Governo cede, mas investidor quer mais

Executivos dizem que, além da taxa de retorno, outros riscos dos projetos precisam ser esclarecidos para dar atratividade ao negócio

O Estado de S.Paulo

09 de maio de 2013 | 02h05

O recuo do governo na revisão da taxa de retorno das concessões rodoviárias, de 5,5% para 7,2%, não foi suficiente para convencer a iniciativa privada da atratividade do negócio.

Alguns esperavam um aumento maior, para 10%. Outros ainda querem fazer as contas e avaliar as condições do edital e as premissas de financiamento para saber se o projeto fica ou não de pé. "De qualquer forma foi um primeiro passo. Mas só a taxa de retorno não define a atratividade de um projeto", afirmou o executivo de um grande grupo investidor.

A concessão dos 7,5 mil quilômetros de rodovias que vão a leilão, possivelmente no segundo semestre, é considerada arriscada do ponto de vista de execução das obras de recuperação e duplicação. São trechos longos, que exigem uma mobilização grande de pessoal em várias frentes de trabalho por toda a extensão da estrada.

Além disso, o cenário de inflação elevada e juros com viés de alta (a Selic está em 7,5% ao ano) exige ainda mais cuidado do investidor, afirma o presidente da Associação Paulista de Empresários de Obras Públicas (Apeop), Luciano Amadio, que esperava uma taxa de 10%.

Com o acúmulo dos investimentos nos primeiros cinco anos de concessão, há um temor de que possa haver pressão inflacionária sobre os principais insumos, como concreto, asfalto e cimento. Mudanças nesses custos podem comprometer todo o plano de negócio e afetar a rentabilidade do empreendimento, afirmam executivos da área de crédito.

A CCR, um dos maiores grupos de concessões rodoviárias do País, inclui na lista de riscos que podem melhorar ou piorar a atratividade das estradas outras variáveis, como valor do investimento, custo operacional, previsão de tráfego e demanda, regra de licitação e as condições do contrato de concessão. Para ela, esses fatores contam tanto na viabilidade do negócio como a taxa de retorno.

A companhia terá de esperar, no entanto, mais algum tempo para conhecer essas premissas. A expectativa do presidente da Empresa de Planejamento e Logística (EPL), Bernardo Figueiredo, é que os editais sejam publicados em julho. Isso se não houver nenhum atraso no Tribunal de Contas da União.

Na avaliação da CCR, os 7,2% anunciados ontem ficaram abaixo da taxa ideal, que refletiria todos os tipos de riscos inerentes do negócio. Nos cálculos do presidente do Sindicato Nacional da Indústria da Construção Pesada (Sinicon), Rodolpho Tourinho Neto, a taxa de retorno também deveria ser um pouco maior: em torno de 8%.

O executivo participou do encontro de ontem com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, com o secretário do Tesouro, Arno Augustin, e com as seis maiores concessionárias do País. "No nosso entendimento, a taxa antiga não cobria os riscos das operações", afirmou ele, para quem os debates promovidos com o governo sobre o reajuste da taxa foram "proveitosos". O Credit Suisse também entendeu que o aumento da taxa mostra que o governo mudou a mentalidade sobre participação do setor privado nos investimentos em infraestrutura.

Mas, como CCR, alerta para a necessidade de avançar em outros pontos importantes. Para o banco, a exigência de fazer a maior parte dos investimentos nos primeiros cinco anos de concessão tem sido o maior receio do setor privado. A regra estabelecida pelo governo é uma tentativa de evitar atrasos como os que ocorreram com as últimas concessões feitas. / RENÉE PEREIRA, LUIZ GUILHERME GERBELLI E WLADIMIR D'ANDRADE

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