Governo chinês quer desestimular protestos

Empenhado em levar adiante as reformas, Xi Jinping espera mudar a economia para evitar a derrota do Partido Comunista

Denise Chrispim Marin, O Estado de S. Paulo

31 de maio de 2014 | 16h44

PEQUIM - Estudiosos e autoridades chineses têm na ponta da língua uma pergunta ao desembarcar nos países mais chacoalhados por manifestações: “Quais são as causas dos protestos?” O relato de Margaret Myers, diretora do Programa sobre China do Diálogo Interamericano, expõe a preocupação do Partido Comunista com os protestos crescentes no país de Mao Tsé-tung.

“O partido, uma vez mais, precisa se legitimar. Não se trata mais de gerar crescimento econômico para amortecer a insatisfação popular. A questão é atender às demandas da nova classe média, que quer segurança alimentar, melhores serviços, Previdência Social, redução da poluição”, afirmou Margaret. “Quanto mais rápido o partido conseguir equacionar esses dilemas, mais rápido amortecerá os protestos.”

A China vive o dilema de O Leopardo, obra-prima de Giuseppe Tomasi di Lampedusa: “Algo deve mudar para que tudo continue como está”. No caso chinês, a mudança permitirá a sobrevivência do regime ditatorial liderado pelo partido único há 65 anos. O massacre da Praça da Paz Celestial, em 1989, é uma mancha na história recente da China, permanentemente recordada, do resultado dos protestos contra a repressão política e a lentidão das reformas econômicas. O país crescia pouco naquela época, apenas 4,1%.

Articulador da mudança, o presidente Xi Jinping, de 60 anos, foi empossado apenas três dias depois do anúncio de plano de reformas. Mas esteve envolvido diretamente na sua formulação e aprovação pelo politburo. Cuidadosamente, os inimigos civis de Xi dentro do politburo foram isolados. Alguns caíram em desgraça, como Bo Xilai, condenado à prisão perpétua em 2013 sob a acusação de corrupção.

Em seus primeiros dias de governo, Xi anunciou uma vigorosa campanha contra a corrupção, como forma de agradar massas aborrecidas com os escândalos, e se comprometeu com a solução dos graves problemas sociais. “Ainda é cedo para dizer se Xi Jinping terá sucesso. Mas ele tem maior controle sobre os militares do que seu antecessor, Hu Jintao”, disse Margaret.

O reformista Xi assumiu o caráter de um novo Deng Xiaoping, presidente entre 1982 e 1987 e comandante das mudanças que permitiram o salto dos últimos 30 anos. Deng começou a expor o país ao capitalismo. Xi deverá dar passos nessa direção para manter o partido no poder.

O atual presidente tem, como seu antecessor nos anos 80, uma forte convicção comunista. Era o presidente da escola do partido, onde os jornalistas chineses são obrigados a estudar a teoria marxista-leninista.

Segundo o ex-embaixador em Pequim Clodoaldo Hugueney, a legitimidade da nova administração chinesa depende da transparência do governo, da melhor regulação do partido e da separação entre a legenda - controladora do setor financeiro e das estatais - e a administração.

A China não tem preconceitos com ideias econômicas - apenas com ideologias políticas diferentes da sua - e não tem problemas em admitir ser uma ditadura. Mas os direitos humanos, lembrou Margaret, continuam a ser um tabu.

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