar por trás do programa Eat Out to Help Out.

“Há duas forças psicológicas envolvidas”, disse Ivo Vlaev, professor de ciência comportamental da Faculdade de Administração Warwick Business School, que vem orientando o governo e o Serviço Nacional de Saúde na resposta à pandemia (ele não atuou no programa de descontos em refeições).

A primeira é a criação de hábitos, disse ele. Quando uma pessoa faz algo e é recompensada por isso, como no caso do desconto nas refeições, quando uma situação parecida surgir novamente, a lembrança da recompensa é um estímulo à repetição da ação – e isso continua até que a situação em si desencadeie a ação, independentemente da recompensa.

A segunda força é conhecida como “compromisso psicológico”, disse Vlaev. Para fazer com que as pessoas aceitem um pedido difícil, primeiro fazemos com que aceitem uma solicitação mais fácil de se aceitar. Os britânicos podem aceitar a oferta do desconto nos restaurantes, mas, quando estiverem saindo e se divertindo, o governo terá mais facilidade em convencer as pessoas a voltarem a escritórios, academias, teatros e assim por diante. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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