Governo compra software de R$ 8 mi para criptografia

Tecnologia para impedir vazamentos e evitar espionagem digital será usada por agentes de inteligência e policiais

MURILO RODRIGUES ALVES , BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2014 | 03h04

Depois do escândalo do vazamento de informações confidenciais do Itamaraty, o governo desembolsou R$ 8 milhões para comprar uma plataforma segura aos agentes de inteligência, policiais militares e civis de todo o País. Ainda neste ano, 10 mil profissionais ligados à Secretaria Nacional de Segurança Pública do Ministério da Justiça passarão a usar a plataforma para bloquear vazamentos e evitar espionagem no mundo digital.

A solução, criada por uma empresa 100% brasileira, inclui um pacote que protege compartilhamento e armazenagem de arquivos, serviço semelhante ao oferecido pelo Dropbox, troca de e-mails e conversas online ao estilo WhatsApp. Será usada em desktops, dispositivos móveis e tablets.

O vazamento de informações de computadores do governo federal cresceu quase dez vezes no segundo trimestre de 2014 em comparação ao trimestre anterior - passou de 26 para 243 casos, aponta relatório do Centro de Tratamento de Incidentes (CTIR) de Segurança de Rede de Computadores da Administração Pública Federal. A lista inclui o caso de documentos do Ministério das Relações Exteriores divulgados por hackers do grupo Anonymous.

A plataforma da Sikur, empresa de capital nacional, utiliza um sistema de criptografia de nível militar, uma técnica digital usada para embaralhar e ocultar informações, na busca de um ambiente privado e seguro. Para acessá-la é preciso um login, uma senha e uma contrassenha - esta última enviada ao celular do usuário. Mensagens só são enviadas e recebidas dentro da plataforma, capaz de bloquear toda tentativa de interceptação de dados.

Como medida adicional de segurança, documentos críticos, sensíveis e estratégicos podem ser elaborados no próprio Sikur. A plataforma funciona em nuvem privada ou pública. No caso do Ministério da Justiça, os dados ficarão nos servidores do órgão alocados no Serviço de Processamento de Dados (Serpro), que testou a tecnologia antes de ser adquirida.

"Trata-se de uma plataforma de comunicação segura, totalmente blindada", diz Cristiano Kruger Iop, dono da Sikur. Esgundo ele, Exército e Aeronáutica estão testando a plataforma. Para Iop, além das Forças Armadas, o produto tem potencial de venda à Receita Federal, Anvisa e Itamaraty, entre outros.

Snowden. Segundo projeção da consultoria Gartner, em 2020, falhas de segurança deixarão desprotegidos 75% dos dados sigilosos de empresas e governo, grande potencial para outros vazamentos.

Iop diz que, depois de Edward Snowden ter denunciado a espionagem do governo dos Estados Unidos, cresceu a procura por soluções de segurança por órgãos públicos. "A preocupação do governo brasileiro continua e, posso dizer, é até maior. Mas o desenvolvimento das respostas não se dá em velocidade tão rápida."

A Sikur foi recentemente certificada pelo Ministério da Defesa como empresa estratégia na área de defesa. A empresa tem escritórios nos Estados Unidos, Emirados Árabes, México, Colômbia e Chile. Projeta um faturamento na faixa dos US$ 30 milhões em cinco anos. A plataforma vendida ao Ministério da Justiça tem atualmente 14 mil usuários no Brasil, América Latina, Ásia e Europa.

O diretor-presidente do Serpro, Marcos Mazoni, disse que a solução foi comprada pelo Ministério da Justiça, e não desenvolvida pela estatal, porque tem funcionalidades que os produtos do Serpro ainda não oferecem. Ele afirma que a estatal tem um e-mail criptografado usado, entre outros órgãos, pela Presidência da República. A própria presidente Dilma Rousseff tem esse e-mail à disposição, entre outros.

Para o dono da Sikur, não se trata de uma concorrência, mas de trabalho conjunto.

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